Encontro-me neste momento em que escrevinho estas linhas perto de Valpaços, junto ao rio Rabaçal, no Parque de Campismo com o mesmo nome. Lugar acolhedor, com reconfortantes frescas sombras, praia agradável e uma água onde todos os dias nos refrescamos nadando e desfrutando de um prazer inigualável.

    A comparação é inevitável. O meu bom e velho "Bicho" perdido na memória da saudade daquele Ave, rio verdadeiro, que nos surripiaram em nome do falacioso progresso e do ilusório crescimento. Sim, fraudulentos, pois o progresso e o crescimento foram apenas para poucos. Para a grande maioria restou apenas a putrefacção, a poluição e o desemprego. Ainda por cima roubaram-nos o rio. O rio com R grande, rio de verdade. Com água. Água a sério, verdadeira, genuína. O rio que nos podia dar o lazer, a água, o prazer, o turismo, verdadeiro desenvolvimento suportado na exploração correcta de todas as potencialidades do rio Ave. Até hoje gastaram-se milhares em estações de tratamento, saneamento e propaganda, muita propaganda…milhares de todos nós. Onde? De que forma? Quem fiscalizou? Quem fiscaliza? Onde estão os resultados? Quando fica despoluído? Não devia estar já despoluído? Quem garante? O que acontece a quem promete e não cumpre? Já tantos por lá passaram… os Palhares, os Azuís, os Coutos, os Fernandes, os Vasconcelos, mais os de Guimarães, os de Famalicão, os de Vila do Conde, os do PS, os do PSD…e nada…nada. Muita promessa solamente. Onde está aquele rio da cor do arvoredo e do lodo, onde ainda se via o pé no sítio onde o mesmo se perdia quando se entrava por ele adentro? Onde estão aquelas margens de areal onde jogávamos, caminhávamos, conversávamos…? onde estão as clareiras rodeadas de árvores onde nasciam churrascos familiares e salutares convívios entre amigos nos fins de tarde e fins-de-semana? Onde pára o tremoço que se vendia no "Bicho"? A azeitona? E os barcos? O barco a remos dos bucólicos passeios do fim da tarde sob o arvoredo denso? Às vezes, únicas testemunhas de um beijo quase clandestino. Quem nos extorquiu o Rio? Quem gastou milhares do erário público na despoluição do Rio sem resultados? A culpa continua a morrer solteira neste país de imaginário e faz de conta onde se continua a entender ser inevitável haver pobres e mãos desempregadas e absolutamente natural os muito ricos serem cada vez mais ricos.

Por mero acaso, hoje, 9 de Agosto de 2008, compro o JN logo de manhã. Sem o saber deparo com o jornal interior dedicado integralmente à Trofa e às festas da Senhora das Dores. Nas grandes parangonas admiro o título da entrevista com o Sr. Presidente da Câmara: «Um lugar para viver, não para morar». Inicio a minha leitura. Muita Bondade. Mas falta-lhe a Beleza. Com tristeza e pesar, noto a ausência total de uma palavra, uma palavra séria, de "P" maiúsculo sobre a despoluição do Ave. Uma palavra sobre o futuro do rio Ave e das populações ribeirinhas. Sobre o seu aproveitamento. Tal como lia e relia as entrevistas dos autarcas do velho e gasto concelho de Santo Tirso, li e reli a gasta e velha propaganda do rol de feitos heróicos destes novos autarcas trofenses que tresandam a eleitoralismo demagógico. Aliás, segundo Castro Fernandes em entrevista dada a jornal nacional no passado recente, o Rio Ave já está despoluído. A patranha era tão grande, tão grande…que, logo de seguida começou a chover copiosamente por diverso tempo. É óbvio que o concelho da Trofa se desenvolveu nestes 10 anos. Certo é que se continuasse no marasmo do poder autárquico tirsense estaria pior. Mas, no global, o concelho da Trofa continua pobre. Pobre socialmente com a sua taxa elevada de desemprego. Pobre culturalmente porque o índice cultural das populações mantém-se deficitário. Pobre economicamente porque o poder de compra do seu povo permanece e decresce mesmo.

Assim, não basta acenar com o saneamento básico. É preciso pô-lo a funcionar efectivamente. A colocação de canos e ligações dá apenas canos e ligações colocados. Quase sempre sem qualquer fiscalização. Nos últimos dez anos o concelho perdeu o comboio de linha estreita. Até à data, incumpridas estão as promessas do metro em via dupla. Dez anos e nenhuma das variantes tão apregoadas desde o tempo de Joaquim Couto se iniciou. Em dez anos não se elaborou, discutiu e aprovou um Plano Director Municipal com cabeça, tronco e membros, verdadeiro motor de um crescimento sério e sustentado.

Não será por acaso que a entrevista mencionada não tenha uma palavra sobre o PDM e sobre a despoluição do Rio Ave. Recuperar margens e azenhas de nada servirá com o rio poluído. O coração continua ferido de morte.

Uma visão estratégica para o concelho que não passe pela despoluição do rio Ave, considerando-o como um dos eixos aglutinadores das populações trofenses, como um verdadeiro motor de desenvolvimento táctico do concelho, de forma a aumentar e aperfeiçoar todas as suas potencialidades, é uma visão política que nunca o foi, absolutamente condenada ao fracasso, mesmo que saia vitoriosa nas urnas. Daí que : "A Bondade que não tenha Beleza faz com que a Beleza não tenha Bondade".

Atanagildo Lobo.