Ano 2008
” A Bondade que não tenha Beleza faz com que a Beleza não tenha Bondade”
Encontro-me neste momento em que escrevinho estas linhas perto de Valpaços, junto ao rio Rabaçal, no Parque de Campismo com o mesmo nome. Lugar acolhedor, com reconfortantes frescas sombras, praia agradável e uma água onde todos os dias nos refrescamos nadando e desfrutando de um prazer inigualável.

Por mero acaso, hoje, 9 de Agosto de 2008, compro o JN logo de manhã. Sem o saber deparo com o jornal interior dedicado integralmente à Trofa e às festas da Senhora das Dores. Nas grandes parangonas admiro o título da entrevista com o Sr. Presidente da Câmara: «Um lugar para viver, não para morar». Inicio a minha leitura. Muita Bondade. Mas falta-lhe a Beleza. Com tristeza e pesar, noto a ausência total de uma palavra, uma palavra séria, de "P" maiúsculo sobre a despoluição do Ave. Uma palavra sobre o futuro do rio Ave e das populações ribeirinhas. Sobre o seu aproveitamento. Tal como lia e relia as entrevistas dos autarcas do velho e gasto concelho de Santo Tirso, li e reli a gasta e velha propaganda do rol de feitos heróicos destes novos autarcas trofenses que tresandam a eleitoralismo demagógico. Aliás, segundo Castro Fernandes em entrevista dada a jornal nacional no passado recente, o Rio Ave já está despoluído. A patranha era tão grande, tão grande…que, logo de seguida começou a chover copiosamente por diverso tempo. É óbvio que o concelho da Trofa se desenvolveu nestes 10 anos. Certo é que se continuasse no marasmo do poder autárquico tirsense estaria pior. Mas, no global, o concelho da Trofa continua pobre. Pobre socialmente com a sua taxa elevada de desemprego. Pobre culturalmente porque o índice cultural das populações mantém-se deficitário. Pobre economicamente porque o poder de compra do seu povo permanece e decresce mesmo.
Assim, não basta acenar com o saneamento básico. É preciso pô-lo a funcionar efectivamente. A colocação de canos e ligações dá apenas canos e ligações colocados. Quase sempre sem qualquer fiscalização. Nos últimos dez anos o concelho perdeu o comboio de linha estreita. Até à data, incumpridas estão as promessas do metro em via dupla. Dez anos e nenhuma das variantes tão apregoadas desde o tempo de Joaquim Couto se iniciou. Em dez anos não se elaborou, discutiu e aprovou um Plano Director Municipal com cabeça, tronco e membros, verdadeiro motor de um crescimento sério e sustentado.
Não será por acaso que a entrevista mencionada não tenha uma palavra sobre o PDM e sobre a despoluição do Rio Ave. Recuperar margens e azenhas de nada servirá com o rio poluído. O coração continua ferido de morte.
Uma visão estratégica para o concelho que não passe pela despoluição do rio Ave, considerando-o como um dos eixos aglutinadores das populações trofenses, como um verdadeiro motor de desenvolvimento táctico do concelho, de forma a aumentar e aperfeiçoar todas as suas potencialidades, é uma visão política que nunca o foi, absolutamente condenada ao fracasso, mesmo que saia vitoriosa nas urnas. Daí que : "A Bondade que não tenha Beleza faz com que a Beleza não tenha Bondade".
Atanagildo Lobo.


