O preço do leite, os custos de produção, a possível redução do apoio da PAC e a reputação do setor agrícola foram “preocupações” que a APROLEP levou até Marcelo Rebelo de Sousa, durante a visita do chefe de Estado a uma empresa agrícola familiar, em Esposende.

A 10 de maio, a Sociedade Agrícola Carreira Gonçalves, em Esposende, recebeu a visita do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa. Durante a visita, na qual foi mostrado ao chefe de Estado como estão alojadas 180 vacas leiteiras e lhe dado a provar o leite e o queijo produzidos por aquela empresa familiar, a Associação dos Produtores de Leite de Portugal (APROLEP), aproveitou para “pedir a intervenção” de Marcelo nos assuntos que, atualmente, “mais preocupam os agricultores e produtores de leite”.
Em nota de imprensa, a APROLEP – que é presidida pelo produtor da Maganha Jorge Oliveira – especificou que um dos temas abordados foi “o preço do leite e custos de produção”, sobre os quais, argumenta, está refletida a subvalorização do setor, “sem qualquer indicação” de inversão da tendência, o que “causa uma grande revolta, preocupação e desânimo” no seio dos profissionais.
“Em fevereiro de 2021, o preço médio ao produtor foi 30 cêntimos por quilo, o terceiro mais baixo da Europa. Em dezembro de 2020 o preço da ração começou a subir. Há agricultores a pagar 40 cêntimos por quilo de ração. Apesar de ser apenas 20 por cento da quantidade total de alimento ingerida por uma vaca, a ração representa 50 por cento dos custos de uma vacaria. Com isto, houve um aumento nos custos de dois cêntimos por litro de leite, sem qualquer compensação até ao momento”, expôs a associação.
As “perspetivas” de redução do apoio por via da PAC (Política Agrícola Comum da União Europeia), com que os agricultores foram “confrontados” no final de 2020, também foi um assunto abordado pela APROLEP, que se mantém reticente quanto à “compensação” anunciada pelo Ministério da Agricultura, através do “ajuste dos pagamentos ligados e à introdução de ‘eco-regimes’”. A “incerteza sobre o orçamento disponível para essas medidas” cria uma névoa de “preocupação”, admite a associação.

As vacas e a “má imagem” na comunicação social e escolas

Outro dos problemas apontados a Marcelo Rebelo de Sousa foi o que os produtores consideram a “imagem negativa” que está a ser associada à agricultura e à pecuária “nas escolas e na comunicação social”, nomeadamente no que diz respeito ao impacto provocado por estas atividades nas alterações climáticas.
“As vacas são apontadas como causadoras do aquecimento global, mas os dados da Agência Portuguesa do Ambiente mostram que a agricultura representa apenas dez por cento da emissão de gases de efeito de estufa (GEE), metade dos quais na pecuária. As vacas leiteiras são apenas 16 por cento do total de bovinos existentes em Portugal, pelo que as emissões do setor devem representar menos de um por cento das emissões do nosso país”, calcula a APROLEP.
A associação vai mais longe no tema e garante que, “no caso específico das vacas leiteiras, os dados disponibilizados pela Agência Portuguesa do Ambiente apontaram uma redução de 18 por cento da emissão de metano entre 1990 e 2017, devido à redução do efetivo leiteiro”. “Isso é confirmado pelos dados do último recenseamento agrícola, que apontaram uma redução de 11 por cento no número de vacas leiteiras entre 2009 e 2019”.
Sobre o “carbono libertado pelos animais”, a APROLEP aponta nova estimativa: “Fazendo o balanço de todo o complexo agro-florestal, contabilizando o carbono captado nas pastagens e floresta, estima-se que o setor contribua apenas com um por cento das emissões de GEE em Portugal, sendo, portanto, abusiva e tendenciosa a tentativa de atirar para a agricultura e para as vacas a culpa do aquecimento global”.