A grave crise económica e financeira, que Portugal está a viver há alguns anos a esta parte, é uma forte ameaça à capacidade de manter os níveis de qualidade de vida que os portugueses alcançaram até meados da década passada. Não é que alguma vez tivéssemos conseguido “dar o salto” para se atingir patamares de desenvolvimento, mas pelo menos não éramos considerados um país do terceiro mundo.

A entrada de Portugal no clube da zona euro, o clube dos ricos da Europa, fez nascer a esperança do desenvolvimento, e até de alguma “docilidade” face ao trabalho “braçal”. Foram enviados muitos milhões de euros para o “alcatrão” em contra-partida do abate da “fruta” e da “frota”. Talvez por isso, durante muitos anos, Portugal manteve uma quase constante divergência real de crescimento face aos parceiros. Temos vindo a pagar essa “fatura”, bem dolorosa.

Por isso, e também por se ter gasto aquilo que tínhamos e aquilo que não tínhamos, tivemos de pedir ajuda externa. Não havia outra solução. Foi o que se fez. Só que quem ajuda faz exigências, e foram muitas as exigências, que a “Troika” fez a Portugal: desde os cortes nos subsídios de férias e de natal; a redução do número de feriados; o aumento das tarifas dos transportes públicos, a redução do atual número de Freguesias, até o aumento dos impostos. E, como “bom aluno”, Portugal implementou, sem pestanejar, tudo aquilo que a “Troika” exigiu.

A política monetária da zona Euro, que até aqui foi “Merkozy” e num futuro próximo será “Merkollande”, também não tem ajudado, pois tem sido desadequada à realidade dos países envolvidos. A solução para o problema estrutural da Europa, deverá ser de crescimento económico, a par da contenção das despesas públicas. E não só esta; as consequências bem gravosas estão aí

A estagnação económica, a perda de poder de compra, as fragilidades ao nível dos salários e do mercado de trabalho, as desigualdades e assimetrias regionais, têm levado a uma descrença por parte da população e até a situações de falência de indivíduos, famílias e empresas. A última década foi a pior de que há memória para a economia portuguesa e o mau desempenho também se deve à assunção do papel de “bom aluno” e aos erros políticos que têm sido praticados por Portugal.

O triste cinzentismo a que a Europa chegou, mas também Portugal, não consegue ajudar os portugueses a saírem do estado lastimoso e grave em que se encontram. É uma “doença” que se prolonga no tempo e de difícil cura. Provavelmente, essa mesma “doença”, é causadora de inúmeros suicídios em Portugal, cujo número já ultrapassa o número de mortos provocados por acidentes ocorridos no nosso país. É triste, mas é a dura realidade!

Portugal está doente e pode morrer da cura, se não se tomarem medidas profundas em prol da reativação e do estímulo da economia. É preciso deixar a economia real respirar e investir mais nos portugueses. Se não agora – quando?

José Maria Moreira da Silva

moreira.da.silva@sapo.pt

www.moreiradasilva.pt

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