Invariavelmente, nesta altura escrevo sobre o 25 de Abril!

Escrevo sem me cansar e sem nunca ter qualquer necessidade de me repetir.

 Escrevo sobre a Revolução de Abril simplesmente porque, mesmo tendo nascido depois da Revolução, considero da maior importância recordar e exaltar todos aqueles que tornaram possível esta maior realização da história do Povo português.

Consciente do papel heróico e destacado dos comunistas em todo o processo de resistência e de construção da liberdade, foram também muitos milhares outros democratas que nas mais diversas tarefas, nos mais diversos momentos dos 48 anos de fascismo souberam manter a verticalidade dos princípios, a coerência dos valores da paz, justiça e liberdade. 

A actualidade de assinalar esta data assume maior relevo neste contexto em que aumenta o esforço em reescrever a história, em que se substitui geralmente a referência à ditadura fascista em Portugal pela expressão "Estado Novo" que o próprio regime da altura escolheu para se caracterizar. Em que se procura branquear a figura máxima da ditadura portuguesa construindo-lhe um museu glorificador e destacando características humanas, que alegadamente possuía, para esconder por exemplo as 20.552 prisões políticas realizadas só entre 1932 e 1951, ou as 10.000 mortes e os 30.000 feridos portugueses em 13 anos de guerra colonial, a par das muitas dezenas de milhares de mortos entre os povos das ex-colónias.

Igualmente hoje, procura-se relevar para um plano menos importante o conluio entre o fascismo português e a ditadura franquista em Espanha ou a colaboração com a Alemanha nazi. 

Escrevo também porque a viragem à direita, nas políticas que os sucessivos governos têm protagonizado, não só contribui para este branqueamento como afronta ferozmente muitas das conquistas alcançadas em 1974.

Contrariamente ao que muitos se esforçam por fazer crer, não é com leviandade que se acusa este governo do PS/Sócrates de ser de direita.

Atente-se em alguns exemplos: cresceu o desemprego, aumentam as injustiças e desigualdades sociais e regionais, há maior concentração de riqueza num número reduzido de famílias ao passo que alarga drasticamente o número das famílias a passar fome e em situação de pobreza, avança a progressiva liquidação de direitos fundamentais dos trabalhadores, aumenta a idade da reforma, encerram serviços públicos essenciais de uma forma como nunca se viu nestes 33 anos de regime democrático.

Por tudo isto, na passagem de mais um aniversário do 25 de Abril, faz todo o sentido denunciar a política deste governo e alertar que enquanto os mesmos de sempre (aqueles que vivem do seu trabalho) têm que apertar o cinto, há outros que multiplicam lucros como é o caso dos bancos privados, da EDP, da PT, da GALP e da SONAE.

Com uma conjuntura nuca antes encontrada entre governo e presidência da república, que apostam numa "cooperação estratégica", pode estar em causa a subversão dos valores do regime democrático consagrado na Constituição da República com a entrega ao sector privado de serviços do sector da saúde, da educação e da segurança social.

Com este caminho, não só de acentuam as dificuldades dos que menos têm e menos podem, como também se degrada o sector público ao mesmo tempo que se enchem os bolsos a uma meia dúzia de famílias. 

Neste momento de dificuldades, há que contornar conformismos. É momento de dizer basta e exigir o que temos direito.

Agora mais que nunca, é preciso defender os direitos, exercendo-os! 

Agora mais que nunca é preciso ir para a rua comemorar Abril, comemorar o 1º de Maio, garantir uma imponente jornada de protesto na greve geral já marcada para 30 de Maio. 
 

Jaime Toga

http://jaimetoga.blogspot.com/