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Edição 731

Pe. Luciano Lagoa: “Em tempo de pandemia, o desejo de um Natal em Alegria”

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Este ano de 2020 que agora termina e não deixa grandes saudades, tem inexoravelmente a marca do vírus que, parece, “veio para ficar e ficou mesmo”. É uma marca que não se pode tirar, quase como uma nódoa encardida: por mais que se queira lavar, não há hipótese de sair. Para a história, 2020 será sempre o “Ano Covid”: da distância, do medo, da insegurança, da incapacidade, da doença e muitas vezes da morte…

É neste cenário que se aproximam as grandes festas do final do ano… Não sem as necessárias restrições e apelos ao bom senso que, neste caso, gostaria de subscrever e evidenciar. Serão festas celebradas em ambiente anuviado mas isso não deve diminuir a vontade e a necessidade que todos temos de assinalar as datas importantes da nossa vivência humana. Para uns serão festas de celebração da família e de um novo ano que se deseja melhor, para outros (os crentes como eu), além desta dimensão humana, sublinha-se a entrada do Divino na nossa história a partir da encarnação de Jesus Cristo no seio de uma família humana, a Sagrada Família. Este mistério dá uma dimensão nova à história, de tal forma que todos os tempos, sobretudo os que se avizinham, terão sempre esta marca da presença de Deus – a sua Bênção.

E a Bênção não é mais do que a presença e o olhar de Deus que se lança amorosamente sobre a criatura tal como Jesus, o Filho de Deus abraçou a humanidade e se tornou Filho do Homem no seio de Maria. Haja o que houver, aconteça o que acontecer, venha o que vier, este é um tempo abençoado. Não é abençoado porque todos os problemas, receios ou sofrimentos se resolvam como por magia (geralmente as artes mágicas são apenas ilusões que levam a desilusões), mas sim porque sabemos que na aventura da vida – muito maior do que imaginamos – Deus vive connosco. Este Natal carregado com cores cinzentas, bem vistas as coisas, não é mais tenebroso do que o primeiro Natal com a Matança dos Inocentes.

Desejo pois que este tempo abençoado seja acalentador da Esperança, às vezes frágil, no coração de quantos vivem esta quadra particularmente no nosso concelho da Trofa e na Vigararia. Que a Bênção fecunda se estenda às famílias que neste ano ficaram sem a presença física de algum ente querido (por causa da epidemia ou não), a todos os que vivem nos lares do nosso concelho ou vigararia (talvez mais do que ninguém sejam eles quem mais tem sofrido com o vírus), a todos os doentes e pessoas mais necessitadas e carenciadas, a todos os profissionais de saúde que lutam contra este e outros vírus, a todos os outros profissionais no cumprimento dos seus deveres e obrigações, às nossas autoridades, a todos os que no escondido das suas casas ou dos Lares acolhem e tratam os doentes ou idosos, a todos os voluntários nos vários sectores de actividade mas de um modo especial os que colaboram com as paróquias, a todas as crianças, adolescentes e jovens e a todos os homens e mulheres de boa vontade. Em nome dos padres do concelho e da vigararia, um Alegre Natal para todos e um Ano Novo de PAZ…

Pe. Luciano Lagoa – vigário da Vigararia Trofa/Vila do Conde

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Edição 731

Memórias e Histórias da Trofa: Fome nas terras de Bougado

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O início do século XX não foi fácil para as gentes de Bougado, que se deparavam com uma grave crise económica e também social.

Poucos anos antes, concretamente em 1899, tinha sido aprovada a famigerada lei que protegia a produção nacional dos cereais, que, para proteger o tecido económico dos agricultores que tinham uma expressão exageradamente elevada na economia nacional, fazia aumentar os preços dos cereais e respetivo pão na venda ao público.

Sumariamente, a produção de cereal a nível nacional tinha de ser toda vendida e, somente aí ou então em casos muito excecionais, poderia ser adquirida no estrangeiro, sendo o grande mercado os Estados Unidos da América, que colocava os cereais a um preço demasiado baixo, considerando essa situação pela facilidade de produção e as grandes quantidade de área de cultivo.

A economia nacional caminhava em contraciclo com a do resto dos países da Europa dita evoluída. O setor secundário crescia e retirava importância ao setor primário, enquanto Portugal demorava a alavancar a sua indústria, apesar do esforço de vários anos do Marquês de Pombal e do Conde de Ericeira, entre outros, que pretendiam criar um país industrializado e ser capaz de criar um real valor na economia, não se limitando a exportar na sua maioria produtos agrícolas.

As terras de Bougado eram, nesta fase, (…)

Esta crónica só pode ser lida integralmente na edição impressa do jornal ou através da edição disponível para assinaturas online. Mais informações aqui

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Edição 731

Morreu o Maior*

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Desde que tenho memória de mim lembro-me do Maior sempre presente, mesmo quando estava ausente (estava marcado no coração)!

Os domingos na casa do Maior eram cheios, onde ele reunia a família, e pelo topo da mesa, lugar onde se sentava, todos os olhares e todas as conversas passavam por lá…era bem-disposto e gostava de conversas animadas, e para completar este quadro de desordem feliz, lá estava a Pantera, a cadela da casa!

A meio da tarde rumávamos ao Cine-Teatro Alves da Cunha, com balcão e onde a primeira fila da plateia eram cinco cadeiras, propositadamente lá instaladas para mim, para o meu irmão e para os meus primos. Estávamos tão próximos da tela que éramos engolidos por ela e sentíamo-nos personagens dos filmes!

O Cine-Teatro Alves da Cunha foi mandado construir pelo pai do Maior, que além da sala de espectáculos, tinha outros negócios, que lhe valiam respeito, mulheres e alguns filhos bastardos. Tudo isto associado ao fervor republicano, e os fervores não são bons conselheiros (digo eu), o pai do Maior deixou-lhe de herança, não dinheiro, mas o gosto pelas mulheres e uma vontade férrea para fazer o seu caminho!

Já aqui vos mostro que o Maior não é Deus, não quero desumaniza-lo, o Maior era gente!

Gente com a certeza de que o caminho para ter as coisas era o trabalho, e quando adolescente, trabalhava numa fábrica e no final fazia uns biscates de electricista. Um desses biscates, num final de tarde, foi na fábrica de chapéus do seu tio. Imagino-o a passar os olhos pelas empregadas, e ao ver uma, em particular, os olhos param e não avançam. Ela chama-se Maria e o Maior ficou encantado!

Ficando a saber que a Maria tinha vários pretendentes, o Maior tinha a seu favor o facto de ser sobrinho do patrão, mas não queria usar essa “arma”. Um dia chegou à fala com ela…oferecendo-lhe um quilo de figos.
Começaram a namorar, casaram e tiveram duas filhas. E desde que ofereceu esse quilo de figos à Maria, a mulher mais admirável e das mais bonitas que alguma vez conheci, a vontade férrea do Maior em busca de trabalho, para garantir o bem estar da família, levou-os por vários sítios. Para a Maria, na altura, apesar das dificuldades, o mundo perfeito era quando estavam os quatro, juntos!

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Novamente na Trofa e já definitivamente instalados, uma empresa com duas áreas de negócios começa a crescer, fruto do trabalho do Maior. Uma de electricidade, que lhe valeu instalar a rede eléctrica em Trás-Os-Montes (para quem estiver a ler este texto e estiver nesta região, é provável que todos os postes que ainda existam de madeira, tenham sido instalados por ele), e outra, fruto de um encanto de menino, o CINEMA!

Tenho bem presente, quando ainda pré-adolescente, o Maior me tirava a um dia de brincadeira e punha-me a levantar postes com os empregados. Desde cedo sempre quis mostrar, a mim, ao meu irmão e aos meus primos, que sem trabalho não se consegue nada…esse é o segredo…nós não entendíamos!
Com o passar dos anos, a parte eléctrica foi dando lugar ao cinema, e o Maior na década de 80 do século passado era o maior empresário cinematográfico do país, não contando com a Lusomundo, que além de exibidores, também eram (e ainda são) distribuidores, de quem o Maior era o melhor cliente.

Depois veio o vídeo e mais tarde os Multiplex e já ninguém ia aos Cine-Teatros ver cinema. O que ganhou foi-se perdendo, tendo o Maior vendido a sua “última casa”, o Cine-Teatro de Anadia, à Câmara local.
Apesar do que ele construiu, e perdeu, via nele sempre uma inocência de criança, que eu não entendia, e que o prejudicava. O Maior acreditava nas pessoas, acreditava na palavra dada e no aperto de mão. Desiludiu-se imensas vezes e mesmo assim não deixava de acreditar nas pessoas!!!

Após a “queda”, e já mais velho, a vontade de continuar a ganhar mundo e de trabalhar eram injecções de rejuvenescimento…e em vez de descansar “carregou o cinema às costas”!

Se em excursões, as pessoas do interior do país vinham ver o mar, o Maior e o seu cinema itinerante levaram a sétima arte às pessoas do interior. Tive a felicidade de, nas minhas férias da escola, fazer milhares de quilómetros com o Maior. Não raras vezes, quando chegávamos ao fim do mundo, eu perguntava:

– Já chegámos?
E ele respondia:
– Não! Ainda falta um bocadinho.
Quase sempre, quando parávamos para além do fim do mundo, a surpresa acontecia! Com o Maior fiquei a saber o quanto Portugal é bonito e a perceber as suas gentes…e a ele também!
Ele afinal era como aquelas pessoas do interior, gente de palavra e o aperto de mão valia o mesmo que uma assinatura…confiavam uns nos outros! Por isso ele se sentia tão bem…por lá!

Foram milhares de quilómetros, milhares de discussões, milhares de pontos de vista diferentes…e milhares de abraços que não te dei! Pensei que tinha todo o tempo do mundo, afinal eras o Maior…e dou por mim a pensar cada vez mais como Tu!

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Em Março de 2007, a mulher sempre presente, a Micas, como o Maior gostava de a tratar, devido a doença prolongada morreu numa madrugada de sábado, às quatro horas. O Maior passou o resto da noite a falar com a Micas, o seu Amor, e tenho a certeza que também lhe pediu desculpa de algumas coisas…afinal o Maior é humano!

A morte da Maria, a pessoa mais admirável que conheci, foi uma grande perda!

O Maior sentiu-a (muito), mas continuou a trabalhar, voltou a casar e a divorciar-se vinte dias depois (é mesmo o Maior), e eu, o meu irmão e o nosso primo Miguel, continuávamos a ir com ele, por vezes, a uma tasca em Vizela, comer e beber, que alimentava acesas discussões, muitos pontos de vista diferentes…e quem estivesse a observar, facilmente se apercebia o quanto aquelas pessoas se gostavam!
Aos oitenta e quatro anos o corpo do Maior começa a fraquejar e sinais de senilidade começaram a aparecer. Quando a boa vontade já não era suficiente para cuidar bem dele, foi para um lar, na Trofa. “Arrebitou” com a presença das meninas que cuidavam dele e mesmo na doença, levou-nos para um mundo que já existiu e no qual “mergulhávamos” com ele!
Os nossos encontros eram viagens no tempo, ao estilo “Good bye Lenin”, onde na cabeça do Maior estávamos ainda na década de oitenta, e falávamos da programação para os cinemas, se tinha ido buscar o amplificador à oficina e enviado a publicidade para a Régua,…e de repente, num lampejo de realidade e de saudade, perguntava:

– A Micas?
A saúde continuou a degradar-se e começou a fazer umas “visitas” ao hospital, cada vez mais prolongadas. Na última ida não iria regressar, e na última visita que lhe fiz, encontrei o corpo do Maior, que só respirava, mas ele já não lá estava…mas os olhos brilharam e captaram a minha atenção!
Estavamos sozinhos. Debrucei-me ao nível da cabeça dele e “espreitei” para dentro do seu olhar. No fundo dos olhos do Maior, via-o sentado no escritório a preparar a programação para o mês de Dezembro nos seus cinemas…e sorri! Dois dias depois, morreu.

21 de Dezembro de 2013, o Maior foi enterrado depois de décadas a “comer terra” como diria Miguel Torga e pela primeira vez vi um padre no final da celebração da missa a falar do defunto com um sorriso na cara e da alegria que foi ter conhecido tamanha figura, há muitos anos atrás, em Rio de Moinhos!
O Maior, pela sua actividade única (sem nunca ter pedido ou recebido subsídios), teve cartas de elogios de governantes, foi notícia em tudo o que é jornais, revistas e canais de televisão.

O Maior chama-se Joaquim da Costa Azevedo e é meu AVÔ!
Não me dêem os pêsames, dêem-me os parabéns por ser neto do Maior! 

* Texto escrito em 2013, dedicado a alguém especial e único.

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