Rui Mota Alves é um dos padres campeões europeus, no campeonato, que se disputou na Hungria. Vigário dedicou a conquista ao padre Manuel Domingues e às paróquias do Muro, S. Mamede e S. Romão e agradeceu o patrocínio do Grupo Proef.

Bíblia, batina e bola de futsal. À primeira vista, este conjunto pode não fazer sentido, mas foi com ele que Portugal arrecadou um título europeu. A seleção de padres portugueses venceu o 6º campeonato europeu de futsal da categoria, na quinta-feira, 9 de fevereiro, na Hungria. E no seio do plantel luso estava um atleta, ou melhor, um padre da Trofa. Rui Mota Alves, vigário do Muro, S. Mamede e S. Romão do Coronado, estreou-se na equipa e  classificou a experiência como “espetacular”. 

Os portugueses venceram a final contra a Croácia, cujo resultado foi 5-4, resultado obtido depois da marcação de grandes penalidades. Portugal jogou com seleções como a Eslováquia, Roménia, Ucrânia, Áustria, e Bósnia-Herzegovina, sofrendo apenas uma derrota, na fase de grupos, com a Polónia. A oportunidade de fazer parte do grupo surgiu quando “alguns amigos de Vila Real”, com os quais Rui Mota Alves estudou no seminário, o convidaram para ir a alguns treinos de pré-seleção no Marco de Canaveses. Passoua ir todos os domingos, até que a experiência tornou-se num projeto cimentado. “Começamos a treinar de forma séria, inclusive, fizemos um estágio em Lamego, em janeiro, e começou a aventura”,  contou.

A ideia de fazer um torneio europeu assentava nos pressupostos de que os párocos “se juntassem e, para além do futebol, rezassem, trocassem experiências culturais e pessoais”.

Ordenado há sete meses, Rui Mota Alves é um dos 12 sacerdotes da seleção das “quinas” que fizeram parte do lote de 11 equipas participantes no campeonato europeu. A Espanha foi “baixa” de última hora, pois não conseguiu participar.

Desengane-se quem pensa que os padres são “pés de chumbo” no que toca a dar uns chutos na bola. Exemplo disso era a presença de um sacerdote croata, que já jogou na Bundesliga. “Há gente muito boa e quatro ou cinco equipas muito talentosas”, confirmou Rui Mota Alves. E claro, como não podia deixar de ser, também a formação lusa tem “craques”, mas o padre tem a certeza que foi o valor coletivo que fez a diferença: “O melhor jogador foi a equipa”. Esta premissa retirada do meio futebolístico vai de encontro à tese que sustenta a vida: “Juntos, somos mais fortes do que individualmente”.

Rui Mota Alves acredita que este título da equipa pode ser um testemunho para quebrar a corrente que amarra a sociedade, que pensa que “sozinha pode fazer tudo sem precisar de mais ninguém”. Um dos pontos fortes da seleção portuguesa foi “defender muito bem” e ter uma referência no campo como “o padre Gil”, um “verdadeiro capitão”, “grande comunicador no balneário” e “um excelente jogador”.

A equipa de Portugal é composta por dois sacerdotes da diocese do Porto, três de Viana do Castelo, dois de Braga, quatro de Vila Real (campeã nacional de dioceses) e um de Lamego.

E como é que os jogadores se portam dentro das quatro linhas? Rui Mota Alves assegura que “não há insultos ao árbitro”, porque “não se esquece que o objetivo claro é a confraternização”.

Mesmo que os árbitros sejam de leste e a maioria das equipas também. “Podíamos era dizer uma ou outra palavrita menos bem dita por falharmos um remate, mas tudo em clima de paz sem nada de agressividade”, assegurou.

Paróquias trofenses “rezaram” pela vitória lusa

Rui Mota Alves estreou-se como representante luso no Europeu e classifica a experiência como “espetacular”… e exigente. Na terça-feira, o pároco ainda se sentia “exausto”. “Foi muito violento, mas valeu a pena todo este sacrifício”, desabafa. Se a noite da consagração “foi uma grande festa”, com cânticos e umas cervejas a acompanhar, mas “com responsabilidade”, já a chegada a Portugal foi quase apoteótica. Muitas foram as pessoas que aguardavam os campeões europeus no aeroporto. 

Neste torneio, a equipa contou com apoios “de peso”. Rui Mota Alves aproveitou para agradecer ao Grupo Proef, na pessoa de Paulo Sousa, que “desde a primeira hora” se dispôs a ajudar com “o patrocínio nos equipamentos, fatos de treinos e sweats”. “Foi o único patrocinador, juntamente com a Mikasa, que nos fornece as bolas todos os anos”, acrescentou. Rui Mota Alves dedicou a vitória “ao padre Manuel Domingues, que possibilitou que pudesse treinar e estar fora durante a semana”, e “às comunidades de S. Mamede, S. Romão e Muro”. “Recebi muitas mensagens das pessoas e na parte final do domingo que passou agradeci-lhes as orações que fizeram para que as coisas corressem bem. Felicitaram-me bastante e ficaram contentes e eu senti uma grande alegria por parte delas e um certo orgulho por terem um campeão europeu”, afiançou.

Para o próximo torneio europeu, que já tem lugar marcado na Eslovénia, Rui Mota Alves acredita que a equipa pode “escrever uma página engraçada na história”, porque, sublinha, “modéstia à parte, jogamos mesmo muito bem”. “As pessoas quase nos pediram para cantar o hino, porque nós fazêmo-lo com muita alma”, frisou. “A chave da nossa vitória esteve aí, porque havia equipas, tecnicamente, superiores, mas é na garra e na entrega que está o sucesso no futuro. Mas temos que trabalhar já para que no próximo ano possamos ganhar novamente o troféu”, complementou. Aliás, os paroquianos sabiam da sua participação no torneio, porque “na relação do padre com as paróquias tem de haver verdade e transparência”.

Futebol “é um meio de evangelização”

Com 28 anos, Rui Mota Alves, um envergonhado assumido, é portista de gema e tem como referências o antigo “patrão” da defesa azul e branca, Jorge Costa, e, claro está, o lendário guardaredes Vítor Baia. Já teve convites
para ser treinador de uma tuna universitária em Oliveira do Douro e às quartas-feiras costuma juntar-se com padres da Trofa, como Luciano Lagoa e Bruno Ferreira, e alguns de Santo Tirso e Vila do Conde, para uma “futebolada”.

O padre não tem dúvidas que o futebol “é uma forma de aproximar os miúdos” e por isso anda sempre com uma bola na mala do carro. “Eu estive fora do seminário um tempo e dei aulas de Educação Moral. Tinha um aluno
muito problemático e fazíamos programas de acompanhamento até que eu percebi que ele gostava de futebol. Comecei a andar com a bola e, de vez em quando, chamava-o para jogar com ele e os amigos nos intervalos.

Foi a partir daí que ganhei confiança com ele”, afirmou. Rui Mota Alves não tem dúvidas que o futebol “é um meio de evangelização”, não a bola em si, que se assume apenas como “o elo de ligação” entre as pessoas.

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