Durante muito tempo e ainda hoje, alguns dos nossos políticos foram e são identificados como cassetes. Criou-se uma tendência, muitas vezes premeditada, para comparar certas posturas e desempenhos políticos, por alegadamente se repetirem, a cassetes. Por muitos e diversos motivos, que não importa agora analisar, são os elementos do PCP os mais referidos nessa similitude.

 A tal ponto de os próprios bonecos que imitam os representantes do PCP na "contra-informação" do canal 1 serem conhecidos por cassetes… era o C. Cunhal, a C. Odete, o C. Carvalhas e agora o C. Jerónimo. Será que existe um fundamento real para isto? Analisemos a mensagem que C. Jerónimo disse no final do ano que agora deixamos, já que das mensagens dos outros não falta quem a elas se refira. Assim para C. Jerónimo, 2007 «…foi o ano em que o desemprego atingiu o seu valor mais elevado desde o 25 de Abril, com mais de meio milhão de desempregados». Foi o ano em que encerraram centenas de empresas e em que «…grandes multinacionais abandonaram o país, como …a Opel na Azambuja e a Alcoa no Seixal». Foi o ano em que a precariedade continuou a crescer. «…Mais de um milhão e meio de trabalhadores enfrentam a instabilidade e a chantagem …em virtude dos seus vínculos precários. Os jovens são os principais visados no desemprego». Foi o ano do «…encerramento de serviços públicos e de destruição do Serviço Nacional de Saúde». Foram fechadas centenas de escolas, maternidades, urgências e serviços de atendimento permanente. Foi o ano onde salários, reformas e pensões diminuíram face ao aumento generalizado dos preços de bens e serviços essenciais, «como foi o caso dos empréstimos à habitação cujos aumentos atingiram de forma implacável mais de um milhão e meio de famílias». 2007 foi o ano de contínuos ataques à Constituição da República, uma persistente degradação do regime democrático, «…visível nos ataques à liberdade e à democracia, na tentativa de intimidar a actuação dos sindicatos, nas limitações à liberdade de expressão e ao direito de propaganda e que são inseparáveis da ofensiva económica e social». Foi o ano de mais federalismo europeu, de mais neoliberalismo e mais militarismo. O tão propugnado tratado de Lisboa mais não é que um profundo revés nas aspirações do povo e dos trabalhadores e um retrocesso no equilíbrio politico. É, desde logo bom exemplo do que acabamos de afirmar, o não recurso ao referendo por Sócrates, violando a promessa eleitoral, dando o dito por não dito, sem qualquer decoro. Já o dissemos uma vez e repetimo-lo como se fossemos uma cassete. A ratificação do tratado sem referendo, como pretendem PS e PPD/PSD, denota apenas medo. MEDO que o povo, os trabalhadores digam NÃO. Digam não a esta Europa que continua a funcionar na base da exploração do homem e sustenta, suporta e alimenta as condições indignas de pobreza em que vive ainda parte significativa da população. Esta Europa que vergonhosamente aprofunda as assimetrias sociais e regionais. Um autêntico acto de cobardia política. Mas denota também grande fragilidade e sobretudo pouco respeito pela democracia. Realizar referendo apenas quando convém. Arredá-lo quando não interessa, é próprio de quem impõe totalitariamente o que pretende. Mas 2007 foi também o ano de «…novos lucros fabulosos para a banca e para os grandes grupos económicos que são um insulto às condições de vida da população». Foi igualmente um ano de resistência e de lutas. Por melhores salários, pelo direito ao emprego com direitos, pelo serviço nacional de saúde, contra o encerramento de serviços públicos, pela mudança de política, cujos picos foram atingidos na greve geral de 30 de Maio e na enorme manifestação de 18 de Outubro.

Em 2008, continuará a luta. Já foi anunciado o novo pacote laboral. Com uma nova cosmética tentarão alcançar o que sempre pretenderam: despedir sem justa causa e acabar com o horário de trabalho. Persistirão nos encerramentos de urgências e outros serviços públicos, como aconteceu recentemente em Anadia; insistirão nos despedimentos e nos encerramentos de empresas, como está acontecer com a Yasaky Saltano. E continuarão a agravar-se as condições de vida dos portugueses em geral. A ofensiva contra os trabalhadores, contra o povo, já começou. Aumentos de 30% no pão, 5 a 10% no leite e derivados, 4% nas taxas moderadoras, 3,8 % nos transportes públicos, 2,9% na electricidade e acima de 4% no gás, 2,6% nas portagens, etc… e assim serão mais uma vez ( como uma repetição, como uma cassete ) os pobres e todos os outros cidadãos da classe média e média baixa, que estão cada vez mais pobres, que constituem a grande maioria do povo português, que permanecerão a pagar a crise. Assim, pouco mais ou menos, para não ser eu próprio acusado de cassete, falou Jerónimo de Sousa, ou melhor, para não ser acusado de tendencioso, "cassete" Jerónimo.

Em contrapartida qual foi a mensagem do P.Ministro. Nada mais, nada menos do que a mensagem que todos os anos, pela época natalícia, transmitiram, no passado, todos os outros primeiros-ministros. Autênticas cassetes. Quase ao jeito do boneco Sócrates do gato fedorento: Este foi um ano de recuperação e de resultados positivos para o nosso País; vencemos a crise; tudo melhorou; há ainda um longo caminho a percorrer mas, com mais alguns sacrifícios de todos os portugueses, tudo melhorará ainda mais no próximo ano.

Afinal quem é cassete? Mas mesmo partindo-se do princípio de que todos são cassetes, apenas uma repete a verdade, não é isto verdade…? Obviamente que é C. Jerónimo que reproduz a verdade. Todos nós que vivemos a realidade, que trabalhamos, pagamos as contas, e contamos o dinheiro a ver se chega para as necessidades básicas e para as prestações, num esforço enorme de sobrevivência, sabemos que a verdade vem de C. Jerónimo e dos outros C.C.C. do PCP.

 

Atanagildo Lobo