Estão presentes nos momentos mais delicados da vida humana. Estão presentes no nascimento, na doença, na prevenção, na cura, na morte. São anjos vestidos de farda, que têm uma das profissões mais nobres. Apesar das dificuldades do setor, dos turnos extenuantes e dos cenários complexos, estes profissionais nunca viram as costas ao doente e têm sempre uma palavra, um sorriso e um abraço para dar. O NT conta um pouco da história de cinco enfermeiros que, em Portugal ou no estrangeiro, tentam dignificar a classe que representam.

Pedro Leal
“Não há ordenado que pague um ‘obrigado’”

Trabalhou debaixo de neve e gelo e no “inferno” dos incêndios. Já foi ao mar resgatar uma vítima a bordo de um cargueiro e já subiu a uma grua, porque o manobrador enfartou. Está “onde ninguém quer estar” e vê “o que ninguém quer ver”. Mas a paixão pela emergência extra-hospitalar faz Pedro Leal aceitar o risco e as dificuldades inerentes a quem veste a farda do INEM.
Trofense de gema, este enfermeiro que começou por estudar Ciências Farmacêuticas percebeu que o seu lugar era junto do doente, a ajudá-lo. A confirmação da vocação surgiu na primeira hora que cumpriu no estágio de observação na Viatura Médica de Emergência e Reanimação do Hospital de S. João. “Aquela hora mudou radicalmente a minha vida. Foi ali que decidi que o meu futuro teria, inevitavelmente, que passar pela farda INEM”, contou ao NT.
Hoje, passada mais de uma década e a integrar atualmente a equipa de Suporte Imediato de Vida (SIV) de Vila do Conde, garante que continua a viver este trabalho “com o mesmo amor e entrega daquela primeira hora”. Pedro Leal encontrou no INEM tudo o que procurava, “ausência de rotina, um misto de emoção e adrenalina, mas acima de tudo poder fazer realmente a diferença na vida das pessoas”.
E porque os enfermeiros nesta condição estão presentes “nos momentos mais delicados da vida das pessoas”, é necessário “estofo” emocional para enfrentar “cenários muitas vezes traumáticos e cuja gestão não é fácil”. Para isso, conta Pedro, há “formação” para responder à “exigência” psicológica, mas também, “e não menos importante”, aguentar com o “desgate físico e o risco elevado de lesões”.
Às formações periódicas e recertificações obrigatórias, Pedro Leal, que cumpriu pós-graduação e mestrado na área da emergência e doente crítico, acrescenta diversos diplomas: “Curso de Triagem CODU, Suporte Básico de Vida, Desfibrilhação Automática Externa, Tripulante de Ambulância de Socorro, Condução em Marcha de Emergência, Suporte Imediato de Vida, Suporte Avançado de Vida, Trauma/Desencarceramento”. “Em contexto de serviço, temos formação contínua em Unidade de Cuidados Intensivos, Sala de Emergência, Bloco de Partos e, brevemente, Pediatria, já que no âmbito da nossa missão atendemos desde o utente recém-nascido até ao adulto”, explicou.
Toda esta preparação contribui para que um enfermeiro que encontra situações muitas vezes difíceis de enfrentar, consiga atuar com eficiência e distanciamento emocional. E se, no momento, os sentimentos não podem ser extravasados, fora do serviço há que “descarregar” o peso das emoções. “Esta catarse pode, deve e tem de ser feita. Normalmente é feita dentro da equipa e, verdade seja dita, estamos inseridos numa verdadeira família – os nossos colegas – que nunca desiludem e estão sempre presentes. E é dentro desta família que se conversa, que se chora, que se ri e que se ganha força para a próxima vez que o telefone toque”, explicou Pedro Leal, que admitiu que, apesar de não conseguir dissociar completamente a vida profissional da vida pessoal, os momentos em família, com amigos ou na solidão são “essenciais”.
E se em cada cenário, houver um “obrigado”, o enfermeiro garante que todo o esforço compensará: “Não há ordenado que pague esta palavra e em tom de confidência admito que são os muitos ‘obrigados’ pelo caminho que me fazem querer ficar nesta missão muitos mais anos”.
São já muitas as experiências que Pedro Leal viveu com a farda do INEM e que tem anotadas para, quem sabe, um dia na reforma publicar um livro de memórias. Desse levantamento, soma ocorrências “atípicas ou marcantes”, relatando o que existe “de melhor”, como “os partos, um louvor da PSP e da Marinha/ISN e uma caixa de leitão entregue na base por um senhor que nesse mesmo ano tinha entrado em paragem cardiorrespiratória e que foi revertida”, e “de pior”, como “a morte de crianças, os bombeiros queimados nos incêndios, a chegada a ocorrências multivítimas onde ainda não chegou ninguém, a ida ao mar em pleno alerta vermelho de tempestade e os agentes da autoridade baleados num assalto numa noite no Porto”. Este livro, garante, “será o derradeiro exercício de catarse”.