Estão presentes nos momentos mais delicados da vida humana. Estão presentes no nascimento, na doença, na prevenção, na cura, na morte. São anjos vestidos de farda, que têm uma das profissões mais nobres. Apesar das dificuldades do setor, dos turnos extenuantes e dos cenários complexos, estes profissionais nunca viram as costas ao doente e têm sempre uma palavra, um sorriso e um abraço para dar. O NT conta um pouco da história de cinco enfermeiros que, em Portugal ou no estrangeiro, tentam dignificar a classe que representam.

Ir e voltar para ter emprego e ser bombeiro

Há quatro anos, Marco Silva tomou a decisão “difícil” de emigrar. Viajou para Inglaterra para conseguir exercer enfermagem, área em que se formou, mas que em Portugal não conseguiu adquirir experiência. Até voar para Inglaterra, o jovem, atualmente com 27 anos, trabalhou numa empresa de sistemas de extinção de incêndios, numa pastelaria e numa serralharia. A única proposta na área de enfermagem não lhe pareceu “justa”. “Queriam que fosse responsável clínico de um lar, a receber o salário mínimo nacional”, contou.
Sem soluções, Marco decidiu pela emigração, chegando a um país “em que mal conseguia ter uma conversa informal, quando mais um diálogo técnico”. Mas tudo se consegue e a adaptação foi acontecendo “com o suporte” dos superiores hierárquicos. E o crescimento foi tal que, atualmente, Marco Silva é “chefe de turno” no serviço de urgência do Luton and Dunstable University Hospital. “Sou também responsável por gerir a equipa de enfermagem e coordenar o funcionamento do serviço de urgência na maioria dos meus turnos”, explicou.
A ligação com Portugal, porém, manteve-se forte, já que durante algum tempo regressava “de dois em dois meses” para conseguir cumprir o número de horas obrigatórias de voluntário nos Bombeiros Voluntários da Trofa. “Muitos diziam que era impossível, tentei provar o contrário e por algum tempo consegui com a ajuda e flexibilidade do comandante dos bombeiros na altura, basicamente mais de metade do tempo das minha férias era passado no quartel de forma a atingir as horas mínimas e assim fui conseguindo, aliás superei por muito o número mínimo de horas”, relatou.
Com prejuízo no convívio com família e amigos, Marco foi conseguindo levar este ritmo de vida até a namorada decidir ir viver com ele em Inglaterra. “Optamos por viajar pelo mundo e, agora, vamos mais ou menos a cada três meses. Este facto fez com que não conseguisse atingir o número mínimo de horas de formação e passasse ao quadro de reserva onde me encontro agora”, explicou.
Ora, o esforço que Marco fez é prova mais do que suficiente do amor que sente por vestir a farda de bombeiro. “Não abdiquei dos meus amigos, da minha namorada ou da minha família, porque iria abdicar da paixão de ajudar os outros e daquilo que me faz sentir vivo e importante na sociedade?”, atira, para logo depois explicar, com lamento, que se vai manter no quadro reserva para conseguir “ter uma vida mais estável com a noiva”.
Marco Silva sente-se vivo a ajudar e o cenário de urgência é aquele que melhor encaixa nas preferências. “Quem sabe um dia vou um pouco mais longe e chego a trabalhar como enfermeiro de pré-hospitalar numa equipa helitransportada?”, vaticina.