Na Trofa, os cristãos ortodoxos da paróquia de Santa Catarina celebraram, em Dia de Reis, o nascimento de Jesus, com uma celebração na Igreja Matriz de S. Martinho de Bougado.

À primeira estrela a aparecer no céu na noite do dia 6 de janeiro, segundo o nosso caléndário, os cristãos ortodoxos reúnem-se nas suas casas à volta da mesa de jantar, antes de seguirem para a missa vespertina. Este é, segundo o rito bizantino oriental, o momento que marca o início da véspera de Natal.

A ceia, que encerra o período da “Pelêpivka” (quaresma de preparação ao nascimento do Filho de Deus), conta com uma ementa de 12 pratos de peixe, onde não pode entrar nenhum tipo de carne ou gordura animal, que correspondem a cada um do apóstolos de Jesus e às 12 tribos de Israel, um número que na Bíblia está associado ao conceito de plenitude. Nesta noite, o prato principal dos ortodoxos é a “Kutia”, doce à base de trigo cozido com mel e sementes de papoila moída, ingredientes usados na doçaria oriental. Na ceia não pode ainda faltar o alho, a cebola, o sal e o pão, símbolos de riqueza e prosperidade na Igreja Ortodoxa. Já no dia de Natal e nos dois dias subsequentes, os almoços e jantares dos cristãos ortodoxos são à base de carne fumada.

Pelas 21.30 horas, dezenas de cristãos ortodoxos reuniram-se na Igreja Matriz de S. Martinho de Bougado, para a Divina Liturgia (ou missa), onde celebraram o nascimento do Menino Jesus.

Antes da cerimónia litúrgica, que corresponde à Missa do Galo católica, os ortodoxos cumprimentaram-se dizendo que “Jesus vai nascer”. A celebração foi marcada por muitas canções natalinas, onde todos cantam e saúdam-se com a saudação típica para a festa do Natal: Xrestós Rodêvcia – Slavimo Iohó (Cristo nasceu – Glorifiquemo-lo). No final, quando o sacerdote se despede profere o cumprimento “Jesus Nasceu”, que é usado pelos ortodoxos durante os três dias de festa. Durante a cerimónia, tanto o pão (sem fermento e sal) como o vinho, utilizados durante a Consagração, são, previamente, cozidos/fervidos pelo sacerdote.

No dia em que os cristãos católicos celebraram os Reis, os ortodoxos comemoraram o nascimento do Menino Jesus. A explicação do porquê de os ortodoxos só agora celebrarem o Natal é simples. É que a Igreja Ortodoxa nunca aceitou a reforma do calendário, feita em 1582 pelo papa Gregório XIII, continuando a utilizar o calendário juliano, criado por Júlio César (em 45 antes de Cristo), que tem mais 13 dias do que o calendário gregoriano, adotado pelos católicos apostólicos romanos. Isto significa que o dia 25 de dezembro do calendário pelo qual se guiam os cristãos ortodoxos corresponde ao dia 7 de janeiro do calendário pelo qual se guiam os católicos apostólicos romanos. Apesar de serem fiéis ao mesmo Deus, católicos e ortodoxos distinguem-se pelas cerimónias e ritos litúrgicos. Esta é uma entre várias diferenças.

Em declarações à agência Lusa, o sacerdote ortodoxo Alexandre Bonito explicou ainda que nesta noite não há o hábito de oferta de presentes nem a “figura” do “Pai Natal”, como acontece no Natal dos católicos. A troca de presentes também existe, mas no dia 4 de dezembro, dia de S. Nicolau, um santo popular entre os cristãos e conhecido pela sua generosidade.

Segundo Alexandre Bonito, para os ortodoxos mais importante do que o Natal é a Páscoa, que este ano celebra-se exatamente na mesma data em que os católicos romanos a festejam.

Reza a história, que católicos e ortodoxos fizeram parte da mesma Igreja, tendo se separado definitivamente em 1054. Além de calendários diferentes, os ortodoxos não reconhecem a autoridade do papa e apenas admitem nas igrejas pinturas de santos. Um sacerdote pode ser casado.

Contudo Alexandre Bonito referiu que há uma aproximação entre as duas Igrejas, admitindo que “com este papa penso que o avanço ainda vai ser mais visível”.