Nem seleção, nem Ronaldo, nem Fátima. Nada nos valeu. Andamos sempre com o credo na boca, profanamente benzemo-nos por tudo e por nada. Por tudo e por nada fazemos promessas…sempre em troca de qualquer coisa, o que configura mais um negócio. Banalizamos em demasia as coisas da vida e da morte. Já deveríamos ter aprendido não viverem os deuses tão preocupados com a mesquinhez das nossas necessidades, com as nossas terrenas angústias e com as futilidades dos nossos anseios.

Não querendo acreditar no maior poder dos deuses americanos e alemães sobre os deuses portugueses, aprendamos a relativizar as coisas e a não endeusarmos simples mortais. Ronaldo apenas joga a bola. Não inventou uma cura contra o cancro. E mais fez no desporto o Rui Costa, ciclista. É campeão do mundo e venceu a volta à Suíça três vezes. Feitos que resultam objetivamente do seu exercício e não de um critério subjetivo de comuns mortais. Talvez seja tempo de pensarmos mais no nosso destino coletivo, no rumo que queremos para o país, para o nosso concelho, para a nossa freguesia, para a nossa vida. Vivemos um tempo perigoso.

O Poder atrai. O Poder corrompe. E usa da argúcia, da mentira, da astúcia, da subtileza, da arrogância, da falsidade, da confusão, do medo, mas também da promessa, do negócio, da miragem, características destes novos deuses que nos levam neste dogma da inevitabilidade do percurso que trilhamos, recusando e negando qualquer outro. São falsos deuses que ao inferno nos estão a conduzir. De alguma forma conseguem adormecer-nos e sedar-nos. Ficamos sem ou com pouca reação à vontade destes novos deuses. Quase certos da invencibilidade do seu poder financeiro. Eles exigirão o juro que bem entenderem, nós pagaremos…até ficarmos…sem nada. É necessário um levantamento contra os falsos deuses, a expulsão dos vendilhões do «templo». É necessário a recuperação do espirito fraterno e solidário. É imperioso um «basta», um «fim» a esta política que alguns dos novos deuses, nem sequer escondem, nos leva por 30 anos de sacrifícios.

Foi O BPN, O Banif e agora o BES. Enquanto não tivermos um estado com um governo democrático e de esquerda, que coloque os sectores estratégicos da economia ao serviço do país e do povo, nomeadamente a banca, mas também os sectores energéticos, será muito difícil «fazermos o céu na terra». Se é objetivo nosso uma sociedade melhor, com equidade e justiça, porque não trilhar o sentido inverso ao que vem sendo seguido. Porque não colocamos ao serviço do povo português a eletricidade, os combustíveis e os bancos, só para falar dos principais, em vez de os entregarmos, e de «mão beijada», aos grandes interesses económicos nacionais e estrangeiros. Só por esse caminho, penso eu, conseguiremos aniquilar os novos deuses que falaciosamente e argutamente nos colocam a invocar o nome de Deus…em vão. Com aqueles que resistem, que não se resignam e de uma ou outra forma, vão lutando contra o muro da inevitabilidade construído de austeridade sobre austeridade e vai alargando o território da pobreza, «recuso-me a ter medo e a estiolar/Na concha dos poetas sem mensagem/Que me levem o corpo e a coragem/Mas que me fique esta voz para cantar». 

Guidões, 30 de Junho de 2014,
Atanagildo Lobo
*Extrato de poema de José Saramago