Do manifesto Anti-Dantas de Almada Negreiros

Não és um destes jovens licenciados a quem Passos Coelho de forma cínica aconselhou a emigração há menos de dois anos.

«O meu amigo está longe e a distância é bastante». 

Hoje, sem qualquer despudor, PSD e CDS e outros que por aí andam sem qualquer vergonha, prometem um futuro que não existe num país chamado Portugal, que não o é. Mas, afinal, mudou alguma coisa de há dois anos para cá? Os Coelhos, os Portas, os Albuquerques, e todo aquele rol extensíssimo de «gente notável» que consta do «manifesto anti-Dantas» de Almada Negreiros, mais os «exterminadores» e os «destroikadores» propalam aos quatro ventos «o amanhã que virá» com a «despedida» da Troika. Mas tu, meu caro amigo, continuas emigrado. E tens 54 anos. Não és um jovem. E quantos como tu se viram nessa necessidade, agora. Deixar a família, os filhos, os pais, os amigos…ir trabalhar para o estrangeiro…para se continuar a viver…a sobreviver. Há tanta tristeza nisto como nas histórias das guerras. 

«O meu amigo está longe e a tristeza é bastante»

Só em 2013 emigraram cento e vinte mil portugueses. Porquê? Onde está a maravilhosa europa e o fabuloso euro que nos endeusaram de forma ardilosa? Voltam agora, mais uma vez, com as patranhas, para enganar novamente. Veremos se colhe mais uma vez «o canto da sereia»! Contamos com longas décadas de governos do PSD e PS, com ou sem CDS. Sócrates começou os PECs. Chamou a Troika. Foi aplaudido de pé por PSD e CDS. Catroga regozijou-se, vangloriou-se, extasiou-se. Passos disse: «Iremos mais longe do que a Troika». O PS ganhou eleições, na França, na Holanda… foi para o poder na Alemanha. Mudou alguma coisa? NADA. Todos, PSD, PS e CDS submeteram-se subservientemente ao interesse da alta finança, dos mercados, dos que nos querem pobres e mais pobres. 

«O meu amigo está longe e a saudade é bastante!»
O desemprego real chega aos 25% (desempregados registados, inativos indisponíveis e subempregados). São cerca de um milhão e meio de pessoas. Só no primeiro trimestre deste ano, a população ativa perdeu cerca de sessenta mil pessoas. A emigração vai continuar, em todas as idades. «Nenhum Juízo Final…pode dar-lhes aquele instante que não viveram» com os seus, porque emigraram. A taxa de desemprego jovem atinge os 36% pelo que irá prosseguir a emigração jovem forçada. E ainda há quem tenha a «coragem» de vir falar em «saída limpa» e de já conseguir ver «luz ao fundo do túnel». Para aqueles que têm ganho com a crise, os que enriquecem com a crise, e que bem sabemos quem são, e para aqueles que os servem e que ganham com esta política, o país avança, a economia cresce e os lucros aumentam. Claro que para estes nunca houve crise, nem nunca sofreram com a crise. Esses, não é uma luz ao fundo do túnel que topam. É uma girândola apoteótica cintilante de cifrões e mais cifrões de que se apropriam.

Os portugueses têm mais uma vez a possibilidade de dar um não a esta política de empobrecimento do nosso povo através do voto. Do voto contra este tratado orçamental, contra a ditadura do défice, contra este terrorismo de estado, contra este euro, contra esta Europa que só defende os ricos e os poderosos. O voto na CDU garante, com confiança, essa luta, mas também um outro caminho, uma alternativa e justiça, mais justiça na distribuição da riqueza.

«Portugal inteiro há-de abrir os olhos um dia – se é que a sua cegueira não é incurável e então gritará comigo, a meu lado, a necessidade que Portugal tem de ser qualquer coisa de asseado!»

Atanagildo Lobo
Extratos de poemas de Almada Negreiros, Ary dos Santos e Jorge de Sena.