“Na província de Entre-Douro e Minho, bispado do Porto, num sítio chamado Pé de Cão, nas vertentes da Serra da Cabreira, nasce o rio Ave, assim denominado, talvez pela grande ligeireza de seu curso, ou pelas muitas aves que se criam nas suas ribeiras. Na sua origem não é muito caudaloso, mas notavelmente inquieto e ruidoso, por correr entre penedia crispada da citada serra, que fica a cinco léguas distante de Guimarães…”.

“…Ptolomeu chama a este rio Avus e dá-lhe a primazia sobre muitos outros da Lusitânia, assim pela abundância e qualidade das águas, como pela amenidade das suas margens…” (In Minho Pitoresco).

Segundo se aprendia nos “bancos da escola primária”, o rio Ave nasce na Serra da Cabreira (no Alto Minho), passa próximo de Guimarães e Santo Tirso e desagua em Vila do Conde. Tem dois afluentes: o rio Este e o rio Vizela. E ficava-se por aí… Mais tarde, acrescentou-se que banhava sucessivamente os concelhos de Vieira do Minho, Póvoa de Lanhoso, Vila Nova de Famalicão e Santo Tirso (e neste incluía-se as freguesias de S. Martinho de Bougado e Santiago de Bougado).

Mas já nos tempos idos dos séculos XVIII e XIX, alguns cronistas se debruçavam sobre o que representava este rio que é já conhecido nos primeiros tempos da nacionalidade, ou talvez muito anteriormente à existência do próprio condado portucalense.

Em meados do século XVIII, o Abade Inácio Pimentel, pároco da freguesia de S. Martinho de Bougado, nas inquirições de 1758, deu as seguintes informações, sobre o rio Ave:

“O que corre por esta freguesia é o Ave, que tem a sua origem acima de Guimarães, no arcebispado de Braga, e acaba em Vila do Conde, onde se mete no mar; e, correndo pela ribeira de Vizela, passa por Santo Tirso, donde entra nesta freguesia na direitura do lugar de Ervosa, para a parte nascente; e suposto este rio venha fazendo a divisão do Arcebispado de Braga, deste bispado do Porto; contudo neste lugar de Ervosa, e, para baixo, até ao lugar da Esprela, entra a demarcação do arcebispado pela terra dentro quase um tiro de mosquete, e fica sendo o lugar da Ponte da Lagoncinha da jurisdição de Braga….

A criação de peixes é muito grande de bogas, trutas, escalos, entrando-lhe também do mar sáveis e lampreias, que muitas vezes no seu tempo se pescam ainda neste sítio com distar duas léguas do mar.

São contínuas as pescarias; mas no Verão se fazem com melhor facilidade varrendo açudes com redes de que se tira muito peixe do sobredito; e se tiraria muito se a indústria humana não tivera inventado novos enredos de pescar…”

E continuou o mesmo clérigo: “… O seu natural correr é plácido, por entre campos ou arvoredos, de uma e outra parte; não é navegável, por ser todo cortado em caneiros ou açudes para moerem as azenhas de que abunda; que só no distrito desta freguesia e sua margem, se acham três rodas, que dão muito aviamento… Nas margens do rio se acham muitos campos, e sempre na parte mais agreste se acham bordados de arvoredo…”.

A Azenha da Esprela laborou quase 500 anos

A Azenha da Esprela, primitivamente chamada Azenha da Esparrela, ficou apelidada, posteriormente, de Azenha do Jeroniminho (por ter sido o último proprietário).

“… E um dia, como por encanto, aparecia sobre as aloiradas areias da praia da Azenha da Esprela, em tarde de domingo, uma figura masculina que haveria de levar uma Esprelense ao casamento”. (Alcino Rodrigues em “Misérias e grandezas da terra de Bougado”).

Situada na margem esquerda do rio Ave, a Azenha da Esprela terá sido construída em 1473 e terá iniciado a sua atividade de moagem de cereais nessa data, conforme uma referência do cartório do cabido da Sé do Porto, (proprietário da mesma) sobre S. Martinho de Bougado:

“De tempo imemorial é senhora directa a Mesa Capitular de um casal que antigamente se chamava de Vale e hoje de Paradela, de que renovou o prazo em 1473 e tem prosseguido as renovações (…) e da Azenha chamada da Esparrela na aldeia de Real, prazo renovado em 1492”.

A Azenha integrava uma zona ribeirinha de carácter rural. O local é pontuado por um grupo de construções primitivas de pequena dimensão relacionada com a azenha: a casa do moleiro, armazém de cereal e a casa do poço. A encosta sudoeste é modelada em socalcos apoiados em muros de pedra. Nesta mesma encosta existe um percurso primitivo pedonal que ligava a cota alta com a cota baixa, estabelecendo o acesso à Azenha da Esprela.

Nomes dos primeiros proprietários a seguir ao cabido da Sé do Porto: “em 1492, Gonçallo Annez em 1.ª vida e seu sobrinho Gonçallo Afonço em 2.ª e aquele que mais vivesse nomearia em 3.ª hua pesoa qº. aparecesse com renda de 90 rs….. 1775, Francisco Dias e mulher Ana da Costa Couto; 11/09/1782 Gabriel Dias, filho de Francisco Dias e Ana Couto) e sua mulher Maria da Costa; 22/10/1827, Maria da Costa e seu marido José António da Costa; Os últimos proprietários foram: Jerónimo Rodrigues Moreira da Costa ao qual sucedeu o seu filho Manuel Rodrigues da Costa, (conhecido por Jeroniminho) e o neto Carlos Reis da Costa”.

Moleiros: A 7 de novembro de 1698 ficou registada a partilha de moer, em 10 dias: 6 eram para Manuel da Costa e mulher Ângela Oliveira e os restantes para Domingos João.

Atividade exercida durante o tempo de laboração: a azenha moeu todo o tipo de cereal e na parte final, durante vários anos tratava a fibra do caule do linho, macerando-o, para empresas têxteis da região. Nesta zona, existiu uma praia fluvial; era também um local privilegiado de convívio “e namoro”, além de lavagem de roupa. Fazia-se, igualmente, a travessia do rio por barca, deste local (Esprela) para Lousado.

Azenha da Esprela: “Os segredos que soubeste guardar. Foste testemunha de inúmeros romances clandestinos que na tua borda se iam desenrolando (…) As penas das tuas rodas reparavam nos corpos nus de gente moça que em noites acaloradas e alumiadas de resplandecente luar, se refrescavam (…)”- (Alcino Rodrigues em “Misérias e grandezas da terra de Bougado”).

A Azenha da Esprela deixou de laborar em 1972, ano em que os rodízios se “calaram para sempre”… A grande cheia desse ano ditou o fim da velha Azenha da Esprela. A partir dessa data, e, a cada ano que passa, o resto que ficou da velhinha azenha tem-se desmoronado, encontrando-se, neste momento, completamente destruída e coberta de vegetação. ATÉ QUANDO…?

A. Costa