Já pouco falta para que se realize o referendo ao aborto, a que passou a chamar Interrupção Voluntária da Gravidez.

Se todas as votações devem ser feitas em consciência, esta decisão é, por excelência, uma séria questão de consciência.

Já temos uma lei que permite que seja feito o aborto em situações muito concretas: violação, malformação e risco grave para a saúde da mãe.

O que se trata agora é da despenalização para os abortos realizados até às dez semanas. .

Exceptuando as pessoas directamente envolvidas nos movimentos, não parece que a afonsopaixao.jpgpopulação esteja muito motivada para o assunto, apesar da sua importância. É, na verdade, um assunto demasiado importante para que as pessoas se mantenham indiferentes.

A campanha em curso pode ser uma oportunidade para um completo esclarecimento do tema e que as pessoas possam participar no referendo que irá ter uma grande influência na vida de muitas pessoas.

Confesso que não é fácil falar dum tema tão delicado. Receio também que as discussões acaloradas não proporcionem um bom esclarecimento e do consequente voto.

Apesar de ser um tema delicado, tenho já a minha opinião formada acerca deste assunto e tenho pena que a lei ainda em vigor não tenha sido aplicada com mais frequência.

Teríamos evitado que fossem muitas mulheres ao estrangeiro, sobretudo a Espanha onde o regime legal é muito semelhante ao nosso. E teríamos evitado também muitos abortos clandestinos, alguns dos quais feitos sem o mínimo de condições com sérias consequências para a saúde das mulheres que se sujeitaram.

A despenalização irá, com toda a certeza, contribuir para melhorar a saúde de muitas mulheres que deixarão de ter necessidade de recurso ao aborto clandestino sem as condições necessárias para tal fim.

É dramático, em muitas situações, ter filhos indesejados. Não são amados como precisam e correm sérios riscos de terem uma evolução menos equilibrada.

As famílias que não têm recursos para educar os filhos, acabam por deixá-los crescer na rua sujeitos aos mais variados perigos que são de todos conhecidos.

Todos somos muito rápidos a criticar alguns jovens, e outros já adultos, por enveredarem por certos caminhos que não consideramos os melhores, mas não nos damos ao cuidado de saber em que condições foram criados nem se os seus pais tiveram possibilidades de os criar doutro modo.

Somos muito rápidos a criticar os ditos “marginais”, que são quase sempre considerados indesejáveis. É tão fácil. O que é difícil é evitar que sejam.

Quantas crianças nascem em condições familiares e humanas deploráveis?

Muitos deles, se não tivessem nascido, se as suas mães tivessem tido a oportunidade de evitar o seu nascimento, haveria menos alguns milhares de dramas humanos.

Muitas mães, por não terem informação suficiente (ou dinheiro), têm os filhos sabendo que não têm condições para os criarem.

Dir-se-á que, nos nossos tempos, já não se justifica esse tipo de situações. Mas elas existem e fechar os olhos à realidade não é a melhor solução.

Defendo a despenalização do aborto até ao prazo previsto (dez semanas).

Dizem entendidos, que até lá ainda não se formou o cérebro e, portanto, ainda não existe capacidade para sentir dor. Ainda que houvesse sofrimento, seria bem menor que o sofrimento por que passam muitas crianças, durante anos, por virem ao mundo sem o mínimo de condições de vida que um ser humano deve ter.

Eu vou votar SIM no referendo pelas razões que apontei. Não defendo a leviandade porque entendo que deve ser complementado com muita informação para que o aborto não seja necessário e, quando o seja, seja apenas o último recurso.

Acredito que nenhuma mulher tem prazer em abortar. Pelo contrário, é uma decisão grave e só o farão em último recurso.

E não me choca que o SNS seja o recurso natural para isso. È mais barato do que pagar as consequências de muitos abortos clandestinos feitos sem condições.

Afonso Paixão