Ao revisitar pergaminhos escritos do passado encontro um número deste jornal datado de 22 de novembro de 2012 onde Paulo Queirós, hoje membro da A.M. da Trofa e dirigente concelhio do PCP, num balanço aos 14 anos do concelho apresenta uma frase, que serviu de título à entrevista, que até poderia ser sábia, não fora ela uma mera constatação da realidade, não deixando de sagaz ser: «O Partido Comunista acaba sempre por ter razão passados uns anos.»
De facto, ao longo dos últimos anos, muita gente interroga-se pela bondade da “integração europeia”, pela benignidade do “euro”, pela complacência da privatização dos setores estratégicos, como aconteceu com a EDP, PT, CTT e como ainda pretendem fazer com a água, a TAP, etc…, ou pela simples rendição à Troika e aos Mercados. É que em tudo, teve sempre a feroz oposição do PCP, que apontou sempre um caminho diferente: A intitulada alternativa política «patriótica e de esquerda». Esta passa pela renegociação da dívida pública, dos seus montantes juros e prazos, para que seja possível o desenvolvimento do País (só passado muito, muito tempo, surge o manifesto dos 74 a dizer o mesmo); passa pela promoção e valorização da produção nacional e a recuperação do controlo público da banca e do setor financeiro, dos setores e empresas estratégicas (já hoje muitos comentadores também defendem o mesmo); passa pelo aumento dos salários dos trabalhadores; pela defesa de serviços públicos e funções sociais do Estado, do direito à educação, à saúde, à proteção social; passa por uma política fiscal que reduza a carga sobre os trabalhadores e as pequenas e médias empresas e tribute pesadamente o grande capital, a especulação e os lucros e passa pelo repúdio da ditadura do euro e da UE, recuperando para Portugal a soberania económica, orçamental e monetária. Esta proposta reflete um certo conteúdo ideológico, é verdade, mas também revela um intenso patriotismo e assume a luta insubstituível contra a subordinação da política aos grandes interesses financeiros e económicos, que tem caracterizado os partidos do poder, a que alguns descontentes vêm depois a chamar mansamente de promiscuidade entre os políticos e as grandes empresas.
Nesta parte, o PCP está muito à frente de qualquer outra força. É mais «moderno» e atual porque consegue, enquanto partido perspetivar o futuro, dando já as possibilidades de solução. O raciocínio é simples, mas límpido: o volume monstruoso da dívida pública e externa, em grande parte ilegítima, torna o seu pagamento insustentável e contrário a qualquer perspetiva de desenvolvimento; a qualquer altura, Portugal vai ter que renegociar a sua dívida pública e externa, mas quanto mais tarde o fizer, pior; a sujeição a uma moeda única que resulta contra os interesses nacionais, que beneficia o capital e as grandes potências, não consente crescimento e criação de emprego, e contribui, em grande parte, para a condição periférica e dependente de Portugal; o controlo privado da banca, tem sido e é, um bloqueio ao investimento produtivo, não passando de um instrumento da especulação e acumulação capitalista, um campo de putrefação e corrupção, com titânicos proveitos para os acionistas e desumanas perdas para o nosso povo. O BPN e agora o BES são bons exemplos.
Se não se renegociar a dívida, se o país não se organizar para uma libertação da vassalagem ao euro, se não se reaver o controlo público da banca, nenhum dos grandes problemas nacionais se resolverá.
Ora, no passado dia 15 de outubro, foi discutida e votada na Assembleia da República uma proposta do PCP apontando para a renegociação da dívida pública, para a preparação do País em função da libertação do euro e para a recuperação do controlo público da banca. Foi a primeira vez que uma iniciativa com este conteúdo e alcance teve lugar em Portugal. Claro que PS, PSD e CDS, votaram contra chumbando a proposta e o BE absteve-se num dos pontos cruciais (preparação do País para a libertação do euro). Mas para os que julgam que se tratou do fim de uma proposta, pode-se afirmar que foi somente o início de uma polémica que irá continuar e, é por estas razões que faz sentido a afirmação de Queirós de que «O Partido Comunista acaba sempre por ter razão passados uns anos.»