Não tendo forma física, o medo aí anda e cada dia que passa parece que se torna mais palpável. Não há maneira de escapar. Velha arte política, nunca sai de moda. Tendo o seu apogeu na Guerra Fria, e depois de um certo apaziguamento na década de 90 do último século, ganhou novo alento com a eleição no ano 2000 de George W. Bush para presidente dos EUA. Depois do desmembramento da União Soviética, as forças mais conservadoras dos EUA tinham de ter um novo inimigo, um novo medo do outro, uma nova dicotomia entre o bom e o mau, nós e eles. Para isso socorreram-se do Médio Oriente.
A Europa, que sempre procurou evitar discursos redutores e simplistas em matérias complexas, nos últimos anos parece recorrer a velhas práticas da instalação do medo. Em Portugal, com o aproximar das próximas eleições, os políticos da coligação que nos governam tentam alimentar ao máximo essa entidade. Neste momento, a Grécia é o grande filão para PSD e CDS/PP. Não há dia ou debate que o primeiro-ministro de Portugal não use de forma explícita ou implícita o exemplo grego. A estratégia montada vai passar por demonstrar que qualquer proposta de alternativa vai dar ao exemplo grego. Qualquer esboço de um caminho diferente será visto como caminho para o abismo.
Com o lançamento do livro “O Outro Lado da Governação”, os estrategas da coligação começam a explorar novas formas de branqueamento. “Afinal os nossos governantes bateram o pé à troika!”. Depois do ir além da troika, agora parece que ficaram aquém da troika e até resmungaram. O próprio Pires de Lima já diz que não planeia ler os relatórios do FMI, depois de andar a rezar a oração troikiana como um monge (aposto que usa um cilício para se penitenciar quando pensa algo fora da austeridade).
Para além do “isto ou o fim do mundo”, o próximo acto eleitoral será também marcado pela forte intervenção de Cavaco Silva e assistirá a um PS no meio da ponte ideológica.

(Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico)