O futebol é um dos seus assuntos prediletos e, neste capítulo, nota-se bem onde mora o coração de José Pedro Reis, historiador com raízes em Vinhais e Vila do Conde. Quando se refere à Trofa, utiliza sempre pronome pessoal possessivo. “Nossa identidade”, “nossas reivindicações”, “nossa história”.

Em jeito de comemoração por se aproximar mais um ano de colaboração com o NT, foi-lhe proposta uma entrevista para dar a conhecer aos trofenses de todo o concelho o passado do futebol, com passagens por quase todas as freguesias.

Lembra-se do caso Varzim? E do Trofense-Tirsense que ditou a subida da equipa da Trofa à 2.ª Divisão B? E do Feiranovense? Sabe como se fez a ligação do futebolista Carlos Alves a S. Romão? Está tudo aqui, uma entrevista que se transforma num documento histórico que justifica bem o recorte do jornal para juntar ao baú das recordações.

O Notícias da Trofa (NT): A maneira como se vive o futebol na e da Trofa mudou muito nas últimas décadas.
José Pedro Reis (JPR):
E se mudou…. O bairrismo, a paixão com que se ia aos jogos… sou do tempo de passar o portão principal e ainda ver famílias inteiras a assistirem aos jogos. O tempo em que a central do estádio do Trofense, coberta e forrada na sua retaguarda com chapas de zinco, com a capacidade de 1/3 dos adeptos da que tem hoje, mas que estava sempre à bica…. Até do Bougadense que tinha boas assistências, chegando, inclusivamente, a disputar a Taça de Portugal. Aliás, não vai assim longe no tempo a ideia alimentada de que os adeptos do Bougadense eram conhecidos pela sua enorme paixão e dos adeptos mais apaixonados da distrital e que facilmente se organizava, pelo menos, um autocarro para assistir aos jogos fora de casa. Hoje, isso é praticamente impensável.

NT: O CD Trofense é a coletividade de futebol mais antiga do concelho. Como é que foram dados os primeiros passos para a criação do clube?
JPR:
O Trofense não foi o primeiro clube de futebol na Trofa. Pelo que pude retirar das minhas pesquisas, houve um outro clube, o Foot-Ball Clube da Trofa, mas atendendo à diminuta informação disponível, acredito que tenha sido um clube fugaz. Isto na década de 20, há praticamente um século.

O Clube Desportivo Trofense nasce do Sporting Clube da Trofa. Os jogadores e os diretores eram os mesmos nos dois clubes. Surgiu apenas a mudança de nome. Pelo que foi possível perceber nos jornais dessa época, alguns deles de tiragem nacional que demonstravam a importância que a Trofa tinha no panorama desportivo nacional, havia problemas administrativos relacionados com a necessidade de “oficializar” o clube e, nesse momento, os dirigentes mudaram o nome do clube para Clube Desportivo Trofense, oficializando-o na Associação de Futebol do Porto em 1930. Mas podemos considerar, pelo menos, a existência do clube desde 1926. Perante estas pesquisas, não posso deixar de achar muito estranho que se considere o ano de fundação do clube o momento de oficialização do clube na A.F. Porto.

Isso não tem cabimento nenhum, até porque esse é o último passo de toda a vida de um clube, que até pode optar por não o dar… Aliás, quantos clubes de atividade recreativa não se inscrevem em nenhum organismo? Imensos. Vejo clubes de futebol a adotarem datas antigas de fundação, completamente desconectadas de rigor histórico e sem qualquer ligação ao novo clube, que renasce anos mais tarde. Só aqui na Trofa, onde inclusive já foi editada uma obra sobre a história do clube, e na qual está fundamentada por A + B a história da fundação do clube, é que se continua a acreditar que a data de filiação na AF Porto como data oficial do nascimento do clube.

NT: O futebol na Trofa levou a muitos momentos “quentes” entre a comunidade, como aqueles que resultaram do célebre ‘caso Varzim’. Desse caso, o que é que ainda pouco se sabe?
JPR:
Tem graça que, não há muito tempo, estive com um dos intervenientes no jogo que iria ditar a intervenção para vetar o campo do Varzim e fez com que o jogo do Trofense fosse disputado, afastado do estádio do Varzim. Ele disse-me que tudo que se tinha passado era verdade, desde a agressão à equipa de arbitragem e os respetivos ferimentos que foram relatados no relatório. Todo o caso ganha contornos de “surrealidade”. Penso que terá sido mais uma questão de poder e do que, propriamente, futebol. O Varzim tinha um peso político e desportivo superior ao nosso e, claramente, o que acabou por ditar mais uma das muitas novelas no futebol português. Aliás, o futebol português é mais uma novela para o drama do que baseada em factos reais: quando pensamos que nada nos vai surpreender, eis que, os casos, ano após ano, se vão repetindo e o desporto que é o futebol vai sendo descredibilizado.

NT: Como é que nasceu a ‘rivalidade’ CD Trofense-AC Bougadense?
JPR:
Relativamente a estes dois clubes, não se trata de uma rivalidade, porque eles andaram sempre, ou quase sempre, em níveis diferentes de competição. O Bougadense é muito mais recente que o Trofense e competiu somente nos campeonatos distritais, enquanto o Trofense, grande parte do tempo desde a fundação do Bougadense, caminhou pelos nacionais.

Aliás, no passado, célebre foi a tentativa de fusão dos dois clubes, que iria acabar por fracassar, por rivalidades exacerbadas, que se formos a olhar pelo prisma da racionalidade, era mais coração que razão. O novo clube iria atingir um patamar mais elevado, iria ser mais agregador, iria certamente preparar o clube para desafios mais competitivos com maior facilidade.

Cidades com maior dimensão económica e mais habitantes fundiram clubes em décadas idas, sobretudo nos anos 30 e 40. É preferível ter um clube forte do que ter dois clubes médios, mas venceu a preferência de alguns de manter a existência de dois clubes.

“Um jogo entre o Feiranovense e o Folgosa, na vizinha freguesia maiata, acabou com os adeptos a serem perseguidos e apedrejados até S. Mamede”.

NT: O futebol sempre esteve um pouco “centralizado” na Trofa, mas as comunidades das periferias foram, no entanto, e na medida do possível, criando condições para que a prática de modalidade fosse fomentada nas próprias localidades. Uma realidade que parece ter-se esbatido ao longo do tempo…
JPR:
O futebol, quando começa a ser jogado no futuro concelho da Trofa, não se centra somente em S. Martinho de Bougado. Tem grande expressividade em S. Mamede e S. Romão do Coronado. Aliás, estas três freguesias chegam a ter clubes a competir. S. Romão teve dois clubes, S. Mamede contava com o seu Feiranovense, que dava cartas nos desafios a nível local, com os seus clubes vizinhos. Recordo um jogo entre o Feiranovense e o Folgosa, na vizinha freguesia maiata, acabou com os adeptos de S. Mamede a serem perseguidos e apedrejados até S. Mamede.
Relativamente a Guidões e Covelas, nesta fase da história, ou seja no primeiro quartel do século XX, não tenho registos sobre a atividade desportiva, até porque eram zonas mais interiores, sem atividade económica relevante para sustentar a atividade desportiva.

Alguns anos depois, na década de 40, havia já dezenas de empresas em S. Romão, algumas das quais referências a nível nacional, e isso permitia, obviamente, ter mais apoios para a prática desportiva, permitindo a criação do Atlético e o Futebol Clube de S. Romão, para além do Sporting Clube de S. Romão, que, aparentemente, será o embrião do Futebol Clube S. Romão. O FC S. Romão tem uma data bastante anterior de fundação daquela que apresenta como sendo oficial, mas isso é mais uma das falhas da história local deste concelho.

Não podemos esquecer e ignorar que S. Romão do Coronado era uma freguesia de veraneio e até de local de passagem de longas temporadas para as pessoas se poderem curar de várias maleitas respiratórias e com elas traziam várias inovações em termos culturais, com as quais a população local se ia deparando e uma delas, certamente, foi o futebol. Não esquecer que Carlos Alves (individualidade que dá nome ao campo do FC S. Romão) viria a viver em S. Romão do Coronado, para se curar dos seus problemas respiratórios, terminando, inclusivamente, a sua carreira no Futebol Clube do Porto, após se ter tornado uma referência no desaparecido Carcavelinhos, que iria estar na génese do Atlético Clube de Portugal.

Carlos Alves teve uma vida social intensa em S. Romão, arrastando com ele vários atletas de renome do futebol português, que vinham visitá-lo.

O futebol era vivido intensamente em S. Romão, ao ponto de nos jornais locais de Santo Tirso serem realizados vários pedidos para a construção de um estádio condigno para a prática do futebol para acompanhar o ritmo do crescimento da prática futebolista.

“A passagem da Trofa a concelho fez esmorecer claramente o sentimento bairrista”

NT: As alterações geracionais parecem ter sido determinantes para o esmorecimento da prática do futebol ‘democratizada’ no concelho. É apologista desta ideia?
JPR:
Posso ser polémico no que vou dizer, mas a passagem da Trofa a concelho fez esmorecer, claramente, o sentimento bairrista. Acho que se perdeu muito da raça, embora, nos momentos certos esses sentimentos vão aparecendo e vimos, até recentemente, como o povo se uniu e conseguiu bloquear um ato nefasto para a sua vivência diária.

O futebol era a chama desse bairrismo. Todos nós, certamente, temos na memória os célebres jogos entre Trofense e Tirsense, em que se jogava muito mais do que a vitória no campo desportivo. Era uma vitória para o orgulho, para o bairrismo e autoestima daquelas comunidades! Um dos momentos que espelha bem esta tese, considero-o mesmo como um expoente do bairrismo, é o célebre jogo em que ganhamos ao Tirsense, no Abel Alves de Figueiredo, e conseguimos garantir a subida de divisão para a 2.ª Divisão B, num estádio repleto de público, em que estavam, seguramente, mais de dois mil trofenses, num jogo disputado pouco tempo após a passagem a concelho. Aí viu-se a importância do futebol para a consolidação de um sentimento bairrista.

NT: Em que medida é que o futebol tem peso na história do concelho?
JPR:
O futebol tem peso na história do concelho, porque foi dos poucos elementos agregadores da sua comunidade. A euforia com que se disputavam os dérbis com as outras equipas de Santo Tirso, mesmo com o Desportivo das Aves, em jogos violentíssimos, e numa agressividade levada ao extremo. Poucos eram aqueles que não terminavam com cenas de pugilato. Aliás, o Clube Desportivo Trofense deixou de competir na AF Porto, em 1936, por causa de um conflito que teve com o Aves, em que, na sua chegada àquela localidade, ao campo das Fontainhas, atual campo Bernardino Gomes, os seus jogadores sofreram uma intimidação terrível, e com as autoridades policiais a importarem-se pouco com a situação, chegando ao extremo de haver agressões ou tentativas de agressão aos jogadores enquanto estes saíam do autocarro. E, no caminho para as Aves, já tinham visto o seu autocarro apedrejado. Após o episódio, acabaria a equipa do Trofense por se retirar e não disputar esse desafio e ficar castigado por seis meses, sem poder competir oficialmente. Esta punição viria a complicar a vida do clube, que era cada vez mais caótica, e, obviamente, o interesse dos adeptos ia decrescer, fazendo com que, até à década de 1950, não houvesse futebol na Trofa.

A história do futebol e o seu peso é isto mesmo, é a capacidade de lutar, de batalhar, de ser o pilar da nossa identidade e a capacidade de fazer ouvir as nossas reivindicações no campo político através do desporto e conseguindo suprir o poderio político que a Trofa sofria.

O Clube Desportivo Trofense e outros clubes que ainda vão sobrevivendo no concelho – e não vai longe no tempo as várias equipas inscritas nos campeonatos distritais – são marcas da nossa história, são marcas de um bairrismo que era vivido com muitos poucos recursos financeiros, mas o que faltava em dinheiro abundava em vontade, garra e paixão. Eram as únicas instituições capazes de agregar a comunidade de forma continuada e ser o seu palco de lutas.