A leste as turbas agitam-se. Antecipando o choque de termos a Turquia dentro de nossa casa (agora que abrimos as portas), o impacto do alargamento aos 25 europeus foi demasiado forte para nos deixar com forças suficientes a uma reacção ao novo alargamento da Europa a 27. Roménia e Bulgária são os mais recentes players.

 

Temos ainda alguns meses para que se possam mexer em todos os sentidos do tabuleiro, na medida em que os seus cidadãos não gozam para já do direito de livre circulação na União Europeia. A verdade é que o tabuleiro de xadrez é sempre o mesmo e as peças não se multiplicam. Necessariamente, estas vão escasseando a Portugal e o xeque-mate não tardará. Um horizonte negro como breú – real, porém.

O nosso país pode ter-se, hoje, por simples peão. Não tem dimensão, seja ela qual for – territorial, populacional, económica ou de mercado – para ter a mínima relevância na helder reistomada de decisões de uma Europa que se afasta do Atlântico e se balança para os Urais. A aposta dos nossos governantes (sim, os da Geração de Abril) na mão de obra barata e na dependência dos fundos estruturais da União Europeia revelou-se não constituir estratégia alguma. É de um atavismo confrangedor a política económica seguida de há dez anos a esta parte. Em meados da década de 90 crescíamos, ainda que pouco, no produto interno bruto. Gorou-se, então, a expectativa de agarrar o momento de crescimento económico para se tomarem decisões (algo que provocava suores frios ao Governo desse tempo, afinal, em parte, o mesmo de hoje) que pudessem implicar reformas estruturais – na saúde, no ensino, na justiça, na segurança social, no Estado (função pública). Na actualidade, com a economia nacional estagnada, as reformas anunciadas, para além de, no essencial, serem más e atabalhoadas, têm o condão de serem menos o remédio, e mais o inflingir de uma dor generalizada e incapacitante, capazes de paralizar não apenas o Estado, mas também, e por arrasto, as empresas.

Bem a propósito, a visita do Presidente da República leva-o além das fronteiras europeias, mais a leste do leste que nos entristece. Sintoma paradigmático. Já de há alguns anos a esta parte tem havido não só uma deslocalização de empresas multinacionais com sede em Portugal, como dos próprios empresários portugueses para destinos tão exóticos como Turquia, Marrocos, China. E Índia, onde passeiam agora os nossos empresários, procurando abrir portas para investirem, ao invés de o fazerem no nosso país. E Angola, fustigada por um maremoto de portugueses (não tão avassalador como o tsunami chinês, bem sabemos) que buscam oportunidades de negócio e de trabalho não qualificado, sobretudo. E a razão para tal fenómeno? Nós, portugueses. Em termos gerais, temos baixas qualificações, somos mal instruídos e “liderados” por patrões e não por gestores. Além disso, é por demais evidente que o peso do Estado esmaga quaisquer intenções modernizadoras dos nossos empresários, a começar pelas correntes que não libertam a nossa economia, isto é, legislação laboral rígida e impostos asfixiantes. Enfim, não geramos produto com valor acrescentado e a globalização constituiu o fenómeno que nos fez perder a batalha que pensávamos ganha, até há meia dúzia de anos atrás: a da mão de obra barata. Fomos incapazes de nos transmutar, acompanhando a Europa e o Mundo.

Pontos de ruptura? Impulso ao capital humano, e numa segunda vertente, desenvolvimento tecnológico. O investimento deve passar pela educação, criando técnicos especializados. Conectar Universidades e Empresas e ligar, definitivamente, os investigadores à actividade produtiva. Não é algo que se obtenha através da manutenção de uma política de baixos salários, é certo. Todavia, há que analisar a relação custo / proveito. Urge, pois, incentivar a fixação, entre nós, de licenciados, mestres e doutores nas mais diversas áreas do conhecimento, nomeadamente naquelas que são peça de engrenagem para a máquina empresarial, seja qual for o sector de actividade.

Estas premissas vêm entroncar numa outra conclusão comum: a indispensabilidade de criação de clusters industriais e de uma marca. A marca Portugal, distinguindo qualidade e inovação.

Reparemos nos nossos vizinhos, actualmente centro gravitacional das pequenas e médias empresas portuguesas, especialmente as do norte do país. Mais especificamente, atentemos no desempenho da Galiza, tão próxima de nós. A criação de uma Zona Franca Industrial – a de Vigo – em meados da década 50 do século XX, o desenvolvimento de polígonos industriais quando da adesão à Comunidade Económica Europeia, com todas as infraestruturas modernas e de raíz que as suportam, a interacção cada vez mais sublinhada e acentuada entre as Universidades e as Empresas (investigação e desenvolvimento) nos últimos anos, constituíram um conjunto de factores que lograram compor um corpo musculado e dinâmico: uma Galiza a crescer acima da média espanhola. Algo a que Touriño, Presidente da Xunta de Galicia há apenas dois anos, apelidou de competitividade selectiva. Não admira, pois, que se assista a uma dupla corrente de portugueses do Norte de Portugal para a Galiza: a dos trabalhadores sem qualificações, essencialmente para o sector da construção civil e obras públicas; e, outra, na qual me incluo, de alunos de cursos superiores, sejam licenciaturas, mestrados ou doutoramentos, com forte ligação às prática e necessidades empresariais.

A lacuna lusitana torna os portugueses disfuncionais: não são capazes de inovar, e com isso não conseguem ter um passo firme e decidido, seja ele curto ou longo. E não pode Portugal continuar a mover-se aos tropeções.