Nestes últimos dias vimos e ouvimos tantas opiniões de comentadores e politólogos sobre o Governo, que mais não fizeram do que um exercício de tiro ao alvo a ver se acertavam. O propósito era comentar e analisar os pedidos de demissão e não foi nada fácil, pois não era a demissão de um ministro qualquer, mas tão só do Ministro das Finanças (da confiança dos nossos credores internacionais) e do Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros. Foi um chorrilho de asneiras, que deu dó ouvir e assistir.

A matéria substantiva para os comentários pouco assertivos e análises pouco convincentes foi a demissão de Vítor Gaspar (e a sua carta amaldiçoada), a nomeação de Maria Luís Albuquerque (uma ministra polémica) e o pedido de demissão “irrevogável” de Paulo Portas (o político mais bem preparado da atualidade), que originaram uma quantidade apreciável de reuniões (com pouca ou nenhuma informação para o exterior) e uma série de briefings interrompidos, para além dos muitos disparates dos comentadores e politólogos de serviço, que se viam e ouviam na comunicação social a comentarem o nada.

Tudo se tornava plausível e ocorreram situações muito caricatas e bizarras. Para a imprensa, na sua avidez de audiência a qualquer preço, o Governo tinha caído (até se fizeram festas no Marquês), a coligação PSD/CDS-PP tinha colapsado e Portas tinha “morrido” politicamente, mais uma vez. Aliás, Portas tornou-se a presa fácil para os comentadores e analistas, muitos deles da área governativa, que andam há dois anos a dizer mal do Governo. Estranha realidade de tão estranha aliança “anti-Portas”; os “comentaristas” a discutirem o acessório, para não terem de comentar o essencial, que ficou por dizer.

No vazio do nada tentaram fazer a opinião pública. A comunicação social, os comentadores, os analistas, as “fontes” e até a oposição andaram permanentemente aos “papéis”, sem entenderam mesmo nada do que se estava a passar, mas sempre a “dar palpites”. A fragilidade do jogo político e jornalístico mostrou estar assente numa base errada. Agrade ou não a muitos, aqui Paulo Portas deu uma lição, pois mostrou conhecer muito bem o sistema em causa e superou tudo e todos.

O entendimento necessário entre os partidos do governo, PSD e CDS-PP, estava para além do que se viu e ouviu. O principal da crise era a necessidade de arranjar uma solução que reforçasse os níveis de confiança, de coesão e de estabilidade governativa; era necessário uma resposta séria para a estabilidade que assegurasse o cumprimento do memorando de entendimento com a “troika” e, em simultâneo, se desse início a uma fase de crescimento e de emprego. Isso sim era o importante; era o que os portugueses precisavam de saber e não o carácter de um ministro, como passaram muito tempo de antena a ouvir e ver discutir.

A linha que separa a informação da contrainformação é muito ténue e por isso é preciso ter cada vez mais cuidado com a forma como construirmos a nossa opinião; facilmente se cai na opinião fácil e nada consistente. É preciso conhecer bem o jogo político e jornalístico, para saber filtrar seletivamente aquilo que se vê e se ouve na comunicação social e assim se formar uma opinião fundada em bases sólidas. Para o bem do nosso intelecto!

 

José Maria Moreira da Silva

moreira.da.silva@sapo.pt

www.moreiradasilva.pt