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Edição 431

No vazio do nada tentaram fazer a opinião pública

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Nestes últimos dias vimos e ouvimos tantas opiniões de comentadores e politólogos sobre o Governo, que mais não fizeram do que um exercício de tiro ao alvo a ver se acertavam. O propósito era comentar e analisar os pedidos de demissão e não foi nada fácil, pois não era a demissão de um ministro qualquer, mas tão só do Ministro das Finanças (da confiança dos nossos credores internacionais) e do Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros. Foi um chorrilho de asneiras, que deu dó ouvir e assistir.

A matéria substantiva para os comentários pouco assertivos e análises pouco convincentes foi a demissão de Vítor Gaspar (e a sua carta amaldiçoada), a nomeação de Maria Luís Albuquerque (uma ministra polémica) e o pedido de demissão “irrevogável” de Paulo Portas (o político mais bem preparado da atualidade), que originaram uma quantidade apreciável de reuniões (com pouca ou nenhuma informação para o exterior) e uma série de briefings interrompidos, para além dos muitos disparates dos comentadores e politólogos de serviço, que se viam e ouviam na comunicação social a comentarem o nada.

Tudo se tornava plausível e ocorreram situações muito caricatas e bizarras. Para a imprensa, na sua avidez de audiência a qualquer preço, o Governo tinha caído (até se fizeram festas no Marquês), a coligação PSD/CDS-PP tinha colapsado e Portas tinha “morrido” politicamente, mais uma vez. Aliás, Portas tornou-se a presa fácil para os comentadores e analistas, muitos deles da área governativa, que andam há dois anos a dizer mal do Governo. Estranha realidade de tão estranha aliança “anti-Portas”; os “comentaristas” a discutirem o acessório, para não terem de comentar o essencial, que ficou por dizer.

No vazio do nada tentaram fazer a opinião pública. A comunicação social, os comentadores, os analistas, as “fontes” e até a oposição andaram permanentemente aos “papéis”, sem entenderam mesmo nada do que se estava a passar, mas sempre a “dar palpites”. A fragilidade do jogo político e jornalístico mostrou estar assente numa base errada. Agrade ou não a muitos, aqui Paulo Portas deu uma lição, pois mostrou conhecer muito bem o sistema em causa e superou tudo e todos.

O entendimento necessário entre os partidos do governo, PSD e CDS-PP, estava para além do que se viu e ouviu. O principal da crise era a necessidade de arranjar uma solução que reforçasse os níveis de confiança, de coesão e de estabilidade governativa; era necessário uma resposta séria para a estabilidade que assegurasse o cumprimento do memorando de entendimento com a “troika” e, em simultâneo, se desse início a uma fase de crescimento e de emprego. Isso sim era o importante; era o que os portugueses precisavam de saber e não o carácter de um ministro, como passaram muito tempo de antena a ouvir e ver discutir.

A linha que separa a informação da contrainformação é muito ténue e por isso é preciso ter cada vez mais cuidado com a forma como construirmos a nossa opinião; facilmente se cai na opinião fácil e nada consistente. É preciso conhecer bem o jogo político e jornalístico, para saber filtrar seletivamente aquilo que se vê e se ouve na comunicação social e assim se formar uma opinião fundada em bases sólidas. Para o bem do nosso intelecto!

 

José Maria Moreira da Silva

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moreira.da.silva@sapo.pt

www.moreiradasilva.pt

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Edição 431

ASAS desenvolve projeto de reintegração social de ex-dependentes

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O Dia Internacional da Luta Contra o Abuso e Tráfico de Droga assinala-se a 26 de junho. O NT foi saber como está o único projeto concelhio que trabalha para reintegrar, socialmente, ex-dependentes.

O concelho da Trofa foi identificado como sendo um concelho lacunar ao nível da intervenção com doentes alcoólicos e toxicodependentes. Para a colmatar, a Associação de Solidariedade e Acção Social de Santo Tirso decidiu avançar com o projeto (Re)Inserir na Trofa, que permitiu criar “resposta social multidisciplinar” que, para além de uma “intervenção integrada” no público-alvo, serviu também para “sensibilizar a população para a problemática das dependências”. Este “conceito inovador” visava a aplicação de um conjunto de respostas variadas e integradas em parcerias intra-concelhias e teve a participação de “47 pessoas”. Segundo Natércia Rodrigues, coordenadora técnica do Centro Comunitário da Trofa da ASAS, “25” dos utilizadores conseguiram “a abstinência total”.

O aumento da autoestima e da autoconfiança, importantes para a reintegração do contexto social, foi um dos resultados apurados no último relatório efetuado pelos responsáveis do projeto. “Note-se ainda o papel fundamental que o projeto tem vindo a reforçar junto destes utilizadores no que concerne aos fatores de proteção que lhes permite criar e solidificar um conjunto de competências, aumentando a capacidade de resiliência face à recaída, diminuindo paralelamente os fatores de risco”, evidenciou. De acordo com o relatório, os utilizadores tiveram várias conquistas, entre elas, a “melhoria da qualidade dos laços familiares, que se encontravam fragilizados ou em situação de pré-rutura”, o “fomento de momentos de interação positiva e envolvimento intrafamiliar” e a alteração “da postura sobre a sua forma de estar na vida, nomeadamente na procura de respostas para o seu bem-estar físico”.

O projeto permitiu ainda que “os utilizadores construíssem redes de relações com figuras da comunidade diferentes das do mundo da dependência”, afastando-os dos ambientes de risco e contribuindo para a adoção de valores como “o respeito, a lealdade e entreajuda”.

As redes de amizade também saíram fortalecidas, “proporcionando que colegas que iriam passar as festas de Natal e Ano Novo sozinhos, o passassem em conjunto”, destacou Natércia Rodrigues.

“Ao longo do desenvolvimento do projeto, foi possível verificar uma evolução positiva face aos consumidores em processo de reinserção, principalmente ao nível da motivação para a manutenção da abstinência ou redução dos consumos. Estas mudanças verificam-se sobretudo num conjunto de atitudes e comportamentos diferentes que os utilizadores têm vindo a adotar e refletem-se numa escolha mais seletiva das amizades, privilegiando indivíduos que não consomem, ou que pelo menos se encontrem na mesma situação dos próprios relativamente aos consumos”, explicou.

Entre outros resultados, o (Re)Inserir Trofa ficou marcado pelo “envolvimento das entidades parceiras na procura do projeto como uma resposta efetiva e de referência para a problemática das dependências”.

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Projeto continuou mesmo sem apoio estatal

 

“A manutenção de trabalho com este público-alvo é fundamental manter, pois trata-se de uma problemática que se encontra constantemente na iminência de recaída, e a existência de uma equipa, paralela às consultas e com quem cada um pode contar, é fundamental quer para a prevenção da recaída, quer para a motivação e envolvimento para o tratamento e recuperação”, sublinhou a coordenadora. Por isso, o projeto, cujo período de vigência terminava em janeiro de 2013, continuou a ser desenvolvido, sem apoios estatais, mas com o empenho dos utilizadores e a colaboração de entidades externas, como a Academia Municipal Aquaplace, que permite a utilização da piscina, uma vez por semana.

“Os próprios utilizadores mobilizaram-se entre si para que todas as ações fossem possíveis de executar, nomeadamente os almoços, onde cada um contribui com um valor simbólico que, no seu conjunto, permite que se continuem a realizar os almoços-convívio preparados e organizados por eles”, asseverou.

Atualmente, a ASAS conta com a participação regular de “22 utilizadores”, com idades compreendidas entre os 24 e os 58 anos, em atividades como o grupo de autoajuda, os almoços e as aulas de piscina. Também “participam e apoiam ativamente na dinâmica diária do Centro Comunitário, quer em festas e em convívios, quer mesmo no tratamento do jardim, por exemplo”. “O serviço de balneário e lavandaria social é outra resposta ainda solicitada por alguns dos elementos do grupo”, acrescentou.

Apesar de não abranger utilizadores à “escala industrial”, esta resposta social torna-se importante para a construção de uma sociedade melhor. “Não se pode considerar a recuperação do álcool ou da toxicodependência seja um ciclo, mas sim um processo contínuo no tempo e que dura para a vida toda. Contudo, daqueles que conseguem ter e manter este processo, o feedback que temos tido não passa muito pela integração profissional, pelas razões conhecidas por todos, mas mais pelas relações familiares restabelecidas e pelas amizades que percebem neste momento como sendo válidas e verdadeiras. Todos estes progressos são conseguidos pelo aumento da autoestima que foi a ‘alavanca’ para o sucesso pessoal de cada um”, concluiu.

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Edição 431

A água. O devir. Os vizinhos. *

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A perceção de que os tempos mudam− e que com eles se mudam as vontades −, marcou mais uma atividade do jardim de infância. A saída planificada para visitarmos o(s) fontanário(s) que circunda(m) o nosso estabelecimento de ensino, tendo como guia interlocutor aqueloutro a quem o tempo aprimorou as vivências pelo percurso extenso já percorrido, revelou-se acertada. Assim, ouvir o senhor Alberto falar, narrar um dos capítulos da sua história, lembra o poeta Camões, “Do mal ficam as mágoas na lembrança, / E do bem (se algum houve) as saudades”.

— Foi a comissão de moradores, eleita nesta escola, numa assembleia realizada num sábado à noite. Juntávamo-nos − alguns desses amigos já faleceram − para falarmos dos problemas do lugar. Fixou-se construir fontanários, porque era o que as pessoas mais precisavam. Havia falta de água, as pessoas andavam com os cântaros a carregá-la lá de baixo. Falei então com o senhor engenheiro da Comissão Administrativa, filho da terra, casado na Trofa, também eleito pelo povo. Tinha os poderes. Falei com ele para ver se fazia um bocado de jeito para meter fontanários. Disse que não tinha dinheiro, mas que autorizava desde que “Vocês o façam com o vosso dinheiro”, adiantou. Falei, pois, falei com os restantes membros da comissão de moradores e combinou-se começar o trabalho ao domingo, no sítio onde estava o lavadouro e a serração, antes de construírem o prédio por cima. Olhe, havia por aí água, daqui e dali, escorria para um fundão. Havia muitas silvas e cada um arrogou-se de sachos e sacholas para, primeiro, limpar o terreno. Cavaram depois no interior da mina de água, enquanto outros, com as tábuas da serração, faziam taipais que sustentavam as paredes, para não caírem, senão ficávamos sem ar. Oh, depois de um grande marretão numa pedra, a água invadiu a mina. Tínhamos descoberto o veio de água! Tínhamos descido aí uns onze metros dentro do túnel.

A memória não se cansa de lembrar o que o animou no caminho. O longo percurso traz o cansaço à companhia, mas não desânimo à narração que prossegue.

— No outro fim de semana, parte deles já não vieram, fui eu e os meus filhos menores e uns poucos que iniciamos a construção dos fontanários. As pessoas dos lugares contribuíram com dinheiros e materiais − e algumas com trabalho. A construção dos fontanários aconteceu entre abril de 1975 e o dia 1 de maio de 1976. Nesse dia, abri a água para todos os fontanários. Havia um passador para controlar a distribuição. Entretanto, depois construíram outros, até que a água da companhia foi chegando. É obrigatório ter a baixada, mas continua a utilizar-se a água do fontanário.

O senhor Alberto caminha e para! Tira o lenço do bolso, limpa a testa, respira fundo, mais uma vez, procura as palavras e retoma…

— Um dia, a diretora da escola chamou-me para ver se eu ligava a água para lá. Eu disse-lhe que também tinha um pedido. Se ela fazia o favor de ceder o terreno da escola para alargar o caminho. A estrada andava um metro e noventa para dentro. Ficou assim combinada a troca de graças. Eram uns esteios e um arame a fazer de vedação. Passou-se um cano do fontanário rente ao muro até aquele casinhoto − ainda deve lá estar a tampa.

Entramos, procurou-se a tampa. Descobrimos que a nossa escola continua ainda agora, neste século XXI, em marcha, a ter água para rega proveniente de um fontanário construído em tempos revolucionários, em que movimentos comunitários de cidadãos empreenderam a seu favor.

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Sente-se, por favor, fazemos gosto que entre para ver como estamos aqui instalados. Agradecemos a sua partilha, o tempo de dedicação, com uma canção:

“Quando eu era pequenina / Do tamanho do tostão / Ia ao poço tirar água / E ao fontanário de cântaro na mão / É que a água naquele tempo / Não chegava a casa pelo cano / Nem torneira em casa havia / Era mesmo muito estranho”. Esta é a canção da Tila, ela foi uma das crianças do tempo dos fontanários! Obrigado por este tempo; o momento lembra que “E, afora este mudar-se cada dia, Outra mudança faz de mor espanto, Que não se muda já como soía”.

 

* tertúlia com o senhor Alberto, no Jardim de Infância da Feira Nova, sobre o fontanário da Rua da Escola, em S. Mamede do Coronado, Trofa

matilde neto | APVC – Associação para a Protecção do Vale do Coronado.

http://facebook.com/valedocoronado
http://valedocoronado.blogspot.com

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