Foi por ordem d’El-Rei D. João V que o Padre Luís Cardoso requisitou dos párocos os relatórios para a elaboração de um Dicionário Geográfico de Portugal. A partir desses relatórios, datados de 1724, foram publicados apenas dois volumes – letras A, B e C, porque os restantes manuscritos perderam-se com o terramoto de 1755. Mas o Marquês de Pombal autorizou o Padre Luís Cardoso a requisitar novos relatórios, datados de 1758. São descrições pormenorizadas, que consistem na resposta dada pelos párocos a cada um dos sessenta quesitos que constituem esses “interrogatórios”.
No que às nossas freguesias diz respeito, estão datados de Abril de 1758 os relatórios de cinco: Alvarelhos, São Mamede, São Romão, Guidões e Muro. Das outras três, o respectivo pároco não apôs a data, mas apenas a assinatura: Santiago de Bougado (o Abade Thomas Barboza de Souza Vieira), de São Martinho de Bougado (o Abade Ignacio Moraes Sarmento Pimentel) e de São Martinho de Covelas (o Abade Jozé Pinto de Meirelles).
Desconheço referência mais antiga à “ermida” e à “romagem” de São Gonçalo de Covelas, que a contida no referido Dicionário: “Tem huma ermida de São Gonçallo, dentro da freguezia e pertence a esta igreja. A esta ermida acode algum povo a vinte e oito de Janeiro, dia em que se festeja.”(1)
Se tivermos presente a data do primeiro registo paroquial de Covelas, assinado pelo Abade José Pinto de Meireles (um casamento de 16 de Março de 1759), concluiremos que as informações publicadas no Dicionário Geográfico de Portugal não foram fornecidas, mas apenas assinadas, pelo Abade. O pároco anterior, Abade Caetano Coelho dos Santos Guimarães, deixou o seu último registo paroquial datado de 3 de Outubro de 1757, ficando o serviço assegurado, transitoriamente, pelo seu Coadjutor Padre António da Silva, até à posse de José Pinto de Meireles, Abade de Covelas ao longo de trinta e cinco anos. O pároco seguinte foi o Abade António Ribeiro, tendo exercido funções, de permeio, como Encomendado, o Padre Joaquim de Sá Couto, natural da aldeia de Mosteirô, mas morador, então, na residência paroquial de Covelas.
Pela informação contida nas Memórias Paroquiais de 1758, sabe-se que a “romagem” a São Gonçalo, em Covelas se fazia já lá vão duzentos e sessenta anos.
Actualmente – e de ano para ano – é tanto maior o número de romeiros, quanto a distância de que são provenientes. A pé, a cavalo e de bicicleta, todos os caminhos vão dar a Covelas, sendo preferidos os trilhos antigos, como manda a tradição. Muitos fazem-no por fervor religioso bem sentido; outros por tradição popular bem conservada. Todos rumam à Capela.
Outros, porém – não poucos! – cumprem a tradição noutras “capelas”, espalhas ao redor. Sejam as tabernas permanentes e as ocasionais, sejam as casas dos lavradores. Quem, por estes dias, passar por Covelas, há-de sentir o cheiro a queimado, característico do colmo usado para chamuscar os cevados. E há-de sentir crescer a água na boca! Vai recordar as papas de sarrabulho, os rojões e outras delícias de porco caseiro, que degustou no ano passado. Sabor que o palato conseguiu conservar durante um ano, embora Baco tivesse conseguido fazer esquecer durante algumas horas. E, este ano, vai voltar a entrar na taberna onde provou (?) o melhor vinho. Ou, transposta a porta carreira da farta casa de lavoura, logo no coberto ou em alpendre improvisado, vai voltar a abancar em banco corrido para, em mesa tosca, prestar homenagem à carne do porco, de criação, matança e confecção caseiras. Carne de porco bem afogada pelo vinho tinto da terra que, quando volteado, formará laços de espuma, deixando marca de qualidade na porcelana das malgas em que é vertido, batido e bebido. E que provoca mais encantamento que acanhamento a todos quantos se deixam seduzir, qualquer que seja o seu estatuto económico, social ou cultural.
Mais alguns dias e, por isto ou por aquilo, vamos todos ao São Gonçalo!

(1) José Viriato Capela, As Freguesias do Distrito do Porto nas Memórias Paroquiais de 1758.
Barbosa & Xavier, Lda. – Artes Gráficas. Braga ‌ 2009.

M. Moutinho Duarte