Na semana em que celebramos mais um aniversário de independência e do nascimento do concelho da Trofa, o clima é de cortar à faca. A pandemia não dá tréguas, o número de casos continua a subir, à semelhança daquilo que acontece um pouco por todo o país, em particular na região Norte, e os efeitos económicos são já indisfarçáveis, com empresas a fechar ou presas por um fio, desemprego a aumentar e inúmeras famílias, que viram os seus rendimentos a ser duramente afectados, a fazer contas à vida para pagar as contas do próximo mês. Não vale a pena dourar a pílula. A situação é crítica e ainda vai piorar, antes de melhorar.

Enquanto comunidade, muita coisa pode ser feita. Tal como nos mobilizamos, há 22 anos, para ir a Lisboa buscar o concelho, é tempo de nos mobilizarmos, uma vez mais, mas ajudarmo-nos mutuamente. E isso passará, neste contexto específico em que vivemos, por diferentes acções, que poderão ir desde a solidariedade, a título pessoal ou através de instituições como a Cruz Vermelha ou os Vicentinos, que têm provas dadas no trabalho feito em prol da comunidade e dos mais desfavorecidos, até ao tema que me leva a escrever estas linhas: consumir local.

Nestes dias de pandemia, com todas as restrições à circulação, com o clima de medo que se vive e com a perda de rendimentos que muitos estão já a sofrer, o comércio local tem sido e continuará a ser profundamente afectado. Falo das lojas de rua, vendam elas roupa, artigos de decoração, mobiliário ou tecnologia, mas falo também de restaurantes, cafés e bares, que vivem hoje uma situação aflitiva, não raras vezes à beira da insolvência. Escusado será entrar em grandes detalhes sobre o drama humano que isto comporta. Negócios de uma vida destruídos, economia local globalmente afectada, desemprego e desespero são algumas das faces mais visíveis da hecatombe económico-pandémica. E tudo isto está a acontecer. Na Trofa. Agora.

Naturalmente, nem todos fomos afectados de igual forma. Há quem tenha sido submetido a um impacto ligeiro, ou mesmo inexistente, há quem se tenha reinventado e há até quem tenha encontrado no problema uma solução, por bizarro que tal ideia possa soar. O meu apelo, em primeiro lugar, é dirigido a essas pessoas, mas também àquelas que, tendo sofrido as consequências da actual crise, não deixaram de ter capacidade de consumo.

Trofenses, o Natal está aí à porta. Está na hora de mostrar que “comunidade” é mais que uma palavra e de nos unirmos em torno dela. Neste Natal, façam as vossas compras no concelho da Trofa. Comprem os brinquedos, a roupa, os sapatos, o computador, o perfume, o livro ou o electrodoméstico aqui, no nosso concelho. Deixem a visita ao shopping para outro momento. Ele passará bem sem nós. Deixem de lado as Zaras, os Mediamarkts e as FNACs, e usem o vosso rendimento disponível nos comerciantes da vossa terra, que, certamente, também o investirão cá. Vão ao vosso restaurante preferido buscar take-away. Comprem o pão para as rabanadas na padaria da vossa rua e os ingredientes na mercearia ao lado. Comprem o peixe na peixaria e a carne no talho. As grandes superfícies sobreviverão sem vocês.

Não quero viver numa Trofa em que os seus filhos deixaram o comércio local morrer de coronavírus, enquanto engrossavam os lucros estratosféricos dos Continentes e dos Pingos Doces desta vida. Quero, isso sim, voltar a ir com o meu filho ao Lírio Amarelo, ao Pomar Coutinho, ao Mercado Semanal ou à Casa Antunes, quando o pesadelo passar. E sim, meia-dúzia de euros fazem a diferença. Porque meia dúzia de euros, multiplicada por milhares de trofenses, será o balão de oxigénio de muitos estabelecimentos, muitos fornecedores desses estabelecimentos, muitas famílias e muitos estabelecimentos onde essas famílias consomem. Não é coisa pouca. E poderá ser a diferença entre um Feliz Natal e um não-Natal.

Uma palavra final para o executivo camarário, mas também para as diferentes freguesias e respectivos executivos. Se é certo que compete ao governo da nação encontrar os mecanismos e as soluções para combater os efeitos nocivos desta crise sanitária e económica, tal não invalida que o poder local se mobilize em prol da comunidade, como temos visto em inúmeras autarquias. E pouco se tem visto. Não li ainda uma palavra do nosso autarca, sempre tão activo nas redes sociais a promover a sua pessoa e as suas visitas a grandes empresas, de incentivo ao consumo no comércio local da Trofa. Tampouco se lhe conhece algum tipo de estratégia para atenuar os efeitos desta crise no sector. Numa terra onde se gastam largas dezenas de milhares de euros em infomails, cortes de fitas, iPhones e chamadas de valor acrescentado, seria de bom tom canalizar algum desse despesismo para uma campanha de incentivo ao consumo no comércio trofense, com outdoors, vídeos promocionais ou, porque não, um desses infomails dedicado ao comércio local. Se podemos pagar folhetos para Sérgio Humberto se defender das críticas de que foi alvo pelo despesismo na viciação das 7 Maravilhas da Cultura Popular, certamente poderemos pagar um infomail que verdadeiramente sirva os trofenses, e não agenda político-partidária do senhor presidente. Fica a dica.