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Edição 729

Neste Natal, compre na Trofa

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Na semana em que celebramos mais um aniversário de independência e do nascimento do concelho da Trofa, o clima é de cortar à faca. A pandemia não dá tréguas, o número de casos continua a subir, à semelhança daquilo que acontece um pouco por todo o país, em particular na região Norte, e os efeitos económicos são já indisfarçáveis, com empresas a fechar ou presas por um fio, desemprego a aumentar e inúmeras famílias, que viram os seus rendimentos a ser duramente afectados, a fazer contas à vida para pagar as contas do próximo mês. Não vale a pena dourar a pílula. A situação é crítica e ainda vai piorar, antes de melhorar.

Enquanto comunidade, muita coisa pode ser feita. Tal como nos mobilizamos, há 22 anos, para ir a Lisboa buscar o concelho, é tempo de nos mobilizarmos, uma vez mais, mas ajudarmo-nos mutuamente. E isso passará, neste contexto específico em que vivemos, por diferentes acções, que poderão ir desde a solidariedade, a título pessoal ou através de instituições como a Cruz Vermelha ou os Vicentinos, que têm provas dadas no trabalho feito em prol da comunidade e dos mais desfavorecidos, até ao tema que me leva a escrever estas linhas: consumir local.

Nestes dias de pandemia, com todas as restrições à circulação, com o clima de medo que se vive e com a perda de rendimentos que muitos estão já a sofrer, o comércio local tem sido e continuará a ser profundamente afectado. Falo das lojas de rua, vendam elas roupa, artigos de decoração, mobiliário ou tecnologia, mas falo também de restaurantes, cafés e bares, que vivem hoje uma situação aflitiva, não raras vezes à beira da insolvência. Escusado será entrar em grandes detalhes sobre o drama humano que isto comporta. Negócios de uma vida destruídos, economia local globalmente afectada, desemprego e desespero são algumas das faces mais visíveis da hecatombe económico-pandémica. E tudo isto está a acontecer. Na Trofa. Agora.

Naturalmente, nem todos fomos afectados de igual forma. Há quem tenha sido submetido a um impacto ligeiro, ou mesmo inexistente, há quem se tenha reinventado e há até quem tenha encontrado no problema uma solução, por bizarro que tal ideia possa soar. O meu apelo, em primeiro lugar, é dirigido a essas pessoas, mas também àquelas que, tendo sofrido as consequências da actual crise, não deixaram de ter capacidade de consumo.

Trofenses, o Natal está aí à porta. Está na hora de mostrar que “comunidade” é mais que uma palavra e de nos unirmos em torno dela. Neste Natal, façam as vossas compras no concelho da Trofa. Comprem os brinquedos, a roupa, os sapatos, o computador, o perfume, o livro ou o electrodoméstico aqui, no nosso concelho. Deixem a visita ao shopping para outro momento. Ele passará bem sem nós. Deixem de lado as Zaras, os Mediamarkts e as FNACs, e usem o vosso rendimento disponível nos comerciantes da vossa terra, que, certamente, também o investirão cá. Vão ao vosso restaurante preferido buscar take-away. Comprem o pão para as rabanadas na padaria da vossa rua e os ingredientes na mercearia ao lado. Comprem o peixe na peixaria e a carne no talho. As grandes superfícies sobreviverão sem vocês.

Não quero viver numa Trofa em que os seus filhos deixaram o comércio local morrer de coronavírus, enquanto engrossavam os lucros estratosféricos dos Continentes e dos Pingos Doces desta vida. Quero, isso sim, voltar a ir com o meu filho ao Lírio Amarelo, ao Pomar Coutinho, ao Mercado Semanal ou à Casa Antunes, quando o pesadelo passar. E sim, meia-dúzia de euros fazem a diferença. Porque meia dúzia de euros, multiplicada por milhares de trofenses, será o balão de oxigénio de muitos estabelecimentos, muitos fornecedores desses estabelecimentos, muitas famílias e muitos estabelecimentos onde essas famílias consomem. Não é coisa pouca. E poderá ser a diferença entre um Feliz Natal e um não-Natal.

Uma palavra final para o executivo camarário, mas também para as diferentes freguesias e respectivos executivos. Se é certo que compete ao governo da nação encontrar os mecanismos e as soluções para combater os efeitos nocivos desta crise sanitária e económica, tal não invalida que o poder local se mobilize em prol da comunidade, como temos visto em inúmeras autarquias. E pouco se tem visto. Não li ainda uma palavra do nosso autarca, sempre tão activo nas redes sociais a promover a sua pessoa e as suas visitas a grandes empresas, de incentivo ao consumo no comércio local da Trofa. Tampouco se lhe conhece algum tipo de estratégia para atenuar os efeitos desta crise no sector. Numa terra onde se gastam largas dezenas de milhares de euros em infomails, cortes de fitas, iPhones e chamadas de valor acrescentado, seria de bom tom canalizar algum desse despesismo para uma campanha de incentivo ao consumo no comércio trofense, com outdoors, vídeos promocionais ou, porque não, um desses infomails dedicado ao comércio local. Se podemos pagar folhetos para Sérgio Humberto se defender das críticas de que foi alvo pelo despesismo na viciação das 7 Maravilhas da Cultura Popular, certamente poderemos pagar um infomail que verdadeiramente sirva os trofenses, e não agenda político-partidária do senhor presidente. Fica a dica.

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Edição 729

“Uma pandemia, duas curvas para achatar”

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De uma maneira ou de outra, os quatro trofenses a quem demos espaço nesta edição, vivem, desde março, na linha da frente da luta contra a Covid-19. Uns bem perto, outro noutro país, são, a nosso ver, as vozes mais capazes de transmitir aos leitores aquilo que se está a passar dentro de um hospital, no interior das instituições ou nas habitações de muitos seniores, há muitos meses privados de verem ou abraçarem os entes queridos. Mas também são aqueles que melhor podem desconstruir a pandemia de desinformação que se propaga mais rápido que o próprio novo coronavírus e que, em muitos casos, pode ter implicações graves no esforço de quebrar as cadeias de transmissão da Covid-19, levando a que o trabalho destes verdadeiros “soldados” numa guerra pandémica seja prolongado, já para lá do que é, humanamente, possível.

Este espaço é um alerta para que todos nos mantenhamos comprometidos na luta contra a propagação do novo coronavírus e esse imperativo está vincado nos quatro testemunhos que recolhemos. E isso não é coincidência, é a confirmação de que é premente seguirmos as recomendações das autoridades de saúde.

Este espaço que lhes demos e que lhes dedicamos é também uma homenagem d’O Notícias da Trofa a todos os profissionais de saúde que, desde março, roubam horas ao descanso, às famílias, a eles próprios para salvar vidas. Os heróis têm rosto: estes quatro são disso exemplo.

António Pedro Leal
Enfermeiro Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM)

“Uma pandemia, duas curvas para achatar”

Foto: arquivo

“A pandemia faz-nos viver um momento único nas nossas vidas. Um fenómeno inédito (pelo menos para a nossa geração) e para o qual não estávamos preparados. Terminologia como “Covid-19” ou “pandemia” passaram a fazer parte do nosso vocabulário no dia a dia. Na presente data, já ultrapassamos um milhão e trezentas mil mortes e cinquenta e quatro milhões de infetados em todo o mundo. A segunda vaga revela-se avassaladora num período pré-Gripe sazonal, de uma forma transversal todos os países, colocando a nu as fragilidades dos serviços de saúde. As enfermarias, serviços de urgência e unidades de cuidados intensivos estão lotadas, os profissionais são claramente insuficientes e estão exaustos. E isto eu sei porque é esta a minha realidade profissional desde o inicio da pandemia. Vejo os doentes crónicos com receio de recorrer às unidades de saúde cessando a terapêutica e agravando as patologias de base. Vejo, noutros casos, os serviços de saúde a serem claramente incapazes de dar resposta às solicitações. A pandemia trouxe um caos de difícil gestão. Como tentativa de resposta a uma situação inédita e imprevisível, os governos mundiais implementaram políticas (não raras vezes radicais) com o objetivo de controlar ou pelo menos conter a expansão explosiva da doença. O preço a pagar? Desemprego, crise, fome, desespero, revolta e… desinformação. Muita desinformação.

Em Fevereiro de 2020, Tedros Ghebreyesus (Diretor Geral da Organização Mundial da Saúde) alertava para o fenómeno de “infodemia” (ou epidemia de desinformação) proveniente de teóricos da conspiração e negacionistas. E deixa o alerta: a infodemia dissemina a desinformação e isso prejudica a resposta coletiva à pandemia. De uma maneira geral a mensagem subjacente é sempre a mesma “Sars-Cov-2 não existe, querem-nos controlar”. Fazendo uso das redes sociais e do mundo digital, estas mensagens foram e são amplamente difundidas, criando dúvidas que não deviam existir e alterando radicalmente o comportamento da população, reduzindo ou anulando por completo a eficácia das medidas de saúde públicas implementadas. A repercussão da infodemia é de tal forma relevante que em Agosto a OMS emite um comunicado alertando para o número assustador de mortes diretamente relacionadas com notícias falsas relacionadas com a COVID-19.

A infodemia ganha novas proporções de dia para dia. Grupos e movimentos desenvolvem-se alheios ao conhecimento científico e à fundamentação lógica, alimentando a mentira e comprometendo a saúde individual e coletiva. A ciência, a investigação e o conhecimento médico são descredibilizados para darem lugar a teorias insanas e despromovidas de qualquer verdade. Estas teorias servem de albergue para todos aqueles que ficaram numa posição vulnerável como consequência dramática da pandemia. Acreditar em mitos e em teorias da conspiração são a face visível do desespero com que muitos foram confrontados. Ignoram a evidência. Criar dúvida e negando o que está a acontecer a nível mundial incentiva ao incumprimento das regras mais elementares, permitindo dessa forma a disseminação da doença na comunidade.

O efeito “bola de neve” na Pandemia: Uma doença descontrolada na comunidade significa a implementação de regras cada vez mais rígidas e a privação de direitos, liberdades e garantias. Significa confinamentos e recolher obrigatório. Significa a suspensão do trabalho e a perda de rendimentos. Significa desemprego e fome. Significa uma crise mais prolongada e cada vez mais incomportável. Controlar a progressão da doença só depende de nós, para que a normalidade – ou pelo menos a “normalidade” possível! – perdure até que uma solução definitiva seja encontrada. Grupos negacionistas incentivam o incumprimento e isso coloca-os num papel de responsáveis pelo descontrolo da doença.

Paradoxos do nosso tempo: numa era da informação acessível a qualquer um, até a má informação e a falsa informação têm um espaço. Um texto obscuro anti ciência chega a mais população numa rede social do que uma publicação científica feita num espaço de reconhecida credibilidade. É cientificamente aceite que a desinformação é perigosa para a saúde física e mental da população. Que permite que o medo se instale. Que isola as pessoas. Que destrói todos os ganhos em saúde conseguidos até então. A desinformação inviabiliza o cumprimento pelas mais elementares regras de saúde pública: a etiqueta respiratória, o uso de máscara, a desinfecção das mãos e o distanciamento social. A curva que traduz a progressão da doença acompanha a curva da desinformação. Compete ao Governo e aos seus órgãos consultivos a implementação de uma estratégia eficaz de comunicação, baseada na transparência e na verdade, assentes no “estado da arte” da ciência. Mas acima de tudo na coerência, e convenhamos, nem sempre tal se tem verificado. Medidas avulso tomadas superiormente criam dúvidas e inseguranças na população. E servem, perigosamente, para alimentar a desinformação negacionista. Por isso compete a cada um de nós perceber qual a proveniência de determinado texto ou informação, confirmando a veracidade dos factos, partilhando apenas as informações provenientes de fontes cuja credibilidade é plenamente reconhecida. Com quase um ano de pandemia já todos percebemos que a sopa de alho não cura a COVID19… De onde vem esta informação? Quem assina esta informação? Qual a fundamentação cientifica que sustenta esta informação? É este o espírito crítico com que devemos abordar os conteúdos com que nos cruzamos nomeadamente nas redes sociais.

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Este texto não tem o objetivo de criar alarme ou pânico social. Tem como objetivo criar uma maior consciência nesta época particularmente crítica de expansão da doença, principalmente quando estamos prestes a entrar no Inverno, época tradicionalmente complexa para a saúde. Estamos a caminho das 220.000 infeções e 3.400 óbitos em Portugal e as perspetivas não são animadoras. Temos os serviços de saúde a trabalhar para lá dos limites das suas capacidades. Mas temos também a certeza de que tudo isto pode e deve ser minimizado, dependendo única e exclusivamente de NÓS. Como profissional de saúde, peço-vos algo simples: a utilização da máscara e a etiqueta respiratória, a lavagem e desinfeção das mãos e o distanciamento social são medidas extremamente eficazes e que fazem toda a diferença. Neste momento particularmente crítico, são gestos que revelam elevada consciência social e respeito pelo próximo. Ajudem-nos a ajudar porque ninguém mais do que nós deseja um final rápido deste capítulo das nossas vidas”.

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Edição 729

“Fomos confrontados com a morte de colegas de profissão”

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De uma maneira ou de outra, os quatro trofenses a quem demos espaço nesta edição, vivem, desde março, na linha da frente da luta contra a Covid-19. Uns bem perto, outro noutro país, são, a nosso ver, as vozes mais capazes de transmitir aos leitores aquilo que se está a passar dentro de um hospital, no interior das instituições ou nas habitações de muitos seniores, há muitos meses privados de verem ou abraçarem os entes queridos. Mas também são aqueles que melhor podem desconstruir a pandemia de desinformação que se propaga mais rápido que o próprio novo coronavírus e que, em muitos casos, pode ter implicações graves no esforço de quebrar as cadeias de transmissão da Covid-19, levando a que o trabalho destes verdadeiros “soldados” numa guerra pandémica seja prolongado, já para lá do que é, humanamente, possível.

Este espaço é um alerta para que todos nos mantenhamos comprometidos na luta contra a propagação do novo coronavírus e esse imperativo está vincado nos quatro testemunhos que recolhemos. E isso não é coincidência, é a confirmação de que é premente seguirmos as recomendações das autoridades de saúde.

Este espaço que lhes demos e que lhes dedicamos é também uma homenagem d’O Notícias da Trofa a todos os profissionais de saúde que, desde março, roubam horas ao descanso, às famílias, a eles próprios para salvar vidas. Os heróis têm rosto: estes quatro são disso exemplo.

Marco Silva
Enfermeiro-chefe no Hospital Universitário Luton e Dunstable (Reino Unido)

“Fomos confrontados com a morte de colegas de profissão”

“Este tem sido um ano, anormalmente, difícil. É verdade que tem sido para toda a gente, mais para uns que para outros, e para os profissionais de saúde tem sido não apenas difícil a nível pessoal, mas também muito desafiante a nível profissional.

Para mim, vivendo no estrangeiro, a nível familiar o ano tem sido bastante duro, porque passei de visitas a Portugal a cada dois meses para um ano. Este ano, apenas viajei a Portugal uma vez. Foram oito meses sem ver a família e, neste momento, já vão 4 meses e estou a contar que mais alguns se irão passar.
A nível profissional, o ano tem sido, igualmente, desafiante, infelizmente e por motivos de saúde, durante os três meses em que os casos de Covid eram mais elevados, eu estive a trabalhar a partir de casa, no entanto, isso não me afastou da realidade, muito pelo contrário.

Enquanto enfermeiro-chefe no serviço de urgência, tenho uma noção muito clara da gravidade da doença e do seu impacto na sociedade. Enquanto profissionais de saúde, todos somos preparados para o confronto com a morte, mas ninguém estava preparado para lidar com a morte e com a debilidade em números tão elevados.

No meu hospital, fomos confrontados com a morte de alguns colegas de profissão, assim como outros que estiveram gravemente doentes, tudo isto causa-nos um grande medo, no entanto, e apesar do medo, quase todos mantiveram o foco e deram o seu melhor e, apesar de tudo isto, muitas vezes fomos confrontados com a escolha entre doentes ou com escolhas que poderiam pôr a vida dos doentes em risco.

Como é óbvio, nenhum hospital no mundo estava preparado para esta afluência de doentes e a nossa não era diferente. Por este motivo, a opção feita passou por dividir em áreas, ou seja “Suspeitos de Covid” e “Não suspeitos”, mas isto causa decisões extremamente difíceis, por exemplo, não é de consciência leve que decides colocar um doente imunossuprimido com cancro do pulmão numa área com Covid pelo facto de ele se apresentar na urgência com febre e dificuldade respiratória. Caso o doente, efetivamente, tenha Covid esta foi uma decisão acertada, caso ele não tenha Covid, podes estar a expor o doente a Covid e chegar mesmo a causar a sua morte.

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Neste momento, estamos a passar por uma segunda onda de Covid e a ideia que está a dar é que as pessoas estão a desvalorizar a doença e a dar menos importância às regras de isolamento e de uso de máscara, um erro enorme e do qual muita gente se vai arrepender. Temos que ter a perfeita noção que o uso de máscara não só nos protege a nós, mas principalmente protege os outros, incluindo os nossos familiares.

Todas as semanas sou confrontado com casos de pessoas idosas que, apesar de estarem em isolamento domiciliário, contraíram o vírus que lhes terá sido transmitido pelos familiares diretos que os apoiam com as compras, por exemplo. Ninguém está a salvo e mesmo aquelas pessoas que acham que são mais fortes que o vírus, devem respeitar as regras por respeito para com os outros em especial pelos seus familiares.

Na minha opinião, este vírus está para ficar e mesmo com o aparecimento da vacina não vamos erradicar o vírus nos próximos tempos e o importante é aprendermos a viver com o “novo normal” de forma a reduzir os riscos e permitir uma vida em comunidade o melhor possível.”

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