Tenho um amigo que recentemente perdeu a mãe e, claro está, ficou profundamente consternado. A sua mãe era uma senhora alegre, bem disposta, sempre com um sorriso…levou uma vida "cheia" de coisas boas. Uma vida feliz com os seus filhos, marido e amigos…Esse amigo costuma dizer-me: «… a natureza é implacável…».

  É verdade. Recentemente perdi uma das minhas melhores amigas. Morreu na manhã de 15 de Dezembro de 2007. Encontrei-a há mais de 10 anos. Estava aflita. Sem sequer falar, bastou o seu olhar, para reparar que carecia de ajuda. Auxiliei-a e desde então jamais deixou de me amar. Com ela aprendi grandes lições e o seu comportamento e a sua estima ajudou-me a moldar a minha personalidade. Aprendi que a vida deve ser vivida dia a dia, minuto a minuto. É efémera. Tem de ser apreciada, saboreada, sentida. Aprendi a ser humilde, a respeitar todas as formas de vida. A amá-las.

Com a minha amiga aprendi a ser reconhecido. E aprendi que quando se dá por amizade ou por amor, sem pretender receber nada em troca, normalmente recebe-se mais. Aprendi a ser mais paciente e a ser mais carinhoso. Esta minha amiga tinha quatro patas, pelo curto e castanho, uma cauda que rodopiava como uma hélice de um helicóptero e um olhar…um olhar… que dizia tudo…as coisas mais belas do mundo estavam naquele olhar…Chamava-se Lucky – uma perdigueira portuguesa. Foi outra amiga que lhe pôs o nome quando apareceu. Mas também era conhecida pelo « pichinho-mor peco bego», a nossa « fanequinha », a minha «…gueirinha» ou pela « focinheirinha», como lhe chamava o meu amigo Zé Manel. Com a minha mulher e companheira, foi um forte amor construído paulatinamente.

Mas tão sólido que se tornou indestrutível. Aliás, foi outra das conquistas da Lucky. A Irene tolerava os cães. Fazia-lhes umas festas. Mas nada mais do que isso. A Lucky deu-lhe a volta à cabeça e transformou-a numa "feroz" defensora dos animais. A Lucky era uma companheira completa. Nas horas boas corria e brincava dentro das suas limitações físicas. Eram " bulhas" intensas em que saltava sobre mim, ferrava-me na nuca, dava-me patadas. Era um prazer enorme afagar-lhe a cabeça, as orelhas, o peito, o dorso… Nas horas tristes, encostava-se, lambia-nos as mãos, sentia como nós. Foram anos intensamente vividos, com total entrega e profunda cumplicidade. No mais difícil momento da minha vida, aquando da morte de meu pai, foi a Lucky que me deu alento com os seus carinhos, as suas caudas, os abraços que lhe dava…

Em Maio de 1997 encontrámo-la na curva do Massaquil, a caminho da Trofa. Era já adulta. Fora atropelada e tinha a bacia partida. Levamo-la à clínica veterinária da Areosa onde ao longo destes anos foi sempre devida e carinhosamente acompanhada por todos os seus profissionais, sobretudo pelo Dr. Nuno Proença, a quem expresso o meu sincero reconhecimento. Passado algum tempo já se punha de pé e encetava os primeiros passos. A partir daí não tirava os olhos de mim e apesar de ser uma glutona, muitas vezes só comia após o meu regresso a casa. Fazia questão disso. Ia connosco para todos o lado, nas férias, nos fins-de-semana, nos passeios pedestres. Amava a natureza. Dedicava-lhe profunda veneração. Adorava os campos, as flores, a erva, o sol e a água… como gostava da água… entrava por ela adentro como se nada fosse. Mas, mais do que tudo, gostava de nós. Sentia-se regalada à nossa beira. Não me perguntem como sei isso. Sei-o, pura e simplesmente. Há coisas que não têm de ser ditas. Apenas sentidas. É o suficiente.

Era bom que o mundo fosse diferente. Que em vez de números da economia, os homens se servissem desta como um instrumento ao serviço do bem-estar da vida. Seria bom que nos víssemos como apenas mais uma espécie animal. Que aprendêssemos a respeitar e a preservar toadas as espécies, nas suas diferenças e diversidade, porque todos somos irmãos nesta escala planetária. Era bom que fosse de Natal todos os segundos e minutos. Não o Natal das prendas e das luzinhas. Mas o Natal do calor humano, da amizade, do respeito, do amor. Seria perfeito se o Natal fosse igual para todos. Aí sim. Teríamos um Natal verdadeiramente Natal. Como boas intenções e palavras bonitas não chegam, seria forçoso retirar grandes privilégios onde existem e distribuir essa riqueza onde há pobreza. E essa seria uma das coisas mais belas que um homem poderia fazer na vida. Seriam os homens mais felizes mas também todos os outros seres vivos. Porque haveria mais justiça social. E com ela mais educação… mais cultura.

Mas até eu, que sou um homem que nasci para fazer as coisas mais heróicas que um homem pode fazer na vida, como dizia o grande poeta e escritor Manuel da Fonseca, não resisti e senti a necessidade de fazer esta crónica sobre a minha «…gueirinha», a minha querida Lucky, minha irmã planetária, criada através dos mesmos processos químicos e físicos com que eu fui criado, composta pelo mesmo pó das estrelas…que compõe toda e qualquer vida que exista na Terra e no Universo. A Lucky estava a sofrer. Definhou velozmente e o fim acercava-se inexoravelmente. Decidimos em consciência, depois de inteirados da sua situação clínica e da sua qualidade de vida, optar pela eutanásia. Uma decisão difícil… penosamente difícil… mas transbordante de amor. Afagada pelas nossas mãos e por nós abraçada, a Lucky partiu lentamente, levando o nosso cheiro com ela.

Poderemos ter muita amizade e amor para dar ao nosso semelhante e a outros animais, nossos amigos. Mas o espaço da Lucky não poderá ser preenchido. A natureza é implacável… o tempo passará indiferente, as lágrimas secarão, mas a nossa Lucky, a minha "…gueirinha" permanecerá viva na nossa memória e no nosso amor.

Atanagildo Lobo.