Tem exactamente 328 anos e está construída sobre a água. A Azenha de Bairros já passou por três gerações e depois de estar parada há vários anos é aberta ao público, para dar a conhecer a história de uma família de moleiros.

Reza a história que a Azenha de Bairros foi construída em 1682 e que em 1901 o avô do actual proprietário, Valdemar Portela, a comprou junto com os terrenos em volta, quando veio endinheirado do Brasil. “Pertencia à família dos Cerejeiras de Lousado”, recorda Valdemar Portela, das histórias que ouvia o pai contar. “O meu avô é que esteve no Brasil e ganhou lá a vida dele e quando chegou cá comprou esta azenha, a do outro lado do rio e também a quinta”, contou ao NT/TrofaTv.

As águas que correm pela roda da azenha já são outras, mais poluídas. Mas a roda também já não é a mesma. Valdemar Portela decidiu colocar uma nova para pôr a azenha a funcionar “para visitas de estudo, ou para quem a quiser ver”. A azenha já não mói há oito anos e já há seis que não tinha roda, mas a partir de agora está aberta para quem a quiser visitar. “Não se encontra azenha no Rio Ave como esta”, acrescentou.

José Araújo foi o carpinteiro que ajudou Valdemar Portela a construir a nova roda, um trabalho minucioso, uma vez que exigia “muita concentração nas medidas exactas”, no entanto adiantou: “Foi um prazer ter feito a primeira roda na minha vida”.

As paredes da azenha contam várias histórias, “bons e maus momentos” que não vão ser esquecidos enquanto que esta estiver aberta. “O meu pai às vezes dizia que tinha pena de não ter um filho que desse continuação a isto”, confessou Valdemar Portela, que quatro anos após a morte do pai decidiu fazer-lhe a vontade e pôr a azenha em funcionamento. No entanto, fez algumas adaptações: “Para manter a roda sempre molhada tirei dois fúseis fixos e anda apenas a roda, quando quero pôr a moer coloco os fúseis e movimenta na mesma a roda, mas para moer o milho”. Esta explicação para muitos confunde, mas Valdemar faz questão de explicar a todos quantos entram na azenha, pois esta é uma arte de que muito poucos têm conhecimento, pois “não se aprende assim de momento”. A afinação e os concertos de uma azenha são feitos pelo moleiro e tudo é medido com um compasso antigo, já enferrujado.

 

Azenha de Bairros: “Uma indústria de moer milho”

Quatro rodas compunham “uma indústria de moer milho” que era propriedade do pai de Valdemar Portela. Muitos já conheciam o espaço e o moleiro que nunca abandonava a azenha.

Pela estrada que conduz até à azenha de Bairros, milhares de camiões passaram para carregar os sacos de matéria-prima já moída.

“Estou apenas a manter isto direito para que quem vier aqui possa perceber o que isto era antigamente,uma indústria que trabalhava dia e noite”, explicou Valdemar Portela, que enquanto trabalhou com o pai apenas saía ao domingo.

“Estou aqui diariamente, porque eu tenho paixão por isto e sempre que posso venho até aqui. Só estar a apanhar este ar até parece que dá saúde”, confessou o agricultor de profissão e moleiro apenas por lazer.

A azenha é vai abrir as portas ao público oficialmente este domingo e Valdemar Portela já convidou toda a família e amigos e repete o convite a todos os que tenham curiosidade em conhecer a azenha e recuar no tempo.