Após a administração de uma dose de penicilina, Ângela Barbosa queixou-se de “dores horríveis” à enfermeira do Centro de Saúde da Trofa, a quem acusa de ter desvalorizado as suas queixas. A utente esteve internada durante 15 dias, com hematomas no corpo. Direção do Agrupamento de Centros de Saúde de Santo Tirso/Trofa afirma que a utente “não foi negligenciada”.

Ângela Barbosa dirigiu-se ao Centro de Saúde da Trofa para tomar a última das três doses de penicilina, que lhe tinham sido receitadas pelo médico de família para tratar de “uma infeção”. Entrou a caminhar normalmente e depois do injetável nunca mais conseguiu pôr o pé no chão.

Tudo aconteceu cerca das 17.30 horas do dia 23 de dezembro de 2013. Mal a enfermeira administrou uma ampola de penicilina, Ângela Barbosa queixou-se de imediato que “não estava bem”, que “sentia o pé a inchar” e que parecia que tinha “uma perna de borracha”, “não” conseguindo levantar-se nem colocar o “pé no chão”.

Pouco depois, os técnicos de saúde mostraram-se admirados pela presença da senhora, dizendo que esta “já devia ter ido embora” e que as dores passariam “dentro de 20 minutos”. A utente permaneceu no centro “mais um pouco para ver se a dor passava”, o que “não” aconteceu. Passaram 20 minutos, uma, duas horas, quando, segundo a utente, por volta das 19.50 horas a enfermeira que lhe tinha administrado a ampola lhe disse: “Ainda estás aqui deitada? Oupa, andar”. O companheiro de Ângela, Manuel Reis, chamou um táxi e foram para casa, em Santiago de Bougado.

Foi o taxista Joaquim Ribeiro que recebeu uma chamada para ir ao Centro de Saúde buscar uma senhora. Quando lá chegou, encontrou-a “numa cadeira de rodas”, “bastante dorida, a chorar, a dizer que ia morrer e que não sentia o corpo”, contou em declarações ao NT.

Quando chegou a casa, a queixosa ainda se deitou no sofá, mas não aguentando de dores chamou, por volta das “21.30 horas”, uma ambulância que a transportou para a unidade de Vila Nova de Famalicão do Centro Hospitalar Médio Ave (CHMA). “Eu sabia que não ia passar, não ia dormir. Estava em pânico”, atirou.

Do CHMA foi de “urgência” para o Hospital de S. João, do Porto, onde a “estiveram a analisar”, reencaminhando-a novamente para Famalicão. Além da perna inchada, Ângela tinha as nádegas negras, um abcesso na nádega e os pés com marcas roxas e pretas. “A primeira vez que me viram suspeitaram que tinha sido espancada, mas eu disse que não e que tinha ficado assim desde que levei a injeção. Toda a gente viu, eu nem dava um passo sequer”, contou.

De regresso à unidade hospitalar de Famalicão, a utente de 45 anos foi internada e aí permaneceu “até ao dia 7 de janeiro”, tendo sido “sempre medicada”.

Segundo a nota de alta do centro hospitalar, verificou-se no dia 28 de dezembro que o “pé direito” se apresentava “edemaciado, mais frio e com aspeto marmóreo”. No dia seguinte, registou um “agravamento, apresentando áreas de necrose cutânea de alguns dedos, aspeto marmóreo da planta do pé esquerdo”. Ângela apenas sabe que o que teve estava relacionado com a injeção e que se tratava de “um caso único”, tendo sido alvo de “fotografias e filmagens” para “analisarem o seu caso”.

Já no dia 12 de fevereiro, Ângela Barbosa teve uma consulta no Centro Hospitalar, onde estiveram a “ver o pé”, tendo-lhe sito dito que “estava a melhorar”. Neste momento, a utente, que se desloca com ajuda de canadianas, está medicada para “as dores” e para “ajudar o sangue a circular”. A próxima consulta está marcada para as 11.30 horas do dia 14 de maio, em Famalicão.

Utente “não foi negligenciada”

Indignados com esta situação, Manuel e Ângela apresentaram uma reclamação por escrito no dia 31 de dezembro, no Gabinete do Cidadão do Centro de Saúde da Trofa. A resposta à exposição chegou no dia 13 de fevereiro. Segundo o documento, “a doente referia dor no local do injetável” e como uma hora depois mantinha “as mesmas queixas” e o “quadro clínico foi interpretado como uma crise ansiosa” foi-lhe “administrada uma ampola IM de Diazepam”. “Duas horas depois e dado a doente parecer estar menos queixosa e menos agitada, apesar de manter dor na região glútea no local do injetável e no restante membro inferior, foi-lhe dada alta com a informação de que se não melhorasse significativamente deveria recorrer ao Serviço de Urgência”, pode ainda ler-se na exposição.

Confrontada com esta resposta, Ângela Barbosa afirma ser “mentira” que tenha sido observada ou medicada pela segunda vez, assim como ser avisada para recorrer ao Serviço de Urgência. “Ela mandou-me embora e disse que passava. Ela sabia que eu não andava mais, podia chamar a ambulância e não chamou”, sublinhou, recordando que no Hospital de S. João lhe disseram que a sua “sorte” foi “ir logo para o hospital, porque o sangue deixou de circular”.

Em declarações ao NT/TrofaTv, a diretora executiva do Agrupamento de Centros de Saúde de Santo Tirso/Trofa, Ana Tato, explicou que a utente “não foi negligenciada”, tendo sido “única e simplesmente sempre acompanhada pela parte da enfermagem”, apontando a comunicação como um ponto “muito difícil”. “A comunicação entre a população e os técnicos de saúde é muitas vezes descurada e aquilo que parecia da parte da senhora uma situação aguda, um bocadinho inexplicável apesar da injeção que fez ser dolorosa, mas nada que uma pessoa adulta não pudesse de facto suportar. Não havendo passado alérgico, eu creio que as pessoas desvalorizaram a dor ou a capacidade de resistência à dor desta utente, quando ela de facto estava a ter uma dor forte e que depois se comprovou de que era uma embolia dermatológica (conhecido por Síndrome de Nicolau), por consequência de uma injeção”, acrescentou.

Ana Tato frisou ainda que o Síndrome de Nicolau é “algo de muito raro e que pode acontecer após um injetável, seja uma vacina, uma injeção dentro do músculo ou intra-articular”. “O líquido injetável ao entrar entre os músculos alarga-os, cria uma situação de compressão, que lhe veio dar este Síndrome e que lhe deve ter obstruído uma das artérias do pé”, descreveu.

Na resposta à exposição a que o NT teve acesso, em nenhum momento é equacionada pela Adminitração do ACES Santo -Tirso Trofa a abertura de inquérito interno para averiguar se se tratou de uma situação de negligencia, o que leva Ângela Barbosa a ponderar agir judicialmente.