Numa das muitas pesquisas de história, analisando uma das maiores obras de história nacionais: “Portugal Antigo e Moderno” que foi um dicionário editado em 1874 com múltiplos volumes que pretendia abordar a história de todas as cidades, vilas e freguesias de Portugal, surgiu vários pontos interessantes sobre a nossa história local.

O seu autor, Augusto Soares Azevedo Barbosa de Pinho Leal editava uma das obras que seria referência nacional e iria marcar profundamente o trabalho de historiadores de várias gerações.

Naturalmente as freguesias mais próximas da minha pessoa, acabam por fazer recair a nossa atenção sobre elas, nesse sentido acabou por prestar mais atenção às freguesias do concelho da Trofa.

Na análise das freguesias do futuro e atual concelho da Trofa a atenção acabou por recair na freguesia de S. Mamede do Coronado, por diversos fatores, desde passado histórico e até evolução de habitantes.

Uma abordagem ao enquadramento geográfico desta freguesia relativamente a outras cidades, tais como o Porto ou mesmo Lisboa, referindo que no final do século XIX tinha nos seus limites geográficos 260 fogos. Certamente que se estará a perguntar se existe a possibilidade de converter esse número de fogos, num número real de habitantes, vários historiadores referem que com esse número de fogos deveria ser uma população entre os 1500 a 2500 habitantes.

Um aumento elevado da população se atendermos que em 1757 havia apenas 172 fogos, estamos perante um aumento de praticamente 100 casas em pouco mais de cem anos, não ignorando provavelmente o aumento de 1000 mil habitantes.

Atendendo a estes dados é possível perceber que S. Mamede do Coronado apresentava uma grande dinâmica social, motivada certamente por questões económicas, até porque na obra em questão a mesma surge como: “É terra fértil. Muito gado”.

Tentando traçar um paralelismo e quantificar essa mesma riqueza e dinâmica económica, a sua população pagava praticamente o dobro dos impostos que a população de S. Romão pagava.

Atendendo à razão da escrita deste texto e ao próprio título desta crónica, certamente estará a perguntar-se onde surge a questão de alimentar os cães da Maia e sendo imperioso referir essa situação.

O autor refere e fazendo uma citação direta do seu dicionário publicado em 1874: “O abbade de Vermuim tinha obrigação de vir aqui assistir à missa, no dia de S. Mamede, com todos os seus creados, cavalgaduras, cães e gados (!) dando de jantar a todos o abbade de Coronado e oferecia ao de Vermuim (que estava de sobrepeliz e estola) sete varas de bragal, que este media, aceitava e tornava para a sua terra”.

Devia ser uma situação ao nível da surrealidade de se assistir se olharmos com os olhos da atualidade, um cortejo a caminhar da atual cidade da Maia em direção a S. Mamede, com várias pessoas além dos inúmeros cavalos e até mesmo os cães para jantarem em dia de festa de S. Mamede, nesta localidade trofense. Sendo uma cerimónia com grande rigor em que o abade estava devidamente “fardado” com estola e sobrepeliz a receber um imposto em forma de géneros que era a prática daquela época, como também essa quantidade era uma quantidade padrão.

Impossível saber o início desta prática, como também compreender porque é que ela teve início, existem circunstâncias da história que não conseguimos resolver e perceber as suas dinâmicas, sem sombra de dúvidas uma tradição suis generis, não conhecendo mais nenhum caso a nível nacional que se iria perder com o passar do tempo e da memória.