Altamente contra-indicada para sistemas nervosos explosivos e embraiagens pesadas, a EN14 será, contudo, para muitos, uma alternativa mais económica à A3 (Porto-Valença). A estrada, que liga Porto e Braga, passa pela Maia, atravessa a Trofa e segue para Famalicão, sendo percorrida, diariamente, por milhares de condutores. Porém, o que se poupa em combustível e portagens esgota-se em tempo e… paciência.

 

  Com a variante encalhada no papel e refém de um parecer de desconformidade ao estudo de impacte ambiental, as alturas em que é possível percorrer a EN14 sem engatar a primeira a cada dez metros assemelham-se a miragens. A regra é, pois, uma via entupida sem horas de ponta delimitadas no tempo. A cidade da Trofa será uma das mais martirizadas.

"É caótico. A qualquer hora pode encontrar-se fila", avisa Patrícia Silva, sobre o troço entre Ribeirão (Famalicão) e o centro da Trofa. "Pronto, aqui já começa a fila", aponta a condutora durante a viagem que o JN acompanhou. Estamos na EN14, em Ribeirão, a seguir à recta do Senhor dos Perdões. O trânsito acumula-se e, a partir daqui, a viagem é em "pára-arranca". Um percurso que demoraria entre 25 a 30 minutos prolonga-se por 50."Sair do stresse do trabalho e ainda apanhar este trânsito leva a que cheguemos a casa esgotados", frisa. A auto-estrada é a única fuga. Patrícia desconhece outra; perde-se no caminho.

Mas Fernanda Oliveira, engenheira química no Castelo da Maia, conhece o mapa dos atalhos. Mora em Famalicão. "Às vezes, para conseguir passar pelo centro da Trofa, poderia demorar uma hora". Por isso, perdeu a paciência. "Prefiro os paralelos e percorrer mais quilómetros do que estar na fila", desabafa.

As penúrias rodoviárias destas duas condutoras ficariam resolvidas com a construção da alternativa à EN 14 que, vindo do Chiolo, na Maia, entroncaria com o traçado da variante à EN104 (ler caixa), seguindo na zona poente da cidade da Trofa em direcção à A7, entre Famalicão e Vila do Conde. Todavia, o projecto da empresa Estradas de Portugal permanece dependente da aprovação, pela Agência Portuguesa do Ambiente, do estudo de impacte ambiental, o qual recebeu um segundo parecer de desconformidade daquele organismo – o primeiro em Dezembro de 2006 e o seguinte em Setembro deste ano. Ainda assim, Bernardino Vasconcelos, presidente da Câmara da Trofa, garante que o Governo de Sócrates assumiu o compromisso de que as obras das variantes avançam até ao final de 2009.

Até lá, o tráfego entre a Trofa e Famalicão poderá ser atenuado com a construção da variante intermunicipal, que ligará a rotunda do Senhor dos Perdões, em Ribeirão, ao Hospital da Trofa. O projecto, que contempla uma extensão de 2,7 quilómetros e um investimento de dez milhões de euros, foi aprovado pelo Executivo famalicense e será executado em parceria com o município vizinho.

Trofa é o centro do pesadelo

Os cerca de 20 minutos de que Isabel Martins necessitaria para fazer o percurso entre a Trofa e a Maia depressa se transformam em mais do dobro – cerca de 50 – quando, após um dia de trabalho, o regresso a casa, em Moreira da Maia, perto do aeroporto Francisco Sá Carneiro, se faz em "hora de ponta" e pela EN14. "Ficar no mesmo sítio dez minutos" não será invulgar, conta. Aliás, Isabel também sabe o significado que a palavra "presa" assume nos troços que convergem para a centralíssima Rotunda do Catulo, plantada no meio da cidade da Trofa, onde tudo parece convergir e… engarrafar.

"O que se passa é que temos um trânsito, em termos de densidade, claramente superior àquilo que são os níveis normais de funcionamento de uma estrada nacional como esta, que, no atravessamento da Trofa, é tudo menos isso. É uma rua", define António Pontes, vereador da Autarquia trofense. Aliás, as nacionais 14 e 104 (esta última vem de Santo Tirso, atravessa a cidade e segue para Vila do Conde) são, dentro da Trofa, troços já "desqualificados", lembra Pontes, esclarecendo, ainda, que um protocolo entre o município e a Estradas de Portugal lhes atribui a classificação de "vias municipais". O projecto das variantes inclui, ainda, uma alternativa à também congestionada EN104. Entroncará com o traçado da variante à EN14, a poente da cidade da Trofa, na zona de Santiago de Bougado e do Muro, e percorrerá a parte sul. Depois, fará a ligação ao troço já existente e que se encontra à saída da A3.

Alexandra Lopes e Ana Correia Costa/ In JN