atanagildoloboA freguesia de Guidões não é muito rica em património histórico – artístico. Já perdeu as duas capelas mais antigas que possuía – a do senhor dos Passos e a ermida de Santa Bárbara. Restam-lhe, no entanto, algumas coisas de antanho que, para além de constituírem a herança desta terra e deste povo, são também o testemunho da sua história.  
O monumento mais antigo data de 1623 e situa-se na frente do local onde estava implantada a capela de Santa Barbara, junto à rua de mesmo nome. Trata-se de uma coluna de granito, imitando o estilo jónico, que termina num capitel encimado por uma cruz de que pende a imagem de Cristo. Do topo sai um suporte de ferro onde antigamente se colocava um lampião para iluminar a imagem. Antigamente era de grande veneração pelos guidoenses que lhe chamavam «o Senhor do Padrão».

Foi mandada fazer pelo padre João da Maia, no inicio do século XVII, cura de Guidões. Em toda a zona envolvente onde se situa este monumento e a igreja paroquial existiam, ainda há bem pouco tempo, 7 magníficos cruzeiros, datados de 1735, com 273 anos de idade, quase 3 séculos. Trabalhados em granito, toscos, sobre uma base mais cuidada e com inscrições, são filhos dos canteiros e pedreiros da altura que com suor e à força do punho, cuidadosamente, esculpiram esses testemunhos. Na época foram oferecidos por benfeitores, quiçá alguns antepassados de famílias guidoenses de hoje. Os dois que rodeiam «o Senhor do Padrão» foram oferecidos por Manuel Tomé de Carvalho um e por Manuel João Azevedo o outro. O que se localiza, neste momento, na Rua do Souto de Santa Barbara foi oferecido por Manuel João Figueiredo. O primeiro da direita da Avenida dos Cruzeiros no sentido descendente, foi oferta do Alferes Filisiano da (Serra?) e o cruzeiro que se lhe segue e que tem a cruz ao contrário dos outros, pois já foi vandalizado e quem o curou alterou-lhe a disposição da cruz, foi oferecido por Manuel Carvalho da Cancela. Em todo eles nota-se o desleixo e falta de cuidado na forma como pretenderam avivar as suas inscrições (louva-se a iniciativa mas despreza-se a incúria), pois colocaram-lhes letras a mais e até inventaram algumas que não existem no alfabeto. No entanto faltam dois cruzeiros desse ano de 1735. Um deverá ser o que se encontra no recinto do prédio em construção sob o olhar do templo paroquial, encoberto por taipais, que deverá ter sido oferecido por Francisco da Costa. Desconhecemos o seu estado de conservação pois o dono da obra resolveu escondê-lo ou tapá-lo da vista do seu legítimo proprietário – o povo de Guidões. O outro encontra-se todo quebrado, meio destruído, envolvido entre outros restos de granito, ao deus dará, escancarado num logradouro rodeado de rede, mais acima, contíguo à rua Soares dos Reis. É aviltante o completo desmazelo e desinteresse a que foi votado. Na base apenas se consegue descortinar do cimo da rua a ultima frase: « os cant ». Significa que se trata de um cruzeiro que tem a seguinte legenda: «FES O P.E MEL. TOME DOS ÇANTOS». É, por conseguinte, o cruzeiro oferecido pelo pároco Manuel Tomé dos Santos, nascido em Guidões e que já exercia a função em 1731. Foi no seu tempo e sob a sua orientação, Guidões teria sensivelmente uma centena de habitantes, que foram levantadas estas cruzes de pedra para a devoção da Via-Sacra, em que a maior delas, esta de que falamos, quase destruída e decapitada, foi por ele dada e, mais tarde, em 1860, passou a cruzeiro paroquial.   
O clube do betão que aniquilou o que restava da simples mas bela ruralidade do coração de Guidões (ou alguém se atreve a dizer que a rusticidade do centro da terra não era harmoniosamente aprazível?), ao aplanar a terra, ao fundear os alicerces e ao erguer as estruturas dos novos colossos de betão, não teve qualquer cuidado com as antigas cruzes que se encontravam no local, nomeadamente com a mais importante – o cruzeiro paroquial do padre guidoense Manuel Tomé dos Santos, oferecido há 273 anos. Mas mais grave. Os poderes autárquicos, Junta de freguesia e Câmara Municipal, nada fizeram para impedir a barbaridade. Com certeza nem sequer têm um inventário com o que resta de alguma monumentalidade ou de interesse histórico em Guidões. E se o têm fazem dele tábua rasa pois, como se vê, procedem como se não tivessem. Questionada na última assembleia de freguesia, a junta de freguesia reconheceu o estado quase irreparável a que chegou o referido cruzeiro e mais alguns que o acompanham de menor importância. E entende como solução a sua substituição por cruzeiros novos, feitos agora, ao que se entendeu, a expensas de quem os destruiu. Solução de bradar aos céus. Que suscita mesmo o vociferar de exorcismos sobre energúmena conclusão. O antigo com valor histórico, mesmo algo deteriorado, nunca poderá ser trocado pelo novo. A solução do socorro e da tentativa de recuperação, restituindo ao povo de Guidões, à sua memória e à lembrança do padre Manuel dos Santos, o cruzeiro paroquial, não poderá ser descurada e será a única atitude aceitável. Este cruzeiro histórico tem de ser conservado e o credor dessa obrigação é toda a comunidade. Quem o estragou deveria ser responsabilizado, recaindo-lhe, não só o dever de o recuperar, mas a obrigação de indemnizar a freguesia. Sobre a junta de freguesia e câmara municipal recai a responsabilidade política, mas também moral. Foram péssimos gestores do património artístico e histórico desta freguesia e falharam na sua preservação. Se errarem na sua restauração, se calhar, desgraçadamente, ao povo, apenas lhe restará encomendar mais um requiem…   

Atanagildo Lobo