O leite faz bem e recomenda-se

O leite de vaca é um elemento habitual da dieta da maioria dos portugueses. Apesar de sempre ter sido considerado um alimento completo e nutritivo (de forma quase unânime), nos últimos tempos têm surgido muitos comentários negativos em relação ao leite, nomeadamente em formato de documentários e principalmente nas redes sociais. Provavelmente, à custa deste fenómeno, o consumo de leite tem vindo a descer há vários anos em Portugal, tendo sido consumidos, em 2017, menos um milhão de litros por mês do que no ano anterior. Mas como vamos ver, não há fundamento científico para esta nova “moda anti-leite”.

É importante começar por dizer que algumas pessoas podem beneficiar em evitar o leite e seus derivados. A principal razão é a intolerância à lactose, em que há uma dificuldade na digestão de lacticínios. Nestes casos surgem sintomas com a toma destes produtos, como dor abdominal, inchaço ou diarreia. Este diagnóstico deve ser confirmado com o seu médico e não implica obrigatoriamente abdicar destes alimentos – poderá ser suficiente reduzir a quantidade, desde que tolere os sintomas. Podem existir também casos, mais raros, de alergia às proteínas do leite.

Excluindo estas situações, poucas razões existem, em termos de saúde, que justifiquem evitar o leite.

Ao contrário de algumas afirmações propagadas recentemente, o consumo de leite (e derivados) não tem um efeito negativo no aumento do risco de cancro: parece ter um efeito ligeiro no aumento de risco de cancro da próstata, no entanto parece proteger em relação ao cancro do intestino, cancro da mama, cancro da bexiga e cancro do estômago. Podemos concluir que, neste campo, os benefícios superam as desvantagens.
Várias preocupações têm também surgido em relação à questão da obesidade: mais uma vez o leite parece ter um efeito positivo, principalmente em crianças – aquelas que consomem leite têm menor risco de ser obesas, sendo uma boa alternativa ao consumo de sumos e refrigerantes.
O medo das doenças cardiovasculares (diabetes, hipertensão, enfartes do miocárdio, AVC, etc…) também tem alimentado estas críticas, no entanto, mais uma vez, sem fundamento: o consumo destes produtos parece proteger as pessoas de todos estes problemas. A dieta mediterrânica, que inclui o consumo moderado de leite e de produtos lácteos, está associada a uma melhoria marcada do risco cardiovascular.

A eliminação total de grupos de alimentos da dieta pode fazer falta ao desenvolvimento das crianças e jovens ou à manutenção da qualidade de vida nos adultos. Por este motivo, qualquer decisão deste tipo deve ser bem ponderada, considerando riscos e benefícios.
Tendo em conta a grande oferta alimentar que temos atualmente, não podemos dizer que o leite seja imprescindível ou insubstituível, uma vez que se poderão encontrar alternativas com alguma facilidade. É compreensível que possa optar por excluir estes alimentos, por exemplo, por motivos éticos relacionados com a exploração animal. Mas não o deve fazer com base em informações cientificamente erradas que, infelizmente, têm vindo a ser amplamente divulgadas.

Se tiver alguma dúvida ou sugestões para outros temas a abordar nesta rubrica, pode entrar em contacto para o email doutorpedrocouto@gmail.com.