Escrevo este artigo a 21 de Março. Entre esta data e a da sua publicação, podem ocorrer factos capazes de alterar o contexto que serviu de base ao conteúdo deste artigo.

Nos últimos dias temos assistido a uma escalada crescente com a provável consequência de crise política.

À crise financeira e económica, junta-se a crise política.

A crise anunciada deve-se à má fé, erro político ou às circunstâncias que rodearam o Governo?

Bem, para se poder adjectivar a actuação do Governo dos últimos meses é necessário ter algum conhecimento de causa. Seria necessário saber se o que corre nos meandros da política é verdade ou simples intriga.

De forma continuada e insistente, tem-se ouvido dizer que o acordo com a Europa está feito há muito tempo. As medidas de austeridade estão definidas e o apoio financeiro está alinhavado. Este suposto acordo seria anunciado a uma qualquer segunda-feira do primeiro quadrimestre.

Ora, também se tem “soprado” que o Eng. Sócrates ficou de anunciar ao país esse mesmo acordo.

No mesmo corredor, o do poder, também se apregoa que o Eng. Sócrates não o fez por uma simples razão – Esperar que a Espanha tivesse a mesma necessidade para poder dizer ao país que os apoios de emergência da Europa foram uma necessidade absoluta motivada pelo afundamento do nosso vizinho.

Entretanto, os mercados começaram a distinguir a situação de Portugal e Espanha.

A Espanha descolou do nível de desconfiança que os mercados têm sobre Portugal, deixando-nos para trás e aumentando a pressão da Sra. Merkel para o Governo cumprir o acordado.

Talvez, por isso, o Eng. Sócrates tenha sido chamado à Alemanha. Talvez tenha sido chamado à atenção por estar a protelar o anúncio de um acordo que tardava em cumprir.

Se esta versão for a correcta, o Eng. Sócrates levou ao limite a sua verdade sobre as contas públicas do país e a necessidade de apoio externo.

Se esta versão for a correcta, o Eng. Sócrates não teve tempo para se desdizer no espaço tão curto de tempo o que andou a apregoar nos últimos meses.

Se esta versão for a correcta, o Eng. Sócrates não actuou com má fé ao anunciar algumas das últimas medidas constantes do “tal acordo”.

Como alguém diz, se não teve má fé no anúncio de mais medidas de austeridade, faltou à verdade ao país durante todo este tempo.

 Erro político?

Não creio.

Não podendo desdizer-se, alguns membros do Governo tiveram uma ideia “brilhante” – Empurrar o ónus da ajuda externa para o maior partido da oposição.

Isto é, anunciar estas medidas como um facto consumado. Como uma necessidade de confortar os mercados com mais argumentos que transmitissem confiança.

A resposta da oposição faria o resto, segundo essas “mentes brilhantes”, e as eleições seriam inevitáveis.

Para o Governo, a futura ajuda externa será da culpa da oposição.

O Eng. Sócrates é um exímio jogador político.

Por isso acredito que não foi erro político.

Na minha modesta opinião, e na inevitabilidade da ajuda externa que pioraria a situação do actual Governo perante a sociedade, foram as circunstâncias e o cálculo político de uma jogada arriscada, na tentativa de manter o poder (ou, pelo menos, algum poder) em futuras eleições.

 

Tiago Vasconcelos