Palavra de ordem dos Guidoenses na manifestação da ANAFRE de 31 de março de 2012.

O primeiro e desmedido defeito, praticamente inultrapassável, da dita reforma da administração local é ela não obedecer às normas democráticas. É decretada ditatorialmente, não respeitando as populações, os cidadãos, os autarcas, as forças políticas, as associações, as colectividades, a história, a cultura, a identidade… Qualquer reforma deste tipo terá de passar necessariamente pela vontade consciente das populações, em primeiro lugar, e dos seus representantes de freguesia, em segundo lugar. A não ser assim, será sempre fruto de uma ditadura a que não se deve obediência por ser ilegítima, autocrática e despótica. Por conseguinte, não foi de estranhar que no passado dia 31 de março o país tivesse assistido à enorme manifestação das freguesias e suas populações, que agrupou mais de duzentos mil participantes contra a extinção das freguesias, promovida pela ANAFRE (Associação Nacional de Freguesias).

A Comissão de Luta contra a extinção da freguesia de Guidões, com um labor abnegado, perseverante e dedicado, integrou-se neste desfile acompanhada de cinquenta Guidoenses que, efusiva, alegre e calorosamente, bradaram palavras de ordem contra a malfeitoria e a favor de Guidões. Frases como «É Guidões, é Guidões – é a nossa freguesia», «Relvas não, Guidões, sim» e «Viva Guidões» ecoaram pela Avenida da Liberdade abaixo, do Marquês do Pombal ao Rossio, espalhando a palavra e a vontade da população de Guidões, reflectidas no abaixo-assinado de novecentas e trinta e cinco assinaturas. Também a faixa de protesto e a bandeira de Guidões transportadas identificavam esta terra única.

Foi também um orgulho para os Guidoenses terem contado com mais um manifestante durante todo o percurso: o deputado na Assembleia da República, Agostinho Lopes. Eleito pelo círculo eleitoral de Braga, tendo passado partes significativas da sua vida em Trás-os-Montes, Lisboa e Braga, Agostinho Lopes nasceu e foi criado em Guidões. Tem aqui família e amigos e sente-se visceralmente ligado a esta terra. Por isso podemos dizer não ter sido por mera simpatia ou simples solidariedade que disse «presente». Foi por sentir esta luta como sua, foi por amar a sua terra. O mesmo se diga dos bravos participantes. Nos que deixaram tudo quanto tinham a fazer nesse dia e foram a Lisboa lutar contra a extinção das freguesias, defendendo Guidões. Todos os que se ajuntaram a essa manifestação revelaram um grande amor a Guidões e uma consciência cívica notável.

A Comissão de Luta teve pouco mais de uma semana para levar este empreendimento a bom porto. Muitos Guidoenses trabalhavam, outros tinham distintos compromissos, outros ainda, possuíam medo da polícia “carregar” (efeitos desta “democracia” musculada), e outros, provavelmente, nem chegaram a saber. A Comissão de Luta cogitou sempre que a Junta de Freguesia assumiria o comando das operações na divulgação, recrutamento e comando da luta, tal como aconteceu com a generalidade das autarquias presentes na manifestação. Foi um prazer ver as representações de freguesias e seus autarcas como S. Pedro da Cova, Leça da Palmeira, Guifões, S. Salvador do Campo, Fornelo ou Vila Chã, etc, etc…Mas isso não aconteceu. Infelizmente, a Junta de Freguesia de Guidões encolheu-se e imobilizou-se, parecendo dizer «não é nada comigo…». Esperemos que mude de atitude. Que dê a cara contra a extinção da freguesia. Que defenda de forma consequente a vontade e o sentir da população de Guidões, bem expressa no abaixo-assinado contra a extinção da freguesia e nas palavras de ordem «Viva Guidões» e «Guidões Sempre». Terá todo o apoio dos Guidoenses. Pois é disso que Guidões precisa: o povo unido na defesa dessa” bandeira” e uma junta de freguesia determinada e inabalável nessa guarda e no comando das operações. Aqui, não deixarei de louvar dentro da comissão de luta, o empenho titânico do A. Lima Pereira e do Acácio Maia, a determinação e coerência do Duarte e a ajuda preciosa do Adão, cidadãos de Guidões e lutadores incansáveis por Guidões.

Guidões ficará sempre na periferia de qualquer agregação de freguesias. Terá sempre a perder e os Guidoenses ficarão sempre mais pobres e serão sempre sacrificados. Os Guidoenses estão conscientes dessa matéria. A única forma de isso não acontecer é Guidões manter-se como freguesia. A luta contra a sua extinção é decisiva para que continue a existir dignidade, democracia e condições de vida salutar para os Guidoenses. Uma Junta e uma Assembleia de Freguesia fortes, unidas, inquebrantáveis, consequentes nesse desígnio, é uma exigência da história e da contemporaneidade, mas também do futuro de Guidões e dos Guidoenses. «É Guidões, é Guidões – é Guidões a nossa freguesia.».

Guidões, 2 de abril de 2012.

Atanagildo Lobo

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