Estas linhas são dirigidas a ti, trabalhador, meu irmão de classe, sejas tu um simples operário de uma qualquer linha de produção, trabalhador agrícola, administrativo, funcionário público, ou mero prestador de serviços, embora falso pois, de facto, exerces as tuas funções sob a autoridade e fiscalização de uma qualquer entidade. Questiono-te… para te dizer da minha dificuldade em entender-te. Tu não concluis que tudo o que existe, és tu que inventas, manufaturas, produzes, cozinhas, modelas e concretizas? Não és tu que das entranhas da terra, extrais o que há para extrair? O cobre, o ferro, a prata, o urânio, a pedra, o carvão, o petróleo? Não és tu que magicamente transformas estes elementos? Não é da tua criatividade, conhecimento e faina que sai a gasolina, o gasóleo, o gás? Não é no forno siderúrgico que, num esforço titânico, temperas o aço? Não é da tua amálgama com a máquina que nasce o vestuário, o calçado, as mobílias, cabos e cablagens, os aparelhos de rádio, televisão, frigoríficos e máquinas de toda a espécie que, em trabalho suado e concentrado, vais dando forma na linha de montagem, repetindo gestos até à exaustão? Da mesma tua dedicação não nascem os carros, motos, bicicletas, barcos, navios e aviões? E não és tu que trasladas todos estes produtos, depois os vendes e também os compras? Quem procede aos registos? Dos que nasceram e morreram? Dos que são atendidos num hospital, numa escola ou numa repartição? Serás tu que cuidas dos doentes? Lhes ministras os medicamentos e as injeções? Que lavas os doentes, quando eles nem se podem mexer? Quem revolve a terra, lavra, fresa e lança-lhe o sulco? Quem semeia, planta, aduba, sulfata, poda e colhe o fruto dessa fecundação da natureza? O milho, o trigo, o centeio, a cevada, a batata, a cenoura e a cebola, vêm de onde? Não é do teu suor, da tua dedicação, do teu esforço, da tua concentração, que sai tudo? No fundo, tudo o que há em tua volta, as estradas, os edifícios, o caminho de ferro, o metro, todos os meios de transporte, o que vendes e compras nos mercados, super-mercados e hiper-mercados, todos os equipamentos, as escolas, os hospitais, os ministérios, os monumentos, os teatros, as barragens, os aeroportos, tudo…mas mesmo tudo…exceto o que é fornecido diretamente pela natureza, não será o produto do teu trabalho? O resultado do teu desempenho, trabalhador?

E o que ganhas tu com isso…? Vamos, diz lá? Porque tens direito a tão pouco? E mesmo assim, porque é que ainda tens de sofrer um corte enorme no teu subsídio de Natal? Porque vais pagar mais 15% pelo transporte que utilizas? Porque irás sofrer aumentos colossais na eletricidade que gastas? Nos juros que pagas? Porque é que vais ter de pagar mais por tudo o que consomes? Porque é que tu, trabalhador honrado, te zangas quando não recebes o trabalho das horas extraordinárias que realizas? Não vês que os poderosos apoiam e apoiaram os partidos do poder? Tens tu os mesmos interesses dos poderosos? Como aceitas este plano da Troika e do Governo? Não vês que vai aumentar o desemprego? Reduzir o tempo e o valor do subsídio de desemprego? Aumentar o preço das taxas moderadoras e dos medicamentos? Que nos arrastam paulatinamente para o desaparecimento do serviço nacional de saúde? Não vês que tudo o que tens de direitos, segurança no emprego, férias, subsídios de férias e Natal, estás a perder? Conformas-te com a ideia de os 30 dias de indemnização por cada mês de trabalho que tens direito se fores despedido, passem para apenas 10 dias? E assim, abres o caminho para que amanhã deixe de haver qualquer indemnização?

E, simultaneamente, porque que é que os bancos têm lucros avultados? Porque não pagam impostos mais altos? Porque é que os ganhos na Bolsa não são taxados? Porque é que as grandes empresas, aquelas que têm lucros gigantescos, não pagam mais impostos, ou impostos mais elevados? Porque vão estas empresas descontar menos de taxa social única para a Segurança Social? Não vês que a Segurança Social, a tua segurança social, assim fica mais débil, mais fraca?Tu não vês que tudo o que conseguiste foi por força da luta? Do avanço do ideal e das bandeiras da esquerda, sobretudo do PCP? Que custou o suor, sangue e lágrimas dos teus irmãos e antepassados? Afinal não tinha o PCP razão? Era ou não possível reestruturar a dívida? Prazos mais alargados e juros mais baixos?Se adormeceres, capitulas, e inexoravelmente, morrerás como trabalhador digno e dignificado, produtor, obreiro, alicerce do bem-estar social, garante do pão, não para um, mas para todos os homens. Farão de ti apenas um número, um ser formatado, obediente, pronto e a servir apenas os proveitos dos poderosos.

Os senhores do dinheiro e da especulação e seus servidores vendem-te a ideia de que, como dizia B. Brecht, «…é difícil governar. Sem os ministros o trigo cresceria para baixo em vez de crescer para cima». Mas como tão bem questionava Brecht « ou será que governar só é assim tão difícil porque a exploração e a mentira são coisas que custam a aprender?».

 

Guidões, 25 de Julho de 2011.

Atanagildo Lobo

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