A Índia e o Paquistão, que disputam o território da Caxemira, já se envolveram em três guerras (1947, 1965 e 1999), que originaram muitos milhares de mortos, para além de a Índia e a China já se terem enfrentado uma vez, em 1962, também pelo controlo de uma parte do território da Caxemira. A intolerância religiosa de hindus e muçulmanos, que existe há muitos anos, desde antes da independência do território da Coroa Britânica, em 1947, tem sido a causa maior, a essência da violência na região.
Com a autonomia política da Índia (um estado laico de maioria hindu) e do Paquistão (estado muçulmano), as rivalidades religiosas passaram a materializar-se na disputa pelo controlo da Caxemira, que está situada a norte dos dois países, numa região montanhosa de maioria muçulmana, com 200.000 quilómetros quadrados e com mais de 7 milhões de habitantes, dois terços de muçulmanos. Uma parte significativa da Caxemira ainda permanece sob administração da Índia e um terço pelo Paquistão, que entregou à China uma pequena parcela deste território.
Este conflito, tem servido de justificação a estes dois países, para militarizarem as suas fronteiras e dedicarem imensos recursos financeiros ao desenvolvimento de tecnologias bélicas. Só a partir de 1998 é que a comunidade internacional acompanhou com maior atenção este conflito, quando os dois países construíram as suas próprias bombas atómicas.
Em 2001, a ONU patrocinou um encontro diplomático entre representantes indianos e paquistaneses e também uma desmilitarização da Caxemira, em 2004. Em 2006, após 30 anos de boicote, o governo dos Estados Unidos da América reconheceu a Índia como potência nuclear e ratificou um acordo de cooperação nuclear para uso civil. Em relação ao Paquistão, o governo americano reforçou políticas militares para diminuir as influências talibãs, vindas do vizinho Afeganistão.
Em 2014, a Academia sueca, que distingue personalidades com o Prémio Nobel da Paz desde 1901, anunciou há poucos dias os distinguidos deste ano. Por coincidência, ou não, os laureados são um indiano, de seu nome Kailash Satyarthi e uma jovem paquistanesa, de seu nome Malala Yousafzay. Este prémio é o primeiro Nobel a ser atribuído a uma cidadã paquistanesa e o oitavo para um cidadão indiano. O comité sueco anunciou que os prémios deste ano foram atribuídos pela «luta contra a repressão de crianças e jovens e pelo direito de todas as crianças à educação».
A jovem paquistanesa Malala tem 17 anos e é mundialmente conhecida pela coragem na luta contra a força repressora talibã no Paquistão, tendo sido atingida, em 2012, com duas balas, uma no pescoço e outra na cabeça, quando ia para a escola, numa carrinha juntamente com outros colegas e por ter alertado o mundo para o direito à educação, em particular das raparigas.
O ativista indiano pelos direitos das crianças, Kailash Satyarthi, tem 60 anos e começou, nos anos 80, a sua luta contra o trabalho e exploração infantil e pelo direito de todas as crianças à educação, tendo libertado mais de 80 mil crianças indianas vítimas de exploração laboral e sexual, ao mesmo tempo que tem desenvolvido programas de reintegração, reabilitação e educação.
Ao galardoar Malala Yousafzay e Kailash Satyarthi, com o Prémio Nobel da Paz, a Academia Sueca fez uma dupla aposta, destacando não só os direitos das crianças, mas distinguindo também dois representantes de países habitualmente divergentes e conflituantes, a Índia e o Paquistão. Deseja-se que o Prémio Nobel da Paz deste ano frutifique e leve a paz a uma região tão martirizada pelas guerras.
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