Terminaram no domingo os cortejos na freguesia de Guidões. Ao longo de cinco semanas, os guidoenses deram o seu melhor para angariar fundos para as obras de restauro da Igreja Paroquial.

O padre José Ramos explicou quais são as maiores necessidades daquele edifício religioso.

A Igreja Paroquial de Guidões foi construída em 1879 e o primeiro restauro aconteceu em 1987. Passados mais de 20 anos, as obras são uma “necessidade”, como explicou o pároco, que definiu a instalação de um novo sistema eléctrico como “grande prioridade”. “A instalação eléctrica terá de ser toda substituída, porque a que aqui existe é de 1957 ou 1958, altura em que chegou cá (Guidões) a luz eléctrica”, explicou. Os tubos e os fios eléctricos “são fininhos” e “nunca foi feita qualquer substituição”. Agora, para resolver o problema, é preciso “fazer rasgos em todas as paredes, colocar novos tubos, novos fios e novo quadro eléctrico para renovar a instalação”. A situação actual é mesmo “difícil”, uma vez que a instalação eléctrica não tem capacidade para aguentar com um aquecedor ligado: “Comprámos dois aquecedores para as salas de reunião, que não podemos usar porque o quadro não aguenta”.

Esta é uma obra em que a Igreja “vai gastar imenso dinheiro”, mas não será a primeira a ser realizada. O Padre José Ramos pretende que, até ao começo do Outono, o exterior da igreja ganhe nova vida, até porque está “horrível” e “as pedras estão enegrecidas e cobertas de lixo”. O dinheiro angariado com os cortejos será utilizado para as obras no exterior da Igreja, que incluem a limpeza das pedras e a aplicação de produtos próprios para que não voltem a ficar enegrecidas, bem como uma pintura de todo o edifício. Tudo isto “tem de ficar a brilhar antes do Outono”, frisou o pároco, que está em Guidões há cerca de dois anos.

 

A par destas obras, também o interior da Igreja requer alguns cuidados, como é o caso do tecto, que também precisa de uma intervenção. Contudo, a maior obra ainda não tem data para a concretização: o restauro do altar-mor.

O altar existente foi construído em 1885 e o pároco acredita que “não houve muito cuidado ao longo dos anos”. “Fiquei assustado com o estado do altar na primeira vez que vi a parte de trás, porque aquilo está tudo podre, está tudo a esfarelar”, confessou. Para preservar o altar, os membros da Fábrica da Igreja de Guidões têm colocado estuque nos buracos que aparecem, mas, tal como o NT/TrofaTv confirmou, “há sítios em que se coloca o dedo e este fica enterrado, porque aquilo está tudo em pó”.

Para restaurar o altar-mor, será necessário “muitíssimo dinheiro” e antes de tomar uma decisão, o padre quer ouvir a opinião de um perito sobre a melhor solução, que pode passar por reparar o altar existente ou aproveitar partes e criar o resto de novo.

Sobre os cortejos que terminaram com o lugar do Outeiro, no último domingo, o padre José Ramos afirmou que ficou “boquiaberto” e que nunca pensou que “o povo correspondesse como correspondeu”. Estes receios ficaram a dever-se ao facto de, nas últimas duas décadas, “o povo de Guidões ter perdido a noção de comunidade”. O pároco fez questão de sublinhar que os seus receios “nada tinham a ver com o facto de pensar que o povo era pouco generoso”, apenas teve medo da inexistência de uma noção de comunidade, que acredita já estar superada. Esta foi, de resto, a maior dificuldade que este padre encontrou quando assumiu a paróquia de Guidões.

 

Residência paroquial transformada em centro pastoral

 

Uma das primeiras decisões que o padre José Ramos tomou quando assumiu a paróquia de Guidões foi transformar a residência paroquial que existia próxima da Igreja e que não era usada há vários anos, num centro pastoral, com condições para as perto de duas centenas de crianças que frequentam a catequese em Guidões.

A casa de habitação, composta por dois pisos, deu assim lugar a oito salas, que são, sobretudo, usadas para catequese, mas que albergam, semanalmente, aulas de música e estão disponíveis para os diversos movimentos religiosos e civis de Guidões. Do edifício original apenas se mantiveram as paredes exteriores e o telhado, que tinha sido recuperado há pouco tempo. De resto, todas as divisões foram construídas de novo e uma delas está mesmo preparada para ser transformada em cozinha, se for necessário. Nas obras, já realizadas, foram gastos mais de 50 mil euros.

Apesar do edifício já estar concluído, é intensão da Comissão de Fábrica construir, no espaço exterior, “um pequeno salão”, “com capacidade para acolher convívios e, por exemplo, as festas da catequese”.

 

Igreja alberga peças centenárias

 

Com a chegada do padre José Ramos à paróquia de Guidões, muitos artigos religiosos foram encontrados espalhados um pouco por toda a parte.

São já dezenas as peças restauradas e expostas nas salas existentes na Igreja Paroquial de Guidões, engrossando, desta forma, o património religioso daquela freguesia.

Algumas peças têm já séculos de existência e estavam votadas ao abandono no sótão ou na antiga residência paroquial. O padre José Ramos mostrou ao NT/TrofaTv algumas das peças mais antigas e mais importantes, como um castiçal em bronze que deve datar do século XVII. O castiçal foi encontrado “no meio do entulho na residência paroquial”, explicou o pároco, que confessou nunca ter pensado “encontrar peças tão valiosas em Guidões”. No entanto, o “mau estado” dos objectos não surpreendeu o padre, porque “já” está “cá (na vizinha paróquia de Alvarelhos) há vários anos”.

A par dos objectos religiosos, foram também preservadas várias peças de vestuário religioso, bandeiras e cortinas, que fazem parte da história da própria paróquia. “As pessoas que vêm e vêem ficam muito satisfeitas, porque são peças que fazem parte da história e que se julgavam perdidas”, garantiu o pároco, dando como exemplo a “bandeira da JAC” (Juventude de Acção Católica). Esta bandeira da JAC “apareceu no fundo de um gavetão toda traçada”. “As pessoas mais velhas que fizeram parte da JAC olham para aquela bandeira e sentem uma grande emoção, porque quando eram jovens era este o estandarte que ia na frente deles nas manifestações de fé”, explicou.

Outra peça que merece destaque é o sino que está exposto na Igreja e que pertenceu à Capela de Santa Bárbara. O sino é de 1813, está estalado “e não há nada a fazer” para que volte a funcionar. O padre tem a certeza de que o sino é da Capela que foi demolida no início do século XX, porque tem esculpida a imagem da santa. “Era habitual o sino principal de uma igreja ou capela ter esculpida a imagem do santo padroeiro da igreja ou da paróquia”. Juntamente com um altar barroco, que “quando houver possibilidades será restaurado”, este sino é tudo o que resta da Capela de Santa Bárbara.

Embora ainda seja “cedo” para falar num museu, o padre José Ramos asseverou que se houver peças em número suficiente, as salas que acolhem actualmente as peças podem ser “transformadas num espaço museológico”, com as devidas condições de preservação e segurança.

As salas que albergam as relíquias estão abertas a todos os que queiram ver as peças, no horário dos cultos. “É frequente ver as pessoas a passar por estas salas para apreciarem as peças” explicou o padre. “Isto é da comunidade e quando as pessoas quiserem visitar, podem fazê-lo”.