Como o Natal não é apenas para as crianças, na Muro de Abrigo, os idosos já decoraram o espaço e elaboraram lembranças para venda. Na tarde de sexta-feira, fizeram uma pausa no processo criativo e lembraram o Natal de antigamente.

Sabonetes com decorações de Natal, postais, suportes para velas e caixas decorativas são alguns dos objectos que se encontram mesmo à entrada da Muro de Abrigo. São trabalhos manuais realizados pelos utentes e que estão à venda para ajudar a instituição.

Também à entrada, no painel e na árvore de Natal, surgem os desenhos pintados pelas mãos destes artistas, dos quais muitos deles nunca tinham pegado num lápis de cor. Agora, na Muro de Abrigo, mostram-se dispostos a colorir os trabalhos e também as suas vidas.

“A venda destes objectos reverte a favor da instituição, porque nós precisamos muito do apoio de todos. O valor pode ser insignificante, mas grão a grão enche a galinha o papo”, comentava Fátima Silva, responsável pela instituição. Entusiasmada, vai mostrando os trabalhos realizados e explicando a técnica do guardanapo, aplicada pela primeira vez pelos utentes em sabonetes cheirosos.

Não menos orgulhosos estão também os utentes, principalmente as mulheres, mais dadas a estas artes. Maria Costa, de 75 anos, confessou-se mais apreciadora de um jogo de cartas ou de uma boa cantoria, mas também já tinha contribuído para a decoração do espaço: “Acabei agora de pintar um anjinho que está no pinheiro”.

Quanto a Almerinda Silva, de 82 anos, a esperança de poder vender todos os materiais elaborados mantinha-se. “Acho que se devia vender tudo”, afirmou, sem se esquecer de explicar o porquê: “Era preciso que as pessoas ajudassem, porque estamos tão bem aqui. Nós pagamos uma cota para estar cá e não chega para quase nada”.

Todas estas lembranças de Natal podem ser encontradas na associação Muro de Abrigo, na freguesia do Muro, ou em S. Mamede do Coronado, na Feira de Natal nos dias 17, 18 e 19 de Dezembro, na antiga fábrica José Ferreira Thedim, na Rua do Covêlo.

O grupo da Muro de Abrigo foi também convidado para participar nos cânticos de Natal um pouco por todo o concelho.

 

O Natal de antigamente

Conversa vai, conversa vem, todas começaram a recordar o “Natal de antigamente”. Maria Silva foi a primeira a garantir: “Agora, as pessoas iludem-se mais com os presentes”. “Anda toda a gente atrapalhada e nunca dão uma palavra amiga”, acrescentou, considerando que apenas há alguns anos a época era celebrada de uma forma “mais simples, mas mais verdadeira”. Na juventude recorda-se de trabalhar a cortar erva para os lavradores e eram eles que lhes davam a chamada “consoada”: “Trazíamos umas batatinhas, cebolas, hortaliça e um bocadinho de vinho para o dia de Natal. Havia bacalhau melhor do que o de agora, o problema é que nós não tínhamos dinheiro para o comprar”. O mesmo se passava com os presentes e apenas aos mais pequenos eram dados “bombons de chocolate”.

Deolinda Martins, com 83 anos, recordava os sabores de Natal. “Antigamente, regueifa e frango eram só pelo Natal e na Páscoa” e na véspera comia-se o bacalhau com as batatas. Recorda também as “migas doces” confeccionadas com “água numa panela de ferro e um bocadinho de ‘pingue’ (gordura do porco), açúcar e canela”, a aletria ou as rabanadas. Hoje, deixa os cozinhados para as filhas. Quanto aos presentes, não há memória: “Em solteira não me lembro de ter presentes”. Com quatro filhos, netos e bisnetos Deolinda frisa que agora “no Natal não falta nada”.