Há momentos na vida das comunidades que, por este ou aquele motivo, se tornam marcantes. A Trofa viveu um desses momentos: o povo uniu-se, contra a vontade de um presidente de Câmara que negociou com uma empresa privada, durante pelo menos dois anos, sem que fosse do conhecimento público, a instalação de um aterro sanitário no concelho.

Segundo a visão de Sérgio Humberto, só existem vantagens na infraestrutura, tendo o próprio afirmado, publicamente, a importância do dinheiro, acima de tantas e tantas outras coisas, como: o ambiente, a saúde e o bem-estar das populações. Mantendo uma anormal coerência, nunca alterou o conteúdo desastroso da sua opinião inicial, a mesma que serviu de mote às negociações e que fez questão de transmitir pessoalmente aos covelenses, sendo apenas travado quando a “coisa” começou a apertar com um descontentamento generalizado das populações, tendo o seu instinto de sobrevivência política obrigado a um bélico recuo.

Felizmente, o tempo que o presidente dedicou às negociações foi tempo perdido, já que a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte (CCDR-N) considerou que a localização prevista para a instalação do aterro não reúne as condições necessárias para a sua aprovação, em matéria de ordenamento do território, pois a área em causa está, PARCIALMENTE, integrada na Reserva Ecológica Nacional, o que, no momento, constitui um entrave e uma enorme sorte para todos!

Satisfação à parte, não posso deixar de refletir sobre o legado que todo este processo deixou na comunidade trofense, desde logo pela forma como a entidade que criou todo este problema – o executivo municipal – procurou tratá-lo apenas na esfera política, introduzindo uma narrativa clássica de que “estão todos a fazer política”, não olhando a meios, a palavras e atos para denegrir todos os que ousaram pensar diferente.

O primeiro alvo foi mesmo o jornal “O Notícias da Trofa”, que noticiou a intenção, depois de ter investigado e obtido fontes credíveis para cumprir a sua função – informar. Não fosse a sua ação, em tempo útil, estaria o processo a avançar como uma doença que alastra até não ter cura.

O segundo alvo da retórica do regime foram os covelenses que, sem dúvida, tiveram motivos (e ainda têm) para perder o sono. Nem o seu presidente de junta, eleito nas listas do partido, sabia de nada! Uns foram apelidados de interesseiros que só queriam chegar ao poder, enquanto outros de maus negociadores, porque não estavam a pensar em contrapartidas. Desta forma, considerados todos uns ingratos!

O terceiro alvo, um “mártir” entre os covelenses: o Padre Ramos – que experimentou a ira de quem se opõe ao regime, ignorando a relevância, carisma e imagem que o mesmo possui junto da sua comunidade – tudo serviu para o desacreditar!

O quarto alvo a oposição liderada pelo PS, mas também representada pelo Bloco de Esquerda e pelo PCP, porque fizeram o que lhes competia – opuseram-se. Mesmo assim, foram tratados como oportunistas e aproveitadores.

Por fim, o quinto alvo, os independentes que se manifestaram contra as pretensões cegas de um executivo, que ignorou a importância das temáticas ambientais e o legado que as más opções podem acarretar para o futuro, mas que, por não terem uma filiação política, foram sendo acusados de meros calculistas.

Contudo, para aqueles que julgam que não sou capaz de reconhecer que há algo de positivo em todo este processo criado por Sérgio Humberto, desenganem-se. As suas intenções, contradições e artimanhas foram capazes de espicaçar até ao limite as forças vivas da nossa terra, que lutaram bravamente, demonstrando que na Trofa há vida e, onde há vida, haverá sempre esperança…