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Mesmo com a promulgação da Lei da reforma administrativa, o povo de Guidões não desiste da luta pela não agregação da freguesia. No sábado à noite, condenou o entrudo chamado Relvas à fogueira.

 Numa noite fria, quis o destino que o entrudo tivesse um julgamento ardente, em Guidões. A sentença daquele a que chamaram Relvas, proferida em verso, não podia ter sido mais severa: “O Relvas é o velho,/ o Entrudo sem serventia./ Queremos gente nova e boa/ de outra estirpe e valentia./ O Relvas quis matar a freguesia/ porque é mau, o malandrão,/ mas bateu nesta muralha de guidoenses que resistirão./ Face a este grande malefício/ Prender apenas não bastará./ Assim irá para a fogueira,/ Onde lentamente arderá”.

O povo não perdoou o réu por todos os malefícios cometidos como a reforma administrativa e por isso o desfecho desejado foi manifestado em plenos pulmões, inspirado em Almada Negreiros: “Morra o Relvas, morra. Pim”.

O acusado bem tentou convencer o tribunal do povo, também em verso: “Já tenho licenciatura/ Agora sou um doutor/ Tenho montes de cultura, já sou ministro/ E o um homem de grande valor./ Da RTP me quero abarbatar/ As freguesias pretendo afanar/ Da TAP desejo abotoar/ A água quero gamar/ Aos portugueses aldrabar/ Para deles todos me alapardar/ Embora digam que não/ Sou inocente, pois então/ À fogueira não devo ir parar”.

Mas os argumentos não convenceram e a fogueira foi mesmo o destino do entrudo chamado Relvas. Tradição interrompida por largos anos, a queima do galheiro foi recuperada em Guidões e sustentada pela luta do povo contra a extinção da freguesia.

De uma forma “simbólica”, o entrudo ganhou como nome o apelido do ministro Miguel Relvas, autor da “brilhante ideia da reforma administrativa”, explicou Atanagildo Lobo, membro da Comissão de Luta contra a extinção da freguesia de Guidões. Ao entrudo o povo quis queimar “para ver se lhe tirava todas características malévolas que ele tem e a ver se de alguma forma expurgar todo o mal que ele tem feito”. “O Relvas também simboliza o poder deste Governo que tem feito tão mal não só às freguesias como a todo o povo português. É o responsável pela situação que estamos a viver e pelo agravamento cada vez mais substancial das condições de vida dos mais carenciados”, frisou.

Como se de uma verdadeira festa se tratasse, na qual não faltaram as farturas e a queimada galega, a queima do galheiro foi um pretexto para mostrar que nem a promulgação da lei da reforma administrativa, na qual consta a agregação de Guidões a Alvarelhos, calará o povo. Atanagildo Lobo afirma que “até ao lavar dos cestos é vindima”, por isso “embora a sua excelência o senhor presidente da República a tenha promulgado, falta a concretização da lei na prática, ou seja, implantá-la”. “Esta queima do entrudo vem no sentido de continuar a alertar à consciência dos guidoenses que ainda não está tudo perdido. Ainda acreditamos que este Governo possa cair, que o Relvas se possa demitir, que alguém se possa enganar, que quando vierem cá não arranjem ninguém para conseguir pôr a lei a funcionar, pois pode haver resistências por parte do poder autárquico, que tem a sua legitimidade no povo e no voto popular”, acrescentou.

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Junta de Freguesia e ex-deputado apoiam população

Quem também acha que a luta não é em vão é Agostinho Lopes, guidoense e ex-deputado comunista na Assembleia da República. O histórico do PCP relembrou a revolução liberal e a reforma administrativa de Mouzinho da Silveira, que “extinguiu vários concelhos por todo o país e passados 250 anos, bastou a liberdade do 25 de Abril para que esses concelhos tornassem a aparecer, como o caso de Vizela”. “Não tenho qualquer dúvida que esta é uma tentativa de mudança política que podem aprovar o que quiserem que a vontade do povo vai ser mais forte e vai acabar por vencer”, sublinhou.

A Junta de Freguesia de Guidões, representada por Manuel Araújo, “vice” de Bernardino Maia – que não esteve presente por estar a recuperar de uma cirurgia – também está do lado do estado de espírito da população. “Os cenários que nos apresentaram são desoladores, contra a nossa vontade, contra os nossos antepassados. Alguém que, por seu livre apetite, esquece toda a ternura que as pessoas têm pelo seu território, merece a revolta daqueles que perdem a sua estrutura. Não merecem aquilo que temos para dar quando precisarem de nós. Deixamos uma palavra de apoio a todos os guidoenses, para que nunca se esquecerem da sua terra e para dizerem aos mais novos que Guidões tem uma história digna de ser contada”, referiu.

 

Comissão de Luta não vai parar de reivindicar

A queima do galheiro não significa o fim da luta dos guidoenses. Atanagildo Lobo afirma que “esta não foi uma iniciativa saudosista do passado, mas aproveitando as tradições para projetar a luta no futuro”. “Mesmo na eventualidade de conseguirem impor esta chamada União de Freguesias, continuaremos a lutar para voltar atrás. Assim como se consegue a agregação, também se consegue a desagregação”, sublinhou.

A iniciativa que atraiu centenas de pessoas contou com a interpretação do hino da freguesia, composto entre 1956 e 1957, por Augusto Lobo e Aníbal Pinto. Os antepassados guidoenses também não foram esquecidos numa homenagem simbólica. E para fazer a luta chegar mais longe, foi lançado um balão que iluminou o céu de Guidões.

Para dar eco à manifestação, a Comissão de Luta distribuiu bandeiras com o brasão de Guidões e muitas delas estão agora nas janelas e varandas das casas um pouco por toda a freguesia.