O turismo e o setor da restauração são as áreas de que mais se fala na hora de fazer contas às condicionantes e prejuízos provocados pela pandemia de Covid-19. Mas há um que também sofreu com as medidas restritivas aplicadas para conter a propagação do novo coronavírus, com a agravante de atingir centenas de milhares de pessoas. A educação teve de lutar contra o tempo para se adaptar ao confinamento e minimizar os efeitos negativos do esvaziamento das salas de aula, mas, no contexto da formação profissional, em que a vertente prática, e por consequência presencial, é fator predominante para o sucesso de qualquer currículo, como é que as instituições de ensino reagiram? O NT ouviu responsáveis de três escolas profissionais, o CENFIM, sediado na Trofa, a Forave, situada em Lousado, concelho de Vila Nova de Famalicão, e o CICCOPN, instalado na Maia, para perceber que procedimentos foram adotados e como têm reagido os alunos a este novo modelo de aprender.

“Aprender, fazendo”. A máxima do CENFIM da Trofa, que é, afinal de contas, de todas as escolas profissionais, ajuda a explicar as razões que levaram a instituição, mesmo com a possibilidade de recorrer a softwares de simulação, a suspender a componente prática das formações. “No futuro, não será isso que irão encontrar no mercado de trabalho”, explica Adelino Santos, diretor do centro vocacionado para a formação no setor metalúrgico e metalomecânico. Por isso, a instituição decidiu pagar o preço da suspensão, que provoca “um atraso significativo na data de término” e obriga, logo que haja regresso a formação presencial, à definição de “uma estratégia de recuperação” da “componente prática já realizada”, para evitar que a paragem “tenha impacto nas aprendizagens”.
“A formação prática é chave para uma formação profissional de sucesso pelo que não poderá ser substituída por formação à distância”, acrescenta o diretor, revelando que, em relação às condições de trabalho, o CENFIM consegue cumprir com as principais regras de contenção do vírus. “Nas salas técnicas, laboratórios e oficinas os distanciamentos entre postos de trabalho estavam já garantidos, foi necessário focar-nos apenas em garantir condições de desinfeção nos equipamentos e ferramentas que pudessem ser partilhados entre formandos”.
Do lado do CICCOOPN, o ditado que diz “a necessidade aguça o engenho” cabe que nem uma luva. Depois de organizado um novo modelo de formação à distância, suportado em plataformas e tecnologias digitais e que não ficou imune a “percalços”, o centro especializado em formar na área da construção civil e obras públicas reajustou os planos de formação, “de modo a concentrar na modalidade de formação à distância os módulos e as disciplinas compatíveis”. O feedback foi “positivo” por parte de formadores e formandos. Já as ações relacionadas com a componente prática da formação em ambiente oficinal e laboratorial, “foram reprogramadas e decorreram posteriormente, logo após o regresso ao regime presencial”, explicou a direção da instituição, em entrevista ao NT.
Levando como exemplo o segundo confinamento, que obrigou a nova suspensão das aulas, o CICCOPN aposta que o futuro obrigará a “uma nova normalidade”, por isso tenta antecipar-se às “indefinições e dúvidas”, convencendo-se de que a formação à distância terá de continuar a ser “uma resposta”. “Estamos a adaptar o nosso plano de formação e as ofertas formativas a esta realidade”.

“Atualmente, o modelo hibrido de formação (presencial e/ou a distância) é uma realidade no CICCOPN. A todo o momento podemos transportar a formação presencial para a formação a distância, consoante seja necessário. Por outro lado, a oferta de formação a distância, veio permitir que um maior número de pessoas pudesse ter acesso à formação, designadamente as que por razões de distanciamento geográfico ou de mobilidade de outra forma não o poderiam fazer”.
Direção do CICCOPN


Mas entre as instituições, alimenta-se a convicção de que a pandemia “acelerou o futuro”.
No CICCOPN, que assume ter sido “pioneiro da formação à distância, quando, em 1985 apostou numa estratégia que permitia fazer chegar a formação profissional a candidatos localizados em todos os pontos do país e em países estrangeiros”, o modelo pedagógico foi repartido em “dois momentos bem definidos”, um com “interação direta do formador com os formandos” e outro promotor da “autonomia”, uma vez que “os formandos acedem e desenvolvem as tarefas propostas pelos formadores”.
“Durante a sessão, o formador mantém a sessão online aberta para momentos de apoio à realização das tarefas de forma mais individualizada. Este deverá ser o canal de comunicação privilegiado durante a sessão. Finaliza a sessão com todos os formandos presentes, refletindo sobre esta. Paralelamente, é mantido junto dos formandos um contacto continuado e regular pelas equipas pedagógicas e coordenadores de modo a aferir sobre a sua motivação, o acompanhamento das sessões, dificuldades sentidas”, explicou a direção do centro.

Cursos do CENFIM em 2021/2022

Cursos de Aprendizagem (equivalente 12.º ano)
Técnico de Desenho de Construções Mecânicas
Técnico de Manutenção Industrial
Técnico de Maquinação e Programação CNC
Técnico de Soldadura

Cursos Educação e Formação de Adultos
Técnico/a de Desenho de Construções Mecânicas (Nível 4)
Técnico/a de Desenho de CAD/CAM (Nível 4)
Técnico/a de Manutenção Industrial (Nível 4)
Técnico de Maquinação e Programação CNC (Nível 4)
Eletromecânico/a de Manutenção Industrial (Nível 2)
Soldador EWF/IIW (Nível 2)
Serralheiro Mecânico (Nível 2)

Cursos Especialização Tecnológica (pós-secundário)
Técnico/a Especialista em Gestão de Produção
Técnico/a Especialista em Tecnologia Mecânica
Técnico/a Especialista em Tecnologia Mecatrónica

Ciclos de formação (300 Horas)
Montagem de estruturas Aeronáuticas
Serralharia Mecânica
Operador de máquinas CNC


Já no CENFIM, sente-se que a pandemia fez com que as empresas “acelerassem o processo de digitalização das suas atividades, indo ao encontro da indústria 4.0”. “Ora, esta é uma oportunidade para nos adaptarmos e atualizarmos algumas das componentes da formação com vista a este fim”, adiantou Adelino Santos.
Em Lousado, a Forave tomou como lição as contingências do primeiro confinamento e tomou como certa a urgência de adotar o ensino híbrido, que mais não é do que a conjugação do ensino à distância com o presencial.
Jogar em antecipação foi a tática utilizada pela instituição, este ano letivo: “Na iminência de um novo confinamento, no presente ano letivo, foi dada prioridade à execução da componente tecnológica dos cursos e os estágios foram antecipados, para que os alunos pudessem desenvolver a formação em contexto de trabalho nas empresas. Algumas das atividades previstas de complemento curricular, tais como visitas de estudo, palestras e workshops, a partir do dia 8 de fevereiro, tiveram continuidade online”, explicou Manuela Guimarães, diretora da escola profissional.
Com cerca de 300 alunos, 15 turmas, 50 colaboradores e 26 associados, entre os quais 23 empresas de referência do tecido económico local, a Forave é especializada nas áreas de gestão da produção; automação industrial, robótica, eletromecânica e transformação de materiais. Assumindo-se na vanguarda da formação profissional, sustentada pelo “posição no nível mais elevado do ranking das prioridades do Sistema de Antecipação de Necessidades de Formação da ANQEP, a escola traça uma linha temporal, aquando a pandemia, que veio “ditar o antes e o depois” da sua atividade.
“A Forave já iniciou a divulgação da oferta formativa para o próximo ano letivo, prevendo-se a abertura de quatro turmas de nível secundário e duas do ensino básico. Estão previstas várias ações de divulgação, tanto em formato presencial, se for possível, como em formato digital. Queremos chegar ao maior número de alunos possível e aos encarregados de educação, partilhando, diariamente, nas redes sociais, as oportunidades de formação, as vantagens de estudar nesta escola e as evidências dos casos de sucesso dos nossos alunos”, salientou Manuela Guimarães, que destaca a gratuitidade do acesso ao ensino e o direito dos alunos a apoios.

“Temos consciência que o Pós Pandemia ditará uma nova era para a Humanidade e a Escola não poderá fugir a este desígnio. Olhar para esta nova realidade como uma janela de oportunidade é, não apenas aceitar a mudança, mas estar preparado para enfrentar e antecipar o futuro, criando as melhores condições para educar e formar jovens para a vida”.
Manuela Guimarães, Diretora da FORAVE

A vontade de regressar ao regime presencial

Apesar do balanço positivo que os centros de formação fazem quanto às adaptações feitas para o ensino à distância, paira o sentimento de que os alunos revelam já alguma ansiedade por voltarem ao regime tradicional. “Apesar de a resposta pedagógica ser positiva, percebemos que alguns formandos podem estar a ter um menor rendimento do que na vertente presencial e, por isso, tentamos acompanhar estes casos de forma mais próxima”, revela a direção do CICCOPN, que confirma o “forte impacto” do confinamento “nos determinantes sociais, mentais e ambientais da saúde” nos jovens.
Por seu lado, o diretor do CENFIM revela que os formandos, “além do acompanhamento por parte dos coordenadores”, contam também com o apoio “da equipa de psicólogas”. “É importante, nesta fase, perceber o estado de espírito e de motivação dos formandos por forma a que não desmotivem”, frisa Adelino Santos, que atesta a “boa adaptação” dos jovens “à formação à distância”, mas admite que estão “ansiosos por regressar à formação presencial”.
“Houve um esforço muito grande por parte das famílias dos nossos formandos por forma a criarem condições para os seus educandos terem formação online. Os nossos formandos não foram contemplados pelos apoios do Estado no que refere ao acesso a computadores e acessos à internet, o que prova mais uma vez que a formação profissional é ‘esquecida’ pelo governo”, lamentou o diretor do CENFIM.
Nesse contexto, a Forave substituiu-se ao poder central e “distribuiu cerca de 50 equipamentos informáticos, adquiriu 10 tablets e garantiu o acesso à internet”, contando “com o apoio da Câmara Municipal de Famalicão”, revelou Manuela Guimarães.

Estágios

Relativamente aos estágios, componente muito importante no contexto formativo, as escolas e centros tiveram, igualmente, de se adaptar.
No caso do CICCOPN, uma vez que a formação é vocacionada para a construção civil, foi possível, “através do compromisso prévio das partes envolvidas”, manter uma “parte significativa” dos estágios nas empresas, “desde que observadas as regras de distanciamento social, de etiqueta respiratória e de desinfeção”, revelou a direção do centro, que, atualmente, tem um total de 1077 formandos, 110 ações de formação em execução e 130 planeadas.
Já no CENFIM, que forma neste momento 280 pessoas em horário laboral e 130 em regime pós-laboral de longa duração, o primeiro confinamento precipitou a suspensão de todos os estágios, o que já não se verificou desta vez. “Os estágios que estavam a decorrer continuaram, ao abrigo do plano de contingência das empresas, que se adaptaram no sentido de cumprir todas as obrigações de higienização e distanciamento social para os seus funcionários tornando também desta forma possível os formandos darem continuidade aos seus estágios e aprendizagens”, explicou Adelino Santos, que revelou como exceção os formandos do curso Projeto e Desenho de Construções Mecânicas, que à semelhança dos coladores da empresa que realizam essas atividades, estão em regime de teletrabalho.

“Há algumas décadas que se falava que a automatização e robotização irá eliminar os postos de trabalho e gerar emprego. A verdade é que as empresas já se automatizaram e já têm robots a realizar trabalhos nomeadamente trabalhos repetitivos e continua a existir empregos, mas empregos que cada vez mais requerem qualificações/competências. Desta forma, faz cada vez mais sentido a opção pela formação profissional”.
Adelino Santos, Diretor CENFIM Trofa


Além dos estágios há outros desafios igualmente importantes na Forave, como é o caso da orientação vocacional dos alunos finalistas e a preparação para a carreira dos alunos dos Cursos Profissionais. Estas “estão a ser dinamizadas com sessões de esclarecimento sobre a oferta formativa, testemunhos de alunos alumni, aconselhamento sobre a elaboração do currículo vitae e sobre a preparação para entrevista de emprego, respetivamente”.
Segundo Manuela Guimarães, a Forave está, ainda, “a garantir condições” para os estudantes terminarem as Provas de Aptidão Profissional, que serão apresentadas “no final de abril”, proporcionando aos alunos “acompanhamento personalizado e a possibilidade, em determinadas áreas, de programar à distância e de realizar projeto elétrico e mecânico”. “Foi assegurado o acesso ao software necessário para a área técnica: Auto Cad; EPLAN, Solidworks e Primavera. Recorrendo às novas tecnologias, os alunos têm acesso remoto, aos laboratórios, podendo programar e testar a partir de casa”, explicou a diretora da Escola Profissional.
Também os Projetos ERASMUS+, que são fonte de grande atividade na Escola, sofreram uma alteração significativa, principalmente no que diz respeito às mobilidades noutros países da Europa. No entanto, ressalva a responsável, “o Clube dos Projetos Europeus continua com reuniões quinzenais online, participadas pelos alunos e tutores, onde dão continuidade aos trabalhos temáticos”.

Cursos da Forave em 2021/2022

Gestão/Produção
Eletrónica, Automação e Comando
Manutenção Industrial/Eletromecânica
Transformação de Polímeros/ Processos de Produção
Mecatrónica Industrial (NOVO)

Cursos de Educação e Formação de Jovens (equivalente 9.º ano)
Operador/a de Distribuição
Eletromecânico/a de Manutenção Industrial

Responder às necessidades

Num setor que “continua a ser marcado por uma grande falta de profissionais qualificados na maior parte das áreas”, o CICCOPN, a celebrar 40 anos em 2021, prevê que, “como sempre, as necessidades formativas acompanhem as tendências do setor da construção”, por isso, a oferta formativa, garante a direção do centro “irá procurar sempre acompanhar as necessidades, seja através de formações realizadas presencialmente, seja através do regime de formação à distância”.
“O CICCOPN assegura, de forma contínua, a qualificação de quem quer entrar no mercado de trabalho, numa realidade em constante metamorfose, destacando-se, no contexto atual, a importância particular da adaptação dos edifícios a exigências como o touch-free e a segurança e qualidade do ar”, acrescentou.
Já num “horizonte mais alargado”, a instituição quer efetivar “a transição para a Construção 4.0, a era digital da indústria que, para além de todos os processos associados à desmaterialização, é, antes de mais, uma era de interação”, respondendo às “necessidades das smart cities”, lugares da “construção sustentável”, da “eficiência energética” e dos “edifícios inteligentes”.
No CENFIM, diz Adelino Santos, notou-se este ano letivo “uma pequena redução de formandos inscritos na aprendizagem”, mas, em contrapartida, “um aumento significativo de formandos adultos desempregados e ativos que procuram cursos de formação para reconversão profissional”.
“Dada a situação pandémica, é provável que aumentem os números de desemprego, pelo que o CENFIM está a criar condições nesta fase para receber estes candidatos para reconversão profissional de forma a que, rapidamente, tenham novas oportunidades de emprego”, revelou.

Cursos do CICCOPN em 2021/2022

Cursos de Educação e Formação (equivalente 9.º ano)
Canalizador
Carpinteiro/a de Limpos
Pintor(a) de Construção Civil

Cursos de Aprendizagem
Técnico(a) Administrativo
Técnico(a) de Ensaios da Construção Civil e Obras Públicas
Técnico(a) de Informática – Sistemas
Técnico(a) de Instalações Elétricas
Técnico(a) de Medições e Orçamentos
Técnico(a) de Obra / Condutor(a) de Obra
Técnico(a) de Topografia
Cursos de Especialização
(Jovens e Adultos)
Técnico(a) Especialista em Condução de Obra
Técnico(a) Especialista em Gestão da Qualidade, Ambiente e Segurança
Técnico(a) Especialista em Gestão e Controlo de Energia
Técnico(a) Especialista em Reabilitação Energética e Conservação de Infraestruturas – Edificações

Curso Educação e Formação de Adultos
Técnico(a) Administrativo
Técnico(a) de Qualidade
Técnico(a) de Instalações Elétricas
Técnico(a) de Obra / Condutor(a) de Obra
Técnico de Segurança no Trabalho

Formação Modular Certificada | Formação Contínua Especializada
(consultar site do CICCOPN)