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E eis que a edição 2015 do Festival Vodafone Paredes de Coura chegou ao terceiro dia, com a animação habitual do Palco Jazz, desta vez com propostas dos escritores Carlos Vaz Marques e Pedro Mexia numa nova sessão de poesia. A música fez-se também ouvir junto à praia fluvial com os Penicos de Prata e Peixe, que providenciaram mais uma banda sonora perfeita para uma tarde de sol e relaxamento.

Ainda durante a tarde, as Vodafone Music Sessions proporcionaram um concerto acústico de Waxahatchee numa serração local.

Já no recinto, a abertura de portas conduziu os festivaleiros mais dedicados até ao concerto de Nicole Eitner, aqui acompanhada pelos The Citizens. A cantora alemã que canta um groove jazz de forma calma e plena, encaixou perfeitamente no início das festividades do dia, quase que fazendo parte do cenário idílico de Coura.

No Palco Vodafone, coube aos portuenses X-Wife de João Vieira a honra de inauguração das hostilidades. Um regresso, mais de uma década depois desta banda portuguesa dedicada ao rock. Os X-Wife capitalizaram bem a recetividade que obtiveram junto do público já reunido para a festa da música, e foram tocando alguns sucessos de uma carreia já longa (14 anos) que conta com quatro álbuns de estúdio. Keep on Dancing, Fireworks, Ping Pong e Realize foram temas pujantes de uma atuação que permitiu ainda uma passagem por Block Rockin’ Beats, dos Chemical Brothers.

De volta ao palco Vodafone.FM encontramos os espanhóis Grupo de Expertos Solynieve que com o seu folk-rock e uma energia muito particular foram animando o público.

Os norte-americanos Allah-Las seguiram-se no palco principal, trazendo na bagagem o seu garage rock de inspiração psicadélica. As músicas escorreitas do quarteto californiano agradarem aos presentes que responderam com animação e simpatia qb.

O quinteto do Alabama Waxahatchee manteve um ambiente semi-morno no palco secundário, sendo que Less Than e Grey Hair foram os temas que mais cativaram a assistência do concerto da banda norte americana de Katie Crutchfield, Katherine Simonetti e companhia.

Mark Lanegan Band, um dos nomes mais aguardados da noite, trazia consigo os méritos de ser um Senhor do grunge de Seattle. Lanegan impressiona pela postura e pela aura que emana. Quase não comunica com o público, ficando-se por dois meros obrigados, mas parece que conta muitas histórias nesses silêncios, e que histórias. Apenas de o ver ficamos com a sensação que já viveu as peripécias de mais que uma vida e que não nos diz tudo o que viu e fez. E se os silêncios de Lanegan nos dizem tanto, a sua música recusa ser etiquetada como rock, gótico, grunge, synth rock ou blues. É Mark Lanegan, fiquemos por aqui. Harvest Moon, No Bells on a Sunday, Grey Goes Black, Hit The City, One Way StreetDry Iced, I Wolf, Riot in My HouseGravedigger’s Song e Atmosphere foram temas escutados. Com uma postura de quase indiferença, Lanegan não vem para os festivais para conquistar amigos e isso talvez explique alguma indiferença dos presentes. Para os fãs e para aqueles que entraram na sua onda, Lanegan encantou na luz semi-escura que o rodeou o concerto todo.

A encerrar os concertos do palco secundário, os californianos Merchandise de Carson Cox, David Vassalotti e Patrick Brady deram um concerto “esgotado” num espaço que se revelou pequeno para tanta procura.

No palco principal seguiu-se Charles Bradley And His Extraordinaires. O músico de 66 anos, natural da Florida, decidiu imitar James Brown depois de ver a “Sex Machine” no Apollo, em Nova Iorque. Começou tarde a carreira, já perto dos 55 e ontem conquistou o anfiteatro de Coura, e sem espinhas, como se costuma dizer. Senhor funk-soul-R&B deixará boas memórias a quem no dia 21 de Agosto passou pelo Vodafone Paredes de Coura. A voz rouca e sensual de Bradley foi brilhantemente acompanhada por um conjunto de músicos com um percurso inquestionável que se dedicaram a uma parafernália de teclados, metais e guitarras. Lovin’ You, Baby, Let Love Stand a Chance, Love Bug Blues e Confusion foram temas muito celebrados de um cantor que muito apelou à harmonia entre povos e ao amor. “Posso ser sexy? Posso ser nasty?” são perguntas que ficam no ar, a par de afirmações como “Eu amo-vos. Se não estivessem aqui não haveria o eu” e “Eu não quero saber do vosso credo ou da vossa cor, eu só quero saber do vosso coração”. Final emocionante com beijos e abraços na fila da frente e com o enorme carinho do artista para com o público a ser amplamente retribuído.

Com honras de encerramento dos concertos da terceira noite, os norte-americanos The War On Drugs começaram a atuação já bem perto da 1h da manhã. Cinco músicos em palco constituem esta banda de Filadélfia, que é muito focada nas delícias que os pormenores musicais proporcionam. Uma banda perita em saltitar entre momentos mais contidos e outros de explosão. Entre as guitarras ligadas ao máximo os pormenores dos outros instrumentos vão potenciando as melodias dos norte-americanos. Ocean in Between The WavesDisappearingRed EyesEyes To The WindUnder The PressureIn Reverse, Arms Like Boulders, Baby Missiles e Mystifies Me foram alguns dos temas escutados num bonito concerto de uma banda que é muito acarinhada e que vive um momento de alta popularidade. 

O habitual after hours contou com as presenças de Tanlines e Richard Fearless.

Texto: Joana Vaz Teixeira
Foto: Paulo Homem de Melo