Antes de ter chegado ao Porto em 2012, o Primavera Sound já era um emblemático festival de música, que tem tido lugar em Barcelona desde 2001 e que priveligia o pop, o rock e as tendências mais underground da dance music.

Na segunda edição do Optimus Primavera Sound estiveram presentes mais de 50 projectos distribuídos por 4 palcos: os principais, Optimus e Super Bock; o palco ATP (All Tomorrow’s Parties, o palco pérola quase escondido num vale com socalcos); e a tenda Pitchfork.

Ao final da tarde de quinta-feira, 30 de Maio, as imediações do Parque da Cidade do Porto começavam a colorir-se com rostos de festivaleiros e amantes de música. Viam-se muitos estrangeiros, se bem que a organização antevia um acréscimo de público português nesta segunda edição do Primavera Sound no Porto. A maior presença de público português ter-se-á ficado a dever à reputação que a primeira edição em 2012 criou.

Nota muito positiva para a forma como o recinto estava organizado: nos locais dos concertos focava-se toda a atenção para o som e a imagem, enquanto que o resto do espaço respirava sem grandes exageros publicitários. Os puffs e os baloiços foram eleitos para o descanso entre os concertos. O espaço do parque estava bem servido de mini eco-pontos, que eram complementados por vários funcionários e voluntários que constantemente recolhiam o lixo, principalmente os vazios copos plásticos de cerveja.

O público era visto constantemente de copo de cerveja na mão, uma vez que os cálices de vinho e respectivo conteúdo tinham preços proibitivos numa ápoca em que se vive sob o jugo da troika. Quem foi aos concertos do Primavera passou largas horas no recinto e a ida às barraquinhas da comida foi obrigatória. A presença de casas portuenses emblemáticas pelos seus petiscos tornou a gastronomia um ponto muito interessante deste festival. Estavam lá as francesinhas da Cufra, as bifanas da Conga, os salgados da Padaria Ribeiro e as sandes de pernil da Casa Guedes, entre outros. Os preços terão sido talvez um pouco exagerados, mas não espastaram.

Mas falemos do principal, a música e os concertos.

Dia 30 de Maio: Na primeira noite de concertos, só podia haver um Senhor Maior 

A abertura do festival, no palco Super Bock, coube ao trio de espanhóis Guadalupe Plata que apresentaramos seus blues rock empoeirados, com uma atitude endiabrada típica do punk rock, que instrumentalmente não falha mas que têm a pouca sorte de contar com um vocalista de voz um pouco esganiçada que compromete a energética presença em palco da banda.

Seguiram-se os americanos Merchandise com as suas influências post-punk americano e inglês e com uma opening line que terá encontrado eco no público que assistia aos concertos iniciais: “Christ Almighty is cold”. E de facto o sol que já ameaçava a despedida não disfarçava nem um pouco o frio que se iria fazer sentir. A banda passou pelo Palco Optimus sem deixar uma grande marca, dado o reportório um tanto ao quanto repetitivo que foi apresentado.

O quinteto norte–americano Wild Nothing apresentou o mais recente álbum Nocturne, e entreteve o público que despreocupadamente e de bebida na mão usufruía dos relvados do recinto. Um concerto morno, onde se vislumbrou a possibilidade de esta banda poder vir a fazer mais.   

As Breeders reuniram a formação de Last Splash (Kim Deal, Kelley Deal, Josephine Wiggs e Jim MacPherson) e tocaram o álbum na íntegra, 20 anos após a sua edição, sobrando ainda dez minutos para dois acrescentos. No final do concerto ficou-se com a sensação de que as Breeders se tinham divertido bem mais que o público que assistia. Seria verdade? Pareceu que o público nunca entrou no jogo das Breeders neste início de noite, enquanto o sol se punha. Falta de empenho da banda? Desconhecimento do álbum? O peso da passagem do tempo e dos excessos dos artistas? Sejam quais forem as razões a irreverência do Girl Power dos anos 90 merecia mais do que os aplausos respeitosos da praxe, nesta que era a celebração de um dos álbuns clássicos da década de 90.

Os Dead Can Dance eram uma das bandas mais reputadas a apresentarem-se no cartaz deste festival, num regresso da banda de Brendan Perry e Lisa Gerrard à actividade depois de uma prolongada pausa. A voz angelical de Gerrard e o barítono Perry, entre arranjos e ritmos tribais, encaixariam perfeitamente no ambiente intimista de uma sala pequena, mas a solenidade da sua música é desajustada ao contexto festivaleiro. Terão encantado uma pequena legião de fãs que os escutou, mas não convenceram em absoluto todo o público,

E eis que uns minutos antes da hora marcada, o Senhor da primeira noite do festival entrou em palco com os seus Bad Seeds, Nick Cave. Australiano, 55 anos, alto, vestido de negro, com uma pose de felino ou demónio atormentado, que encarna o que uma verdadeira estrela rock deve ser. Sem proferir palavras iniciou com We Know Who U R, do novo álbum, Push The Sky Away. No final da primeira música, Cave agradece e diz adeus aos fotográfos, sentando-se ao piano para interpretar Jubilee Street, e encetar mais tarde uma dança um tanto ou quanto demoníaca e contagiante, com esgares e movimentos que incendiaram uma plateia ávida de o ver e ouvir. O acumular de energia sentia-se, a tensão estava tão concentrada no ar que era quase palpável. Sexual não chega para descrever o que começou a ver-se e sentir-se com a terceira música, From Her to Eternity: o clássico foi cantado no meio do público, com Cave em suspensão sobre as grades, tocando as mãos dos fãs, que lhe seguravam as pernas. O cantor havia de repetir a façanha e voltaria às grades fazendo lembrar um Moisés que caminha sobre as águas. Será ele o nosso profeta? O nosso redentor? Um anjo caído que veste a pele de um demónio? Um pregador de coroa de flores na cabeça? Tendo como pretexto Jack The Riper, Cave voltou às grades numa apoteose absolutamente sexual. Dominando o público quase desde a aparição em palco, de notar o controlo absoluto da voz que Cave manteve mesmo nos momentos que passou empoleirado nas grades e seguro pelos fãs. De arrepiar. Numa atitude de Deus maior, Cave falou frontalmente com os fãs, usando o sarcasmo para se queixar dos iphones que lhe eram apontados descaradamente. Alguns quiexaram-se da curta duração da actuação, que elegeu clássicos de uma carreira de 30 anos e temas do álbum novo, mas a intensidade do concerto é absolutamente inegável. E antes curto mas excelente, que longo e assim assim. Digo eu. Uma palavra para os seus Bad Seeds: encaixam perfeitamente no corpo de actores secundários com papel fundamental na teatralidade apresentada por Cave. O público delirou particularmente com o violino de Warren Ellis.

Os Deerhunter, que tiveram a difícil tarefa de subir ao palco depois da actuação de Cave, e quando muitos já abandonavam o recinto, apresentaram um reportório que se fez valer de Halcyon Digest, de 2010, e do recente Monomania. Já perto o final, Back to the Middle foi dedicado ao aniversariante guitarrista Josh McKay. Um bom concerto.

Por volta das 3h James Blake, o chamado o menino prodígio da electrónica britânica, subiu ao palco Optimus.  O londrino juntou à sua voz variados efeitos, distorcendo-a qb, e trouxe consigo um baterista e um guitarrista, entregando-se ele próprio aos sintetizadores. Sempre sentado, Blake apresentou uma electrónica amorosa e íntima, num fecho de noite que para muitos terminou precocemente dado o frio que se sentia no Parque da Cidade.

Dia 31 de Maio: A festa dos Blur

Os Dear Telephone, banda nacional de Barcelos, apresentaram o seu rock promissor e inauguraram as hostilidades no palco Super Bock no segundo dia do festival. Neko Case, que também actuou neste palco, conquistou a plateia deliciando-a com a sua música country folk. Nota curiosa, foi a confissão da artista ao admitir estar sob “uma pedra de café e pastéis de natas”. O que dizer dos Swans e do seu concerto no Optimus Primavera Sound? Três guitarras, duas baterias, teclados, um violino e uma trompa, como que anunciando o fim do mundo. Pelo menos do mundo convencional que conhecemos. Uma hecatombe. Não consumível por todos.

Num salto ao Palco ATP viram-se uns Ghostdigital que com a sua electrónica e algumas proezas do seu vocalista entretinham o público. No início do concerto o vocalista incentivou o público a tirar as calças aquando da interpretação do segundo tema, e a cheirá-las. Mais tarde, talvez motivado pela não aderência do público ao seu desafio, decidiu subir a uma das torres do palco. Daniel Johnston reuniou os fãs da sua música em frente ao Palco ATP. Enquanto artista e performer ao vivo Johnston não ganha pontos, mas há que descontar o facto de este sofrer de distúrbio bipolar e ser esquizofrénico. Tudo isto embrulhado numa vida que não lhe tem sido fácil. Música tocante, a de Johnston. Os Mão Morta, que foram incluídos no cartaz para substituir Rodriguez, assinaram mais um grande concerto, tocando várias músicas de um percurso iniciado em 1984. A banda liderada por Adolfo Luxúria Canibal reuniu uma legião fiel de fãs em frente ao Palco ATP, onde se seguiram os Shellac com o seu som agressivo, que manteve um público atento mas pouco dedicado. Depois das 3h veria-se Fuck Buttons, numa actuação tão barulhenta que espantou muito público e onde se viam apenas alguns seres meio perdidos (de sono, de álcool, de orientação, etc).

No Palco Pitchfork Melody’s Echo Chamber actuaram em harmonia com a audiência que retribuiu a presença e dedicação da banda liderada pela parisiense Melody Prochet com devoção. O duo norte-americano Glass Candy estreou-se em terras lusas, apesar do já longo repertório discográfico, e agitou o Palco Pitchfork.  A vocalista Ida No mergulhou entre a plateia e levou fãs ao palco. O colega, Johnny Jewel teve direito a escutar os parabéns em uníssono. Batidas e um ritmo muito próprios de um grupo a conhecer melhor. Neste palco, os Metz confirmaram a reputação de boa banda ao vivo.

Os Memória de Peixe, banda das Caldas da Rainha, de Miguel Nicolau (guitarra) e Nuno Oliveira (bateria), abriram muito bem o menu do palco Optimus. Com a sua música instrumental muito fluida, são uma banda a acompanhar e com novo trabalho na quelha já este ano. Neste palco, houve ainda tempo para ver e ouvir os Grizzly Bear, que deram um bom concerto e que prometem continuar em crescente evolução.

No regresso dos Blur a Portugal – dez anos depois da última passagem pelo nosso país – esperava-se muito mas mesmo muito entusiasmo e o espectáculo por eles montado foi muito mais do que isso, superando todas as expectativas. Talvez a maior enchente do festival Primavera no Porto (incluindo edição de 2012), com uma plateia a pular e dançar quase non stop e que acompanhou Albarn e os seus colegas, fazendo eco das letras até ao último minutinho do concerto. O hino de uma geração, Girls & Boys marcou o início do concerto, com Albarn a apresentar-se em grande forma. O vocalista daquela que é uma das bandas grandes do movimento brit pop, regou as primeiras filas, durante as músicas iniciais. Não faltaram os hits da banda: There’s No Other Way, Beetlebum, Tender, Country House, Parklife e Coffe & TV. Abençoados fãs que se lembraram dos pacotes de leite gigantes que saltitaram durante toda a Coffe & TV e que serão para mim uma das imagens mais doces deste concerto (festival). Houve ainda tempo para escutar This Is a Low dedicado “a vocês, portugueses, que foram influenciados pelo mar and stuff like that”. O concerto teve direito a encore, e fechou com dois hinos: The Universal e Song 2. E não poderia ter sido de outra maneira.

Dia 31 de Maio: Fim do festival sem unanimidade

The Glockenwise, quarteto português que apresentou o álbum de estreia, Leeches, inaugurou o palco Super Bock no derradeiro dia do festival e manteve um diálogo constante com público, chegando a apresentar-se em inglês como os Xutos e Pontapés, a maior banda portuguesa. Há que lhes reconhecer o humor. E a promessa que trazem na sua música. Outra banda portuguesa, os PAUS, com Hélio Morais e Joaquim Albergaria sentados frente a frente, a tocar bateria numa busca da perfeicção com as suas batidas, deram mais um bom concerto deste festival.

A terceira e derradeira noite do festival teve uma vertente bastante electrónica. Exemplo disso, foi Dan Deacon, entertainer musical que se destacou no palco Pitchfork, e cujo entusiasmo parecia ameaçar a tenda e a sua manutenção em pé. Nesse mesmo palco Daughn Gibson juntou toques de electrónica a um country misturado com rock. Neste mesmo palco aconteceu o concerto das praticamente desconhecidas Savages, que mereceram de grande parte da imprensa o título de grande concerto da noite. A sua actuação crua e arrepiante poderá ter dado início a um culto.

Praticamente à mesma hora, no Palco Super Bock, os Liars tentaram cativar o público, com Angus Andrew num palco ilustrado por um L gigante. A recente viragem para a eletrónica, que deixa para traz o rock de outros tempos terá comprometido a empatia do público.  

The Sea and Cake tiveram uma passagem muito discreta pelo palco ATP – talvez não sejam uma banda de exteriores. Neste mesmo palco, os White Fence, vindos da California, deram um concerto muito bom, que não foi visto por muitos, porque esta não foi noite de encher recintos.

Os catalães Manel e os australianos The Drones que tocaram ainda com a companhia do sol, nos palcos principais, também não parecem ter convencido o público.

A presença dos granadinos Los Planetas num dos palcos principais e em horário nobre talvez se deva ao facto de serem uma instituição do rock espanhol. A banda conseguiu criar atmosferas envolventes com as animações projectadas em palco e nos ecrãs, proporcionando um espectáculo que não se resumiu às canções.

Os Explosions in The Sky fizeram do seu concerto uma homenagem à guitarra: as longas composições monótonas são interrompidas com intepestuosas explosões instrumentais, para delírio do público. Carinho. Brutalidade. Calmaria. Histeria. Contenção. Descontrolo.  

Os Dinosaur Jr vieram ao festival quase três décadas depois da sua criação, mas a sua actuação não chegou para cativar uma audiência que parecia estar em contenção de energias. O que terá lavado Lou Barlow a gritar “Acordem”. Talvez sejam incompreendidos.

Os My Bloodly Valentine, criadores do shoegazing (corrente do rock alternativo caracterizado pela distorção das guitarras, uma amálgama sonora e vozes angelicais), voltaram aos discos este ano, depois de um interregno de 22 anos. Ruído envolvente e rock violento. Um ruído, que não permitiu apreciar o cantar de Blinda Butcher. Este quarteto cria uma muralha de som tão densa que impressiona. Mas a empatia com o público nunca passou das primeiras filas. E estes cabeças de cartaz levaram muitos a abandonarem o recinto antes do fim do concerto. Terão perdido um solo imponente na penútima música. Percebe-se o elogio feito à banda com o convite para “fechar” o festival, mas também se percebe a indiferença do público.

Argumentar-se-á que num festival é assim mesmo: vai-se a vários concertos, diferentes, sem sair do sítio. Viaja-se em estilos musicais e uns são mais apreciados que outros. No entanto, um festival que teve duas noites tão boas como as noites de Nick Cave e Blur, merecia um fecho apoteótico e tal não aconteceu.

Num balanço final, José Barreiro, um dos diretores do festival, afirmou que o evento correu “sobre rodas, sem cancelamentos de última hora”, e estimou que cerca de 75.000 pessoas terão passado pelo Parque da Cidade nos três dias do festival (incluindo staff e imprensa).