Fique ligado

Crónicas e opinião

Festa de Nossa Senhora das Dores: ONTEM, HOJE E SEMPRE

“Não foi a Trofa que impôs a Nossa Senhora das Dores, mas a Nossa Senhora das Dores que impôs à Trofa”

Avatar

Publicado

em

Terminaram as festas de Nossa Senhora das Dores de 2022. Parabéns à Comissão de Festas. Virou mais uma página da longa história iniciada há cerca de 256 anos! Viva as próximas festas de Nossa Senhora das Dores, em 2023, e a próxima aldeia a realizar as mesmas. As próximas festas terão o seu ponto alto entre os dias 21 e 24 de agosto.

A primeira imagem de Nossa Senhora das Dores (século XVIII)

Os membros da Comissão cessante estão orgulhosos daquilo que realizaram, apesar das muitas contrariedades encontradas no caminho, das muitas noites sem dormir, das portas a que bateram e que não se abriram para “apoiar” monetária ou até moralmente – por acção ou omissão-, a realização das mesmas. Tudo está a ser analisado nestes próximos tempos. Com efeito, e porque nunca foram de “deitar a toalha ao chão”, estiveram sempre focados na enorme tarefa de Honrar aquela “Mulher” que, “SEM FILHO, NEM VIVO NEM MORTO”, ABANDONADA POR TODA A HUMANIDADE, CHORANDO “LACRIMOSA”, manteve-se a olhar para o firmamento, pensando na resposta que havia dado, há 33 anos: FIAT (Faça-se), e que, mesmo sem se aperceberem do facto, os festeiros estavam a ser os continuadores daqueles que há cerca de 256 anos deram início à mais bela história daquela que viria, mais tarde, a ser conhecida como a Grande Romaria de Nossa Senhora das Dores da Maia e seguiram o exemplo dos antepassados.
Nesta hora de balanço, convém recordar que a romaria de Nossa Senhora das Dores é o corolário de mais de dois séculos e meio de “Vivência”, um misto de Devoção, Bairrismo e Convicção: não fora estes “atributos” e a festa de Nossa Senhora das Dores já não existia há cerca de 80 anos, conforme alguns factos históricos o demonstram. Ora vejamos:
Desde 1766, o ano longínquo em que o abade Inácio Morais Sarmento Pimentel (um grande devoto de São Martinho e da Virgem das Dores) e um grupo de fervorosos fregueses de São Martinho de Bougado puseram pés a caminho e fizeram a “petição” ao bispo (do Porto) para erguer uma capela no chamado “Monte da Carriça”; o povo desta freguesia, ano após ano, foi dando passos na erecção da capela e deu início àquela que foi e continua a ser a Romaria de Nossa Senhora das Dores e que é conhecida já no país e no estrangeiro como uma das maiores romarias do Norte de Portugal.

Datas e Factos mais importantes da história da Capela e Festa

1- Certidão de Nascimento da Construção da Capela e Festa: “… Para V. Reverendíssima lhe faça mercê conceder licença para erecção desta Capela, e mandar se lhe constitua património na forma, se oferecem na dita escritura; por ficar bem” (Parte do pedido-escritura).
Este pedido-escritura era acompanhada da seguinte procuração: “Procuração bastante que fazem o juiz da Igreja de São Martinho de Bougado, Gabriel Costa Costa, oficiais… perante mim, o Pe. Hilário António Faria da mesma freguesia. Pela presente fazemos nosso bastante procurador ao Sr António Pinto de Carvalho, assistente da cidade do Porto…esta por nós firme e assinasse pelos que não souberam escrever, e eu subscrevo Padre Hilário faria) a fiz em 26 de agosto de 1766”
“…Reconheço a letra acima desta procuração ser do meu padre coadjutor Pe Hilário António de Faria.
São Martinho de Bougado 16 de Agosto de 1766” ( Nota: Aqui poderá haver troca de datas?)
O Abade Inácio de Morais Sarmento Pimentel.

De acordo com os dados históricos, os meses de Junho e Agosto de 1766 marcam indelevelmente a fundação e nascimento da nossa capela e romaria que dura há mais de um quarto de milénio.
A capela que foi construída nos anos seguintes era pequena. Poder-se-ia chamar, à luz dos nossos tempos, “uma ermida”. Interiormente, além do altar-mor, tinha dois altares laterais com as mesmas imagens que presentemente aí se encontram, exceptuando a da Senhora das Dores, que terá sido substituída por uma maior, na década de 1870.

Publicidade

2- Ano 1879: Volvido mais de um século, esta “capelinha” era demasiado pequena para tão número de devotos e estava bastante arruinada. Disso dá conta o povo quando por essa altura já “cantarolava”:
“Senhora das Dores da Maia
A vossa capela cai
Mandai-a já levantar
Pelo povo que aí vai”

Foi, então, a capelinha demolida para dar lugar à construção de um templo mais elegante e mais largo, embora com linhas sóbrias. As obras foram integralmente custeadas pelo então “Comendador” Manuel António Ribeiro, de Santo Tirso, mais tarde Conde de São Bento.

3 – El-Rei D. João VI “legaliza” as festas “de cariz profano”, criando a(s) chamada(s) “Feira(s) Franca(s)” na “…Terça dominga do mês de agosto, e segunda imediata”.
Corria o ano de 1817 e liderava a paróquia de São Martinho de Bougado o reverendo Joaquim José Silva Pedrosa. Nesse ano dirigiu um pedido ao rei D. João VI, onde a dado passo solicitava:
“… Que no meio da dita freguesia perto da entrada que hia daquela cidade (Porto) para a de Braga, e no Monte, se achava hua capella de Nossa Senhora das Dores em que se fazia hua romaria annual na Terça Dominga do mês de Agosto, aonde concorrião muitos Romeiros, tanto daquelle conselho como do termo de Barcelos que vicava vezinho…”
Em face deste pedido, Sua Alteza Real D. João VI despachou favoravelmente:
“Hey por bem conseder aos supplicantes a necessária faculdade para poderem estabelecer huma feira, no sítio do Monte, na terça Dominga do mês de Agosto, e segunda imediata”.
Lisboa, 24 de Mayo de mil e oitocentos e dezassete – Dom Miguel José de Câmara Maldonado”
Estavam criadas, “por decreto real”, as “Feiras” de domingo e segunda-feira (Feira de Sementes) de Nossa Senhora das Dores, que se realizaram ininterruptamente e que perduram até hoje…

4 – A chegada do Comboio (Caminho de ferro) à Trofa traz desenvolvimento à terra (S.M.Bougado)
Com a inauguração das linhas (C.F.) do Minho, Ramal de Braga, de Guimarães e Senhora da Hora, a partir do ano de 1875, a Trofa passou a ser um ponto obrigatório de passagem de pessoas e mercadorias que diariamente viajavam de e para Porto, Braga e Guimarães, cidades que com a revolução industrial sofreram grande desenvolvimento e a Trofa, como local estratégico, iniciou, a partir dos fins do século XIX e começo do século XX, um grande desenvolvimento, quer comercial, quer industrial.
As festas de Nossa Senhora das Dores também tiveram um grande incremento, conforme foi escrito por vários cronistas da época. Os comboios, nos dias de romaria, vinham a “abarrotar” de gente, quase pareciam “sardinhas na canastra”, refere um cronista.

Cortejo etnográfico realizado em 1968 com um dos carros alegóricos

5 – “Decreto” Diocesano põe em perigo a realização (e continuidade) da Romaria. Nove anos de “Festas Civis”
Nos meados do século XX, mais concretamente no ano de 1943, houve uma interrupção das celebrações religiosas da festa: Uma nota Pastoral sobre festas, do Prelado de então D. Agostinho de Jesus e Sousa, não permitia a realização de festivais nocturnos nos dias que imediatamente antecedessem os das cerimónias religiosas, (missas e procissão) o que implicava com a feitura dos nossos andores e exigia que se observasse escrupulosamente o calendário litúrgico, o que no caso das festas de Nossa Senhora das Dores obrigava a transferência das nossas festas para 15 de Setembro, o dia litúrgico da festa de Nossa Senhora das Dores.
Ora isto “mexia” com a tradição de quase dois séculos, pois a Romaria vinha já com tais características da 2.ª metade do século XVIII e não chocava contra a doutrina geral da Igreja, naquela altura, mas era, sim, do critério pessoal do respectivo Prelado, já que só na diocese do Porto e na de Lamego, de onde D. Agostinho viera, tal se verificava; a Trofa (trofenses de S. Martinho de Bougado) considerou arbitrárias aquelas disposições da Pastoral e “NÃO AS ACATOU”, porque achou que a decisão havia sido injusta e resolveu “dar a volta por cima”. Durante nove anos, de 1943 a 1952, continuou a fazer-se a Romaria no 3.º Domingo de Agosto e dias seguintes (com festivais diurnos e nocturnos) mas apenas com a sua vertente profana. Realizava-se a Feira das Sementes, criada por D. João VI, na segunda-feira, e um Cortejo Alegórico, em substituição da procissão (no domingo). Por ordem da autoridade eclesiástica, a capela de Nossa Senhora das Dores conservava-se fechada durante os dias de festa.
Era com muita tristeza, um certo sacrifício e grande desgosto que toda a população local e os inúmeros devotos e romeiros de Nossa Senhora das Dores viam a sua Festa Maior “amputada” da parte religiosa.
Por isso, quando se deu a transferência de Portalegre para o Porto do novo bispo (D. António Ferreira Gomes), por falecimento de D. Agostinho de Jesus, foi o reacender da nova esperança; todos confiados em que o novo Prelado, auscultando o sentir dos seus diocesanos, saberia encontrar uma solução justa e consensual para o problema criado pelo seu antecessor, e assim aconteceu.
Ouvidas e ponderadas as razões apresentadas pelas gentes da Trofa, D. António reconheceu o peso da “tradição” de raízes tão profundas. Deu autorização para que as festas da Trofa, e bem assim como todas as outras da sua diocese portadoras de idêntico cunho tradicional, continuassem a realizar-se nos mesmos moldes em que haviam sido criadas.
E a partir de 1953, inclusive, a nossa Romaria passou a revestir-se ainda de maior esplendor, entusiasmo e bairrismo e continuaram a fazer tudo isso por devoção à Virgem das Dores e amor à sua terra.

Capela Nossa Senhora das Dores (Arquivo)

6 – Agosto de 1966 – Comemoração dos 200 anos da Fundação da Capela (1766-1966)
Nas últimas décadas do século XX e inícios do século XXI, a festa de Nossa Senhora das Dores atingiu o seu auge. Assim, nos fins do mês de julho, já os armadores procediam ao enfeitamento dos andores, as ruas da freguesia eram decoradas, procedia-se à decoração e iluminação exterior da capela, para que, após o dia 15 de agosto, iniciasse verdadeiramente a romaria mais importante da região. De acordo com os cartazes-programa da época, vários grupos de Zés Pereiras (em 1966 chegaram a totalizar 201) anunciavam as festas percorrendo todos os lugares da freguesia, as bandas de música davam concertos nos dois coretos existentes no parque, os “morteiros” e os sinos da capela indicavam as celebrações religiosas e, no domingo, era um mar de gente que se acotovelava para melhor ver a Majestosa Procissão e a altura dos andores (alguns com quase uma dezena e meia de metros de altura). Os festivais nocturnos de sábado e domingo encerravam com duas sessões de artifício.
No ano em que se celebrou o Jubileu do 200.º aniversário da fundação da capela, a freguesia mobilizou-se em peso para assinalar tão grande efeméride: desta forma, os trofenses de São Martinho de Bougado quiseram marcar a data com a bênção de um monumento que perpetuaria para sempre uma das datas mais históricas da sua freguesia: a data da fundação da capela de Nossa Senhora das Dores; monumento esse que foi colocado no Parque de Nossa Senhora das Dores, junto ao antigo parque infantil. Um grande desfile alegórico das actividades da freguesia (agrícola, comercial e industrial) foi organizado e percorreu as principais artérias da freguesia.

7 – Agosto de 2016- Celebração do Jubileu comemorativo dos 250 anos da Capela.
Passados 50 anos da celebração do bicentenário, a freguesia e paróquia foram chamados, mais uma vez, desta feita para comemorar, agora, o jubileu do quarto de milénio da fundação da capela. Duzentos e cinquenta anos foi um marco histórico, dignamente celebrado com exposições, concertos de música (clássica e ligeira), além da romaria, que iniciou no mês de maio e durou até finais do mês de agosto.

Andores prontos para sair em procissão (Arquivo)

8 – Dez icónicos andores, “ex-libris da Trofa”, estarão a celebrar a linda idade de 80 anos Porque não a candidatura dos andores ao “Prémio das Maravilhas de Portugal?”
Não há certeza absoluta, mas dizem as “pessoas mais idosas” da Trofa que os andores actuais, que todos os anos percorrem as ruas principais da cidade da Trofa, terão “a bonita idade de 80 anos”, já que começaram a ser enfeitados desta maneira (com cetim, “colares”, “terços” e espelhos) na sequência das festas “civis” (ou profanas). Os nossos andores têm já muita “fama”, pois, no dia da procissão (domingo), logo pela manhã, acorrem, para o largo da Igreja Matriz de São Martinho de Bougado centenas de pessoas, vindas de várias regiões de norte a sul do nosso país para admirarem e acompanharem os “acabamentos” dos enfeites dos dez andores que saem em procissão a meio da tarde. Ouve-se várias opiniões, tais como: “Todos eles são bonitos, mas aquele deve pertencer à freguesia com mais dinheiro” (dirigido ao andor de Abelheira, neste caso). A maioria dos admiradores ficam encantados com a beleza da “confecção” dos andores e a combinação de cores.
Um pedido em jeito de “repto”, à atenção das autoridades locais, a seguir regionais e nacionais: Dado já a linda idade, e para que não se perca esta “tradição” destes andores, que em quantidade são os únicos no País, porque não elaborar uma candidatura ao “Prémio das Maravilhas de Portugal”? Os nossos andores vencerão!

9 – Posto isto: não foi a Trofa que impôs a Nossa Senhora das Dores, mas a Nossa Senhora das Dores que impôs à Trofa, daí o parque não se chamar Parque da Trofa, mas sim Parque Nossa Senhora das Dores!

António Costa

Publicidade

Edição Papel

Vê-nos no Tik Tok

Publicidade

          Comer sem sair de casa? clique aqui

Farmácia de serviço

arquivo