Em criança, como não tinha muitos brinquedos, Susana Joana criava-os. As cascas vermelhas do queijo flamengo, em vez de irem para o lixo, transformavam-se em jogos de chá e pratos em miniatura para completar o “enxoval” das bonecas. Com o tempo, as habilidades foram sendo aprimoradas. Começou a usar plasticina e o verniz das unhas para finalizar as peças. Depois, Susana Joana aventurou-se no desenho e outras técnicas. “Quando eu olhava para uma pedra diferente ou um simples pau, já imaginava o que poderia inventar com eles”, recordou a artesã, em entrevista ao NT.
É nos trabalhos manuais que Susana Joana encontra a satisfação pessoal. Por isso, decidiu arriscar e, em 2012, abriu a Artesã, uma loja/atelier, situada atualmente no Centro Comercial da Vinha, onde mostra e comercializa as peças que concebe. Cerâmica, madeira, vidro, porcelana, estanho, tecido, goma EVA, cartonagem, seda, biscuit são alguns dos materiais que utiliza para dar largas à imaginação. Polivalência parece ser característica vincada da artista. “Quanto maior o desafio, melhor”, contou. O projeto é “feito na cabeça” e só depois executado e pode demorar horas ou meses a ser concluído. Depende da inspiração, das técnicas a utilizar e da complexidade da peça. Quando acaba, a felicidade é certa. “Sinto-me realizada independentemente de tudo aquilo que me possa rodear”, admite.
Um dos trabalhos que mais a orgulha é a Mulher do Norte. Uma peça com 1,50 metros, em homenagem à avó que, apesar de pequena, “tinha uma personalidade bem vincada”. O mesmo se pode dizer da Mulher do Norte, uma peça concebida através da conjugação de várias técnicas (cerâmica, porcelana fria, pintura e outros materiais) e que reflete a indumentária dos antepassados do Minho e Douro. “Como não tenho forno, procurei uma fábrica que aceitasse o meu desafio e, juntamente com um amigo rodista, a Mulher do Norte tomou forma. Como não existiam papéis, ao trabalharmos em conjunto, e quando eu lhe explicava o que pretendia, muitas vezes ele olhava para mim como se eu estivesse maluca. O resultado foi apresentado na ExpoTrofa, em 2012”, contou.
Mais recentemente, Susana Joana começou a criar a peça em 50 centímetros, para que “possa estar ao alcance de todos levarem uma para casa”. Existem em quatro tons diferentes e um dos pormenores mais vistosos, além da saia, é o lenço dos Namorados, típico do Minho (Braga).
Também a Lolita é uma criação de Susana Joana. Esta peça, também foi concebida da conjugação de várias técnicas. A ideia partiu de uma jarra à qual a artesã juntou uma esfera para criar uma boneca, cujos “glúteos” são elemento em destaque.
A inspiração para criar vem “nos momentos mais difíceis” da vida, como nas “noites mal dormidas”, e acaba por ser “uma terapia”. “Encontro motivação nas lutas diárias que me fazem ser a mulher que sou hoje. Não desisto de nada e por mais que as circunstâncias sejam contrárias, antes de alguém acreditar no meu trabalho eu tenho que acreditar, acima de tudo, que vai dar certo. Há projetos sobe os quais eu sei que não vou ver resultados a curto prazo, mas, assim como uma semente depois de lançada na terra precisa ser regada para crescer e dar fruto no tempo certo, também creio que o resultado de muito esforço e dedicação na hora certa dará o seu devido fruto”, asseverou.
Susana Joana reconhece que “ser artesão não é fácil”, porque “apesar de as pessoas gostarem dos trabalhos, estes não são um bem essencial”. No entanto, os momentos difíceis só reforçam a esperança num futuro risonho. “Todos os dias me levanto com a disposição que tudo vai mudar e um dia vou ver todo o meu trabalho reconhecido. Creio que o ano 2016 será um ano de bons resultados”, vaticinou.

Cria peças por encomenda e dá nova vida ao que é velho
A modelagem, seja em pasta de cerâmica, em porcelana fria ou até mesmo em pasta de açúcar, é um dos trabalhos preferidos da artesã. No entanto, é na cerâmica que tem “mais saída” nas vendas, assim como “nas peças personalizadas em porcelana fria para maquetes de bolos para eventos ou ofertas especiais”. As peças em goma EVA, celebrizada por bonecos que podem representar profissões, e as lembranças para festas também continuam a ter “muita procura”.
A artista aceita encomendas e as peças podem ser concebidas de acordo com o gosto do cliente. “Já me aconteceu várias vezes, o cliente trazer um pedido e, em conjunto, idealizarmos um trabalho totalmente surpreendente. Esse é o meu maior ganho, através do trabalho das minhas mãos proporcionar momentos de alegria a alguém”, sublinhou.
Susana Joana também dá nova vida às peças antigas e danificadas pois podem ganhar uma nova vida e comercializa materiais para quem também gosta de trabalhar com artes.