Funcionárias reclamam falta de condições e carne fora do prazo

 

 Fábrica de confecção de carne está de portas fechadas às cinco trabalhadoras que ainda laboram. Funcionárias queixam-se da falta de condições de trabalho e suspeitam de carne com um mês fora do prazo. Proprietária acusa funcionárias de faltarem ao trabalho e de provocarem prejuízo à empresa.

 Desde sexta-feira que cinco trabalhadoras de uma fábrica de confecção de carne estão impedidas de entrar no armazém onde trabalham, em Lantemil, Santiago de Bougado. Depois de terem faltado na tarde de quinta-feira para fazerem uma comunicação à Delegação de Saúde da Trofa sobre a suspeita de laborarem com carne fora do prazo, as funcionárias encontraram as portas fechadas no dia seguinte e assim permaneceram até ao fecho desta edição.

A laborar há oito meses, a fábrica só começou a ter problemas “a partir do momento em que mudou de fornecedor de carne”, afirmou ao NT Sílvia Gomes, uma das trabalhadoras. À “cor escura” e cheiro característico de carne fora do prazo acresce a “falta de condições” de trabalho que as funcionárias deram a conhecer à Comissão de Trabalhadores. “Não temos refrigeração lá dentro e muitas vezes é muito abafado, já para não falar dos mosquitos, formigas e tubos rebentados na casa-de-banho”, referiu Sílvia Gomes.

As funcionárias queixam-se também da falta de cantina para almoçarem e do tempo “curto” para poderem limpar o armazém ao final do dia. “Só nos dá meia hora para limpar e isso não dá para tudo. Antes ainda nos pagava as horas extra que estávamos, mas agora não”, contou.

As funcionárias acreditam que trabalharam com carne com um mês fora do prazo, motivo que as levou a tomar uma atitude por temerem “afectar a saúde pública”.

“É um assunto muito grave, porque trata-se de carne e não queremos afectar a saúde de ninguém”, sublinharam. A ASAE também foi alertada via e-mail “há cerca de 15 dias” pelas funcionárias e a resposta, que veio na semana passada, foi a de que “iriam actuar”.

“A Delegação de Saúde é que nos disse que iria agir rapidamente, vamos ver se isso acontece”, afirmou Sílvia Gomes, que assegurou ainda que vai “lutar até ao fim” pelos seus direitos.

Na fábrica já trabalharam 13 funcionárias, hoje restam apenas seis, com uma de baixa médica e outra que se despediu e está a cumprir o tempo imposto pela lei. A última que saiu está “suspensa”: “ela (patroa) virou-se à nossa colega para lhe bater e ela para se defender empurrou-a”.

O ambiente na fábrica não foi sempre assim, garantem. “No princípio era bom, não tínhamos queixa dela e ela pagava-nos ao fim do mês, era muito boa para nós. Agora é que se tem virado do avesso, não tem pagado e até bater nas empregadas ela quer”, afirmou Sílvia Gomes.

O NT ouviu a proprietária da empresa, Fernanda Dias, que afirmou que as funcionárias “abandonaram o trabalho depois do almoço na quinta-feira e deixaram os produtos em cima da mesa”. “Eu tenho fotografias de todos os produtos que foram para o lixo”, afirmou.

O motivo pelo qual as empregadas faltaram, na opinião de Fernanda Dias, “deve ser os oito dias de salário em atraso” e por enquanto vai continuar com as portas fechadas. “As empregadas não podem abandonar o local de trabalho, principalmente numa fábrica de produtos alimentares”, afirmou.

Fernanda Dias já moveu uma acção contra as funcionárias para se apresentarem e prestarem contas pela falta.

Quanto à falta de condições, Fernanda Dias desmentiu, afirmando que “a empresa tem todas as condições possíveis, porque foi construída por um engenheiro de fábricas”.

Fernanda Dias assegurou que sempre tratou bem as empregadas e diz-se “vítima” de ameaças de uma e da mãe de outra via telefone: “A mãe de uma delas telefonou-me e ameaçou que me agredia”. A proprietária está “muito desiludida” com a Trofa e comparou-a com um “bairro de lata”. “Estava a pensar vir morar para a Trofa, mas desisti. Para mim a Trofa morreu. Vou continuar a trabalhar aqui, mas prefiro funcionárias de fora”, afirmou.