Como era de esperar, a queda do império BES já está a afectar áreas estratégicas, com a PT a surgir como mais um caso (e grave) da promiscuidade capitalista e política que se foi construindo a partir do processo de privatizações iniciado nos governos de Cavaco Silva. Sendo a PT a maior empresa portuguesa, as repercussões na economia podem ser devastadoras. Numa época em que a Tecnologia de Informação é parte indispensável na vida das pessoas e empresas, um país sem os recursos necessários para dotar, cada vez mais freneticamente, o seu território das mais avançadas tecnologias, arrisca-se a ficar na cauda do pelotão (mais um) do desenvolvimento tecnológico, podendo criar deste modo um estigma difícil de apagar (num conhecido cartoon sobre estereótipos europeus, o português é representado a dar marteladas num computador…).
O reino das privatizações e do mercado liberalizado começa sempre com o melhor dos mundos: livre concorrência, melhores serviços, preços mais competitivos e principalmente o bicho papão do Estado fora do caminho. Mas como a experiência nos tem dito, nada disto parece acontecer, como é bem visível, a título de exemplo, no preço dos combustíveis e na “conta da luz”. O caso da PT é paradigmático: numa primeira fase, os recursos construídos por todos é posto à disponibilidade de alguns, deixando o Estado sem voz nas decisões estratégicas e sem receitas a longo prazo (o encaixe da privatização nunca será o valor real da empresa); numa segunda fase, a empresa oferecerá dividendos estratosféricos (o risco é mínimo e o lucro máximo, pois o negócio está montado, os trabalhadores formados e os clientes angariados) passando de seguida para a função de Centro de Emprego para os políticos do Bloco Central de Interesses (PS, PSD e CDS); numa terceira fase, a que estamos a assistir, a empresa é vítima dos gestores medalhados e dos seus jogos de influências e favores, como foi visto no empréstimo de 900 milhões à famosa Rioforte.
E agora? Agora parece que a empresa irá ser vendida a preço de saldo a um qualquer abutre. Consequências? As habituais: despedimentos, despedimentos e mais despedimentos – as famosas reestruturações.
Na sua habitual forma habilidosa, o governo, pelo voz do Ministro da Economia, tentou associar e enfatizar o perigoso mundo da política e dos negócios, acusando de forma subliminar os governos socialistas e Ricardo Salgado. Todos sabemos que o governo PSD/CDS é cândido e celeste nestas negociatas e que tudo fará para assegurar o interesse do país e utilizará a Golden Share. Nem isto. A simbólica Golden Share foi logo exterminada mal a coligação tomou posse. Compete aos accionistas escolherem o caminho, palavra de Ministro.
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Os trofenses sentem na pele a política de privatizações impostas pelas políticas nefastas perpetuadas pelos sucessivos governos. Por isso é que pagam a água mais cara do país. Por isso é que num futuro próximo, com a concessão/privatização das linhas suburbanas da CP, os trofenses vão pagar mais pelos bilhetes de comboio.
É este o reino prometido.