Volvido o ano, e não totalmente refeitos ainda da quadra natalícia, é maré de deitar contas à vida. O fundamental e habitual balanço do que transitou e a expectativa do insondável novo ano, convergem num misto de crítica e esperança. Dois mil e seis consubstanciou-se, em grande medida, em mais uma página (oxalá a última) de um extenso período de introspecção e hesitação, isto é, do que conjunturalmente ousamos apelidar de crise da Nação. Desabridamente, os meses sucederam-se (dir-se-ia) clonados.

Na Trofa, o ano findo trouxe uma vez mais a imagem de amarras de desejos (independência gradualmente sedimentada e prosperidade de todos os munícipes) e Helder Reisde receios (iniciativa e coragem para o afrontamento político). Potenciaram-se e somaram-se vontades, cujo único efeito visível teve consubstanciação num labiríntico emaranhado de contradições – recordemos, à laia de exemplo, o último capítulo da saga «Plataforma Logística da Trofa / Maia», ou, o aumento da taxa de derrama para o escalão máximo legalmente permitido. Estes elementos perfilaram-se paradigmaticamente caracterizadores da vaga de escolhos que teimam tolher os movimentos de grupos nacionais ou internacionais com intenções de investir na indústria, comércio ou serviços na nossa região, e certamente constituirão motivos para as escolhas recairem sobre outros municípios, atentos às modernas necessidades empresariais, permitindo multiplicar aí o emprego.

A Economia, em termos abstractos, e fruto do boom dos países não ocidentais, transferiu o seu centro gravitacional para um plano aberto, no qual tomou forma um triângulo – os seus vértices são, hoje, a globalização, a concorrência e (na Europa, América e Japão) a protecção e o incentivo estatal (no caso vertente, das Autarquias Locais), por oposição ao anterior modelo mais liberal de regulador de mercado.

Urge, pois, ter a ousadia de transpôr as fronteiras do lúgrube e denso bosque de imobilismo em que nos perdemos e, com passada firme, traçar em céu aberto o caminho que possa, atodos os trofenses, desvendar um futuro luminoso.

As maleitas de que padecemos, infectam todo o país. É sorte que não nos aproveita. Multiplicam-se serviços e funcionários e, do mesmo passo, rareiam obras e exercidas tarefas.

Os desafios são batalhas conhecidas de todos nós. A principiar pelos acessos a todas as freguesias que compõem a Trofa. O Metro, as Variantes às Nacionais 14 e 104 correm o risco de se tornarem personagens de uma peça nunca encenada, perecendo lentamente nas gavetas de secretárias enpoeiradas.

Não obstante, outras há que apenas podem ser tidas por conto popular, não chegando sequer a serem vertidas na palavra escrita – como é o caso do Plano Director Municipal, o qual, em inícios de 2007, ainda não foi aprovado.

Os termos exactos da cidadania exigem-nos mais e melhor: devemos, todos, largar a confortável poltrona de espectador da vida, no sentido de, enfim, tomarmos em mãos as máscaras de actores principais. Destarte, não basta aos trofenses dar a benção eleitoral a qualquer órgão executivo do poder local e daí lavarem as suas mãos: é imperativo arregimentar valores e condutas pendentes da ética e convertê-los em determinação popular e dinâmica colectiva.

O Ano de 2007 será ano de apresentação de resultados e já não de anúncios, desejos e orfãs medidas, sem qualquer encadeamento lógico. E que seja o ano da ruptura na Trofa. Que seja o tempo da valorização da substância, em deterimento da forma, tempo da pessoa, em deterimento de apelido e da amizade de ocasião.

E porque é tempo de formular desejos, confidenciamos alguns para a nossa terra: que a Câmara Municipal possa começar a construção física da sua casa e seja iniciada a construção dos paços do concelho; que se inicie também a construção da Área de Localização Empresarial da Trofa; que a discussão nacional do novo Mapa Judiciário permita a criação do Tribunal Judicial da Comarca da Trofa; e que os clubes desportivos do município nos presenteiem com vitórias.

A todos, votos de um Bom Ano.

Helder Reis