Neste longo rescaldo das eleições europeias, a política portuguesa, mais uma vez, mostra as suas capacidades de reinvenção da língua portuguesa. Depois do já cânone “irrevogável”, chega agora o “ganhar é perder e perder é ganhar”. Aliás, a velha máxima de que todos ganham em dia de eleições, desfez-se pela noite dentro do passado dia 25, aparecendo logo quem pedisse a cabeça dos líderes da coligação que governa Portugal, coligação esta que teve o pior resultado (comparação do somatório PSD e CDS-PP) das 38 eleições desde 1975. Desculpem! Erro meu! Foi pedida a cabeça do secretário-geral do PS, o partido que ganhou as eleições europeias.

 

Em termos políticos, a vitória do PS foi a possível, não podendo este partido de modo algum dissociar-se do pacto de agressão e das respectivas políticas de austeridade. Vendo bem, o embrião destas políticas ruinosas foi concebido nos Programas de Estabilidade e Crescimento do 2º governo de José Sócrates. Mas esta cisão dentro do PS é reveladora das mentes dos dirigentes socialistas. Em vez de arrepiarem caminho e interpretarem a elevada abstenção ou o voto no fenómeno celeste chamado Marinho Pinto (ainda agora eleito para o parlamento europeu e já pensa nas legislativas e presidenciais; ambição a este não falta) como uma atitude de protesto contra os partidos do “arco de governação” e uma vontade de ruptura, as luminárias socialistas só pensam numa nova maioria. Cegos pela gula da maioria absoluta, até se esquecem que a esquerda ganhou as eleições (somados, PS, CDU e BE tiveram 48,8% de votos contra 27,7% da coligação de direita). E a tal convergência das esquerdas de que tanto se fala? Onde aparece o PS disponível para um diálogo com as forças mais à sua esquerda? António José Seguro tem revelado inércia nesse campo, bem visível numa intervenção atarantada na manhã de votação da moção de censura, onde a certa altura diz que o agendamento desta impediu um debate quinzenal e um “cara a cara” com Passos Coelho (pensava eu ingenuamente que o debate quinzenal no parlamento era com todas as forças parlamentares). E, nesta guerra sem quartel nas hostes socialistas, alguém me pode informar quais as diferenças políticas entre António Costa e António José Seguro? Alguém vê um debate de ideias, de verdadeira discussão política em torno de alternativas ao actual governo? Podem usar uma lupa. O que parece bem visível é uma guerra pessoal, de egos, de interesses instalados, que nada trazem para o espaço de debate e de alternativa política.

 

A talho de foice. Frete? Frete fez o PS ao governo ao conseguir desviar as atenções da estrondosa derrota da direita e da contínua guerrilha ao Tribunal Constitucional.