Seguindo o velho brocardo ético e cristão de não fazer aos outros o que a mim não gostaria que me fizessem, partindo do principio da física de que tudo o que vive é composto da mesma matéria e, por fim, considerando o paradigma do novo testamento que designa mentiroso aquele que diz amar a Deus, que não vê, e não ama o seu semelhante, que vê, considero que me sentiria muito mal em imaginar-me numa praça, a correr desesperadamente, tentando fugir aos cornos de um touro, enquanto a plateia, composta por centenas de touros sentados, vibrava efusivamente com as minhas tentativas de escapar e com a arte, a força e a perspicácia do touro protagonista em me alcançar.

Na velha arena romana o homem comportou-se como estes touros da plateia imaginada, promovendo a luta de homens contra homens, quase sempre escravos, que é o mesmo que dizer “coisas”, até à morte, ou de lutas ferozes de homens e animais, de onde faziam do jorro do sangue dos corpos esventrados um espetáculo. A tradição desta luta desumana nas arenas, onde afinal também foram barbaramente assinados muitos cristãos, passou e ainda persiste nos nossos dias em alguns espetáculos absolutamente deploráveis.

Um deles é a guerra, só que a arena é enorme e o show é muitas vezes televisionado, onde a morte e o sofrimento resultam completamente banalizados.

Outro que também ainda persiste, chama-se “tourada”.

Estes costumes bárbaros foram sabiamente ridicularizados ainda no Séc. XIX pelo grande Eça de Queirós na base de uma crítica de costumes segundo um pensamento cultural e pequeno-burguês da época.

Ary dos Santos deu-lhes outra volta. E se em parte decorre em a “Tourada” um paralelismo entre o regime caduco e uma censura estúpida e as próprias “feras”, por outro lado são bem retratados os aficionados cativos e vitalícios: « entram velhas doidas e turistas/…/entram benefícios e cronistas/ entram aldrabões/entram marialvas e coristas/entram galifões de crista/…/ entra a aficionada e a caduca/mais o snobismo…/entram empresários moralistas/entram frustrações/entram antiquários e fadistas/e contradições…»

Já agora, mais uma contradição: a Trofa não tem nem arena, nem praça, nem tradição sequer, mas vai ter uma tourada.

Num tempo em que surgem mais e mais movimentos cívicos contra as touradas, em que algumas praças vão sendo transformadas, em que começa a haver um entendimento de que o homem não é o centro de todas as coisas e que o respeito pela natureza e a preservação do equilíbrio ecológico são essenciais à vida, que se quer salutar e elevada, na Trofa promove-se um evento que significa um retrocesso civilizacional. Será fruto destes tempos de Troikas…de pesados sacrifícios sobre os trabalhadores e o povo em geral…dos fechos das urgências hospitalares e tribunais…será porque a influência da dita “experiência” é suficiente para se ter uma licenciatura? Não sei.

O mau das touradas é a sua tentativa de fazer a assistência se divertir, gozar e deleitar com o sofrimento dos animais. É transformar em espetáculo o derrame do sangue dos animais apenas para gáudio dos espectadores. Por isso, amigo leitor, seja seu amigo, sendo amigo do planeta, do seu semelhante…e dos animais. Diga não a touradas.

Guidões, 24 de Julho de 2012.

Atanagildo Lobo

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