Caros Leitores,
Como seria habitual, e como havia sido o meu comprometimento para com a periodicidade desta rubrica, seria meu dever fazer uma apresentação geral dos filmes e festivais em cartaz no mês seguinte, por forma a dar continuidade ao caminho que vem sendo trilhado na divulgação do cinema Português. No entanto, devido à importância do assunto que abordo, escolhi reservar um lugar de destaque a outro tema, que não sendo atual, não deixa de ser pertinente. O 25 de Abril de 1974 e as repercussões que este teve junto da comunidade cinematográfica, para que não ousemos esquecer este fatídico dia e as motivações daqueles que lhe deram forma.
Preâmbulo à parte, faço agora breve menção aos filmes que penso serem relevantes mencionar.
Principio pelo filme RUTH, com estreia marcada para o dia 3 de maio, que surge como a primeira longa-metragem de António Pinhão Botelho, após um percurso discreto, incluindo pequenas participações em filmes como MISTÉRIOS DE LISBOA, de 2010, um trabalho relativamente consistente no formato curta metragem, como a curta O RIO, de 2014, ou em telesséries como a FILHO DA MÃE em 2015. Segundo a folha de cartaz do filme, trata-se de um retrato dos meandros que envolveram o início da carreira da lenda do futebol, Eusébio da Silva Ferreira, que surge num momento conturbado da história do país, em pleno teatro da guerra colonial Portuguesa em África. De certo, uma interessante forma de relembrar aquele que é, ainda hoje, um dos símbolos máximos do futebol Português.
LUZ OBSCURA de Susana de Sousa Dias estreia a 10 de maio, após um circuito por festivais, nomeadamente o DocLisboa 2017. Na continuidade do trabalho de recolha e análise de arquivo que a realizadora tem vindo a fazer sobre a Ditadura do Estado Novo, iniciado em 2000 com o documentário PROCESSO-CRIME 141/53 – ENFERMEIRAS NO ESTADO NOVO, e mais recentemente com os trabalhos NATUREZA MORTA de 2005 e 48 de 2010, este seu novo filme remete-nos para um trabalho de fotografia de cadastro de presos políticos, neste caso em particular, a família do militante comunista Octávio Pato, o irmão mais novo nascido na clandestinidade que aparece numa fotografia da PIDE, no colo da mãe.
Menções feitas, passemos ao intento ao qual me propus. O 25 de Abril de 1974 fez-se nas ruas, a realidade, o interesse, estava ali. Assim, nos primeiros momentos da revolução, interessava registar aquilo que as ruas proporcionavam, o veio da Revolução transfigurado na massa humana que por elas marchava e elas preenchia. Neste contexto, surge o documentário, “As Armas e o Povo” que reuniu dezenas de colaboradores em redor de um objetivo comum, a documentação do momento histórico e fraturante que presenciavam, “para que a luta de hoje não faça varrer da memória as humilhações de ontem”. Um documento para a história não só do cinema Português mas, e acima de tudo, para o país, Portugal. Um pouco por todo o país, jovens realizadores e entusiastas, em pequenos grupos e em formato 16 mm, captaram algumas das mais belas imagens desta revolução, e ditaram o cinema que conhecemos como “Cinema de Intervenção”.
No entanto, o seu próprio “manifesto” aconteceria a 29 de abril de 1974. Gentes ligadas às artes fazem também a sua marcha, invadindo as instalações da Direção dos Serviços de Espetáculos e Instituto de Cinema Português, reivindicavam o cinema que devia “atuar como motor transformador do país, libertando-se ao mesmo tempo da hegemonia do cinema norte-americano que tinha asfixiado a sua produção e exibição.” Por outras palavras, restituir a preponderância aos cineastas portugueses ou aqueles que de algum modo procuravam fazer cinema em Portugal. Isto traria implicações e problemas que iriam constituir motivo de várias e sucessivas leis, remodelações e conflitos entres os vários elementos do setor.
A premissa inicial destes realizadores, desde cedo, provocou opiniões e posições opostas. Por um lado, os setores de produção procuravam reestruturar e revitalizar o cinema Português, procurando combater o imperialismo americano afastando-o da exibição comercial de cinema. Proponha-se a “abolição total da sua entrada no mercado Português”, fomentando desta forma a visibilidade e promoção do cinema nacional, cultivando o povo com “cinema Português, falado em português”, e, garantindo assim, a continuidade de uma forma de expressão em vias de desaparecimento. Por outro lado, era a produção americana a principal fonte de rendimento do setor da exibição e distribuição, temendo que esta nova forma de ver o mercado pudesse abarcar consequências e prejuízos irreparáveis. Previa-se então assim um longo período de conflitos.
No entanto, as grandes questões levantadas, o ímpeto de um cinema de cunho nacional, e uma política concreta que limitasse o setor da distribuição acabou por nunca tomar forma. Como se os verdadeiros anseios do 25 de Abril, afinal, ainda procurassem resposta.
Cabe-nos hoje, a nós, ilustres habitantes da Ocidental Praia Lusitana, continuar a procurar o nosso caminho, a nossa causa. E como é o cinema, uma nobre causa, vale, de certo a pena, lutar por ele.Até à próxima rubrica, e, até lá, boas sessões de cinema!