As máscaras que usamos

Vivemos num mundo de mudança quase permanente, um mundo no qual as coisas duram tempos muito menores do que faziam há cerca de cinquenta anos atrás. Aquilo que hoje é regra, amanhã deixa de ser.
Neste mundo tão volátil, dou por mim a pensar nas etapas da nossa vida e em qual delas podemos dizer que fizemos, definitivamente, a transição para a idade adulta, na maioria dos casos. Será pela vertente financeira, a partir do momento em que ganhamos a nossa independência monetária face aos nossos pais? Ou será pela vertente profissional, quando arranjamos o primeiro trabalho e começamos a ter outro tipo de responsabilidades? Ou, em último caso, quando vamos estudar para fora, tendo que haver a lei do desenrasque, pela não presença dos pais para fazerem as coisas por nós.
Em cada uma destas situações, no entanto, a presença dos pais ou das pessoas que nos criaram é forte. Ou, pelo menos, pode ser forte.
No entanto, há uma situação na qual estamos mesmo por nossa conta e penso que aí, nesse preciso momento, a vida adulta toma conta de nós.
É o momento em que começamos a verem ser desconstruídas as imagens que temos do mundo. Essencialmente das pessoas que nos rodeiam e das situações que tomávamos por garantidas. Lentamente (ou não), essas imagens, que não passavam de construções mentais, caem com estrondo. Ficamos desiludidos, com um amargor na boca, sem perceber o porquê de tudo isso. Podemos chorar, passamos horas a pensar no assunto, mas como tudo na vida, o resultado não muda, não há um checkpoint no tempo para onde podemos regressar e retificar tudo.
Então aceitamos. Mais cedo ou mais tarde, aceitamos. Não porque nos resignamos, mas porque odiamos que a vida nos deite abaixo. Aceitamos e procuramos formas de lidar com essa situação. É aí que nascem as máscaras que usamos. É aí que aprendemos a fingir um sorriso quando, em condições normais, nunca sorriríamos. É aqui que nos tornamos camaleões emocionais perante aquilo que a vida, e a situação, pedem.
É aí que sentimos que deixamos de ser nós mesmos, porque deixamos de ser genuínos. Deixamos de dizer o que pensamos, quando pensamos, como pensamos, porque A, B ou C não iriam gostar, porque o contexto é errado ou até porque nos pagam o salário. É aí que vemos os nossos valores, tão importantes para nós ao longo do nosso crescimento, a darem lugar a máscaras temporárias e também elas voláteis, por uma questão de sobrevivência num mundo cada vez mais feio, num mundo que cada vez mais prefere máscaras a carne e osso, mentiras piedosas a verdades claras, pensamento manada a pensamento próprio.
E andamos assim, pendurados por fios invisíveis, a tentar agradar aos outros, numa escada invisível da qual ninguém tem a verdadeira noção. Olhar para cima faz doer o pescoço e preferimos encarar a calçada.
Talvez o segredo seja encontrar um ponto de equilíbrio entre o que somos e o que querem que sejamos. Talvez seja essa corda fina entre dois arranha-céus que temos que aprender a dominar.
Ou talvez… Nada disto tenha que ser necessariamente verdade. Talvez possamos realmente ser nós mesmos, com todos os defeitos e virtudes, e singrar. Singrar porque valemos intrinsecamente alguma coisa. Ter sucesso porque lutamos e porque somos diferentes o suficiente para arriscar o que os outros não arriscam. Talvez…
Mas acima de tudo, que essa não seja também uma máscara com a qual agradamos… a nós próprios. Não nos podemos esquecer de quem é o nosso pior inimigo.