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Edição 674

Crónica Literária mente por César Alves

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As máscaras que usamos

Vivemos num mundo de mudança quase permanente, um mundo no qual as coisas duram tempos muito menores do que faziam há cerca de cinquenta anos atrás. Aquilo que hoje é regra, amanhã deixa de ser.
Neste mundo tão volátil, dou por mim a pensar nas etapas da nossa vida e em qual delas podemos dizer que fizemos, definitivamente, a transição para a idade adulta, na maioria dos casos. Será pela vertente financeira, a partir do momento em que ganhamos a nossa independência monetária face aos nossos pais? Ou será pela vertente profissional, quando arranjamos o primeiro trabalho e começamos a ter outro tipo de responsabilidades? Ou, em último caso, quando vamos estudar para fora, tendo que haver a lei do desenrasque, pela não presença dos pais para fazerem as coisas por nós.
Em cada uma destas situações, no entanto, a presença dos pais ou das pessoas que nos criaram é forte. Ou, pelo menos, pode ser forte.
No entanto, há uma situação na qual estamos mesmo por nossa conta e penso que aí, nesse preciso momento, a vida adulta toma conta de nós.
É o momento em que começamos a verem ser desconstruídas as imagens que temos do mundo. Essencialmente das pessoas que nos rodeiam e das situações que tomávamos por garantidas. Lentamente (ou não), essas imagens, que não passavam de construções mentais, caem com estrondo. Ficamos desiludidos, com um amargor na boca, sem perceber o porquê de tudo isso. Podemos chorar, passamos horas a pensar no assunto, mas como tudo na vida, o resultado não muda, não há um checkpoint no tempo para onde podemos regressar e retificar tudo.
Então aceitamos. Mais cedo ou mais tarde, aceitamos. Não porque nos resignamos, mas porque odiamos que a vida nos deite abaixo. Aceitamos e procuramos formas de lidar com essa situação. É aí que nascem as máscaras que usamos. É aí que aprendemos a fingir um sorriso quando, em condições normais, nunca sorriríamos. É aqui que nos tornamos camaleões emocionais perante aquilo que a vida, e a situação, pedem.
É aí que sentimos que deixamos de ser nós mesmos, porque deixamos de ser genuínos. Deixamos de dizer o que pensamos, quando pensamos, como pensamos, porque A, B ou C não iriam gostar, porque o contexto é errado ou até porque nos pagam o salário. É aí que vemos os nossos valores, tão importantes para nós ao longo do nosso crescimento, a darem lugar a máscaras temporárias e também elas voláteis, por uma questão de sobrevivência num mundo cada vez mais feio, num mundo que cada vez mais prefere máscaras a carne e osso, mentiras piedosas a verdades claras, pensamento manada a pensamento próprio.
E andamos assim, pendurados por fios invisíveis, a tentar agradar aos outros, numa escada invisível da qual ninguém tem a verdadeira noção. Olhar para cima faz doer o pescoço e preferimos encarar a calçada.
Talvez o segredo seja encontrar um ponto de equilíbrio entre o que somos e o que querem que sejamos. Talvez seja essa corda fina entre dois arranha-céus que temos que aprender a dominar.
Ou talvez… Nada disto tenha que ser necessariamente verdade. Talvez possamos realmente ser nós mesmos, com todos os defeitos e virtudes, e singrar. Singrar porque valemos intrinsecamente alguma coisa. Ter sucesso porque lutamos e porque somos diferentes o suficiente para arriscar o que os outros não arriscam. Talvez…
Mas acima de tudo, que essa não seja também uma máscara com a qual agradamos… a nós próprios. Não nos podemos esquecer de quem é o nosso pior inimigo.

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Edição 674

João Seabra e Joel Ricardo Santos no Coronado ConVida

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O Coronado ConVida está de volta. Este ano, de 30 de agosto a 2 de setembro, a gastronomia e o artesanato da região, bem como a animação, vão estar presentes no Largo do Divino Espírito Santo, em S. Mamede do Coronado.

O certame começa com uma noite dedicada à moda. A 30 de agosto, quinta-feira, pela passerela vai desfilar o melhor das lojas da freguesia. No dia seguinte, a noite é dedicada à comédia, com João Seabra e Joel Ricardo Santos a protagonizarem um dos momentos mais esperados. O primeiro dia de setembro é dedicado ao folclore. No domingo, 2 de setembro, decorre a Festa dos Êxitos Portugueses. A partir das 10 horas há zumba e às 14 horas atuam o grupo de dança As Rebeldes, Pedro Cruz, Sylvia, Rafaela Santos, Ricardo Mateus, Rui Fontelas, Manu, Marta Miranda, Daniel Miranda, Vítor Faria, Deniz Pereira, Porfírio Manuel, Pedro Vieira, Ben, Sérgio Santos e Bruno Fernandes.
A 8.ª edição apresenta algumas novidades nomeadamente o número de dias de certame. De oito passaram a quatro, “atendendo ao feedback ao longo das edições anteriores”, explicou José Ferreira, presidente da Junta de Freguesia do Coronado. Outra das novidades está relacionada com a organização do espaço. “Este ano, vamos usar umas bancas diferentes, abertas, o espaço para o público será mais fluído e os expositores podem mostrar melhor os seus produtos. A praça da alimentação e do espetáculo serão deslocalizadas”, adiantou o autarca. O objetivo é tornar “o Coronado ConVida uma iniciativa mais intensa, atrair mais gente e dar a conhecer a vila do Coronado”. “Queremos que este Coronado ConVida, que é uma referência já na nossa comunidade, cresça de forma sustentada”, finalizou José Ferreira.

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Crónica de José Moreira da Silva

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Eles comem tudo e não deixam nada”

O argumento utilizado pela governação, para não construir obras importantes e estruturantes nalgumas localidades é que o país está em crise. Tem sido este o argumento esfarrapado do poder central, mas a verdade é que não há vontade política para serem efetuadas essas obras há muito prometidas, só porque não se localizam na capital. Apenas isso!
Em Coimbra foi retirado, há duas dezenas de anos, o comboio urbano e suburbano, para ser construído no mesmo ramal, o metro de superfície. Nos anos posteriores foi anunciado o começo das obras, só que o poder central nunca adjudicou qualquer obra nesse sentido, e as pessoas de Coimbra, Miranda do Corvo e Lousã ficaram sem o seu meio de transporte. Hoje, depois de muitos anos passados e muitas promessas, nem comboio nem metro de superfície!
O mesmo aconteceu na Trofa, em que uma parte significativa dos trofenses ficou sem o seu meio de transporte tradicional, o comboio que tinham desde 1932 e foi desativado em 2002, com a promessa de ser construído em quatro anos o metro de superfície, aproveitando o canal existente. Só que o metro foi contruído até à Maia, ficando por construir pouco mais de meia dúzia de quilómetros. Muitos anos passados e muitas promessas, e uma parte significativa de trofenses nem comboio nem metro têm para se deslocar para os seus locais de trabalho!
A Estrada Nacional 14 é uma via de acesso a vários núcleos habitacionais e a várias zonas industriais importantes, onde existem empresas com forte vocação exportadora. Por isso é que foi anunciado há muitos anos a construção de uma variante, desde a Maia até Famalicão, embora nada tenha sido feito nesse sentido, mantendo-se a mesma situação caótica em termos de trânsito, pois são precisas horas para percorrer apenas uma dúzia de quilómetros.
Estes são apenas três exemplos de um poder centralista e macrocéfalo, que alega a crise financeira para não serem feitas estas obras importantes e estruturantes, numa zona do país que também é Portugal. Ao contrário do que acontece na capital, em que estão projetadas grandiosas obras, quer em termos de engenharia quer em termos financeiros.
A rede do Metropolitano de Lisboa vai ser prolongada em mais quatro quilómetros e serão construídas quatro novas estações (Estrela, Santos, Campolide e Amoreiras), para além de uma ligação pedonal subterrânea, entre a futura estação das Amoreiras e o bairro de Campo de Ourique. Neste prolongamento da rede do metro da capital, a governação vai investir quase mil milhões de euros, em apenas quatro quilómetros e seis novas estações, em zonas onde existem transportes alternativos (elétricos e autocarros).
Também em Lisboa está a nascer uma obra megalómana, um novo corredor verde, que vai ligar Campolide a Alcântara, o parque de Monsanto ao rio Tejo, através de caminhos pedonais, ciclovias, túnel, junção de bairros, um parque urbano e mais tarde a ampliação do terminal de contentores e a construção de um troço da linha férrea subterrânea. São muitos milhões de euros, para uma obra que só será feita porque está localizada na capital.
A dívida dos hospitais Santa Maria e Pulido Valente (ambos de Lisboa) cresceu sete milhões de euros por mês em 2017. Se o Centro Hospitalar Lisboa Norte alcançasse custos por doente padrão iguais aos do Centro Hospitalar de São João (Porto), teria obtido (em 2014-2016) uma poupança de 211 milhões de euros. Este valor seria suficiente para o Estado financiar, por exemplo, a realização de três milhões de consultas externas ou o tratamento de 30 mil doentes com hepatite C, para falar só em termos de saúde.
Estes são outros três exemplos de um poder centralista e macrocéfalo, para quem já não há crise financeira. Por tudo isto é que é muito apropriado dizer, como na canção: eles comem tudo e não deixam nada! É uma vergonha nacional, pois para Lisboa tudo, ou quase tudo, enquanto para o “resto do país” nada, ou quase nada.

moreira.da.silva@sapo.pt
www.moreiradasilva.pt

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