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Edição 668

Crónica Literária Mente: A Palavra – Revoluções, Livros e Poder

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Cada pessoa encara o seu aniversário da sua própria forma particular. Quanto a mim, não é tanto o dia, mas a semana. A semana do meu aniversário, esta, é sempre um momento de reflexão profunda sobre a vida e sobre o que andamos (e ando) a fazer nela e com ela.
Tendo nascido entre o Dia Mundial do Livro e o dia que celebra a nossa revolução, sinto-me imbuído, como se fosse a minha missão (e acredito que todos teremos uma) de incitar ao pensamento pelo livro, pela escrita, pela palavra.
Continuo, ainda hoje, a acreditar firmemente na ideia de que a palavra é a arma mais poderosa que temos à nossa disposição. Para o mal, mas também para o bem.
Foi pela palavra que grandes autoritarismos se levantaram. Pelo domínio do discurso, pela escolha detalhada daquilo que esse discurso incluiu, pelo meio e pela forma como essa palavra era espalhada pelas massas. E esta é, talvez, a palavra-chave. As massas. Não se engane, caro leitor. O poder está nas massas, está nas pessoas, está no povo. Podemos viver numa pirâmide de poder, mas a base (as massas), é o maior estrato e, logo, aquele com maior força.
É pelo controlo das massas que o mundo se rege, seja em termos políticos ou, na era da informação, em termos de comunicação. E acredito fielmente que seria a partir deste ponto que essas mesmas massas poderiam mudar o mundo, torná-lo mais justo, mais adequado àquilo que são as necessidades de todos e de cada um. Comunicação de massas.
Comunicação não para as massas, mas entre as massas. Que o diálogo entre cada um de nós fosse ensinado, construído e limado desde cedo, desde que somos crianças, preparando-nos para enfrentar o mundo a partir de um ponto de vista crítico e consciente. E que essa preparação formasse cidadãos conscientes de si e do mundo, conscientes do que os rodeia e do contributo que têm ao seu alcance para fortalecer esse contexto. Penso que seja aqui que está guardada a chave para uma melhoria global. A comunicação entre nós. Vivemos numa sociedade de culto à personalidade, onde figuras públicas (não colocando em causa o seu mérito) são elevadas quase à posição de deuses, onde as grandes empresas olham para as pessoas do ponto de vista do capital, onde um soundbite tem mais força do que uma ideia concreta e que ouse desviar-se do rumo traçado por quem nem sequer nos conhece.
Conversava, recentemente, com dois amigos, sobre o poder. O que é o poder? Quem tem o poder?
E penso que, embora o dinheiro continue a mover multidões e a gerir, quase por si só, as grandes instituições que nos governam, o verdadeiro poder está na palavra. No seu conteúdo, na sua forma e na sua difusão. Temos de rever as nossas prioridades individuais e dar à palavra a atenção e a importância que ela merece. Esqueçamos a comunicação para as massas que, de uma regra geral, serve para criar comportamentos de manada, pensamentos gerais e acríticos, que não ponham em causa o(s) sistema(s) instalado(s). Trabalhemos na comunicação entre as massas, que permita percebermo-nos mutuamente, que permita ter a verdadeira noção das nossas capacidades e limitações, e do que é que somos capazes para tornar um mundo um lugar melhor. Assumo-me fortemente contra todas as formas de instrumentalização da mente humana. E penso que esse é um bom primeiro passo. Literariamente, estamos conversados

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Anita Campos selecionada por escola do Reino Unido

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Anita Campos, da escola Passos de Dança, embarca numa das mais importantes aventuras da sua ainda curta carreira como bailarina. A trofense foi selecionada para o curso de verão da Elmhurts Ballet School, uma escola de ballet clássico que funciona em regime de internato e que está associada ao Birmingham Royal Ballet.

Para Márcia Ferreira, responsável pela Passos de Dança, “a Elmhurts é uma das melhores escolas de ballet clássico a nível europeu” e tem “um número limitado de vagas, por isso só aceitam os alunos que, não só fisicamente mas a nível de currículo, tenham as melhores condições e capacidades”. Entre as candidaturas aceites este ano está a de Anita Campos, uma bailarina a quem a professora Márcia reconhece “capacidades físicas fora do normal”.
“Ela tem um corpo com condições físicas que lhe permitem, se ela trabalhar, atingir um nível técnico muito elevado”, explicou. Apesar de ser “muito magra”, o que lhe provoca “um défice de força”, Anita tem trabalhado para conseguir alcançar uma carreira profissional na dança.
Para a professora, “quem olha para a Anita percebe que ela tem todas as capacidades para atingir o topo e poder ter uma carreira profissional nesta área”.
Anita Campos integrará a escola do Reino Unido de 12 a 18 de agosto. “Espero que venha ainda mais motivada, para poder evoluir, e acho que lhe vai fazer muito bem ao nível da maturidade”, acrescentou Márcia Ferreira.
No entanto, terão que ser os pais de Anita a patrocinar o seu sonho. A falta de apoio às artes entristece Márcia Ferreira, que considera que a sociedade ainda olha para o ballet clássico como um “luxo”. “As pessoas esquecem-se que estamos a falar de arte e de dotar crianças com competências que são para a vida”, frisou. “No caso da Anita é mesmo o lutar por um sonho de uma carreira” que vai custar aos pais “entre 800 a mil euros”. “Apoiar a dança é tão importante como apoiar o futebol, o ciclismo ou outra modalidade qualquer. As minhas alunas conseguem elevar e representar a cidade, ganhar prémios e acho que isso é de louvar e incentivar, por isso se alguém quiser dar um apoio à Anita, estamos sempre disponíveis para agradecer”, apelou a responsável pela Passos de Dança.

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Crónica: Olhar o cinema nacional

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Caros Leitores,
Como seria habitual, e como havia sido o meu comprometimento para com a periodicidade desta rubrica, seria meu dever fazer uma apresentação geral dos filmes e festivais em cartaz no mês seguinte, por forma a dar continuidade ao caminho que vem sendo trilhado na divulgação do cinema Português. No entanto, devido à importância do assunto que abordo, escolhi reservar um lugar de destaque a outro tema, que não sendo atual, não deixa de ser pertinente. O 25 de Abril de 1974 e as repercussões que este teve junto da comunidade cinematográfica, para que não ousemos esquecer este fatídico dia e as motivações daqueles que lhe deram forma.
Preâmbulo à parte, faço agora breve menção aos filmes que penso serem relevantes mencionar.
Principio pelo filme RUTH, com estreia marcada para o dia 3 de maio, que surge como a primeira longa-metragem de António Pinhão Botelho, após um percurso discreto, incluindo pequenas participações em filmes como MISTÉRIOS DE LISBOA, de 2010, um trabalho relativamente consistente no formato curta metragem, como a curta O RIO, de 2014, ou em telesséries como a FILHO DA MÃE em 2015. Segundo a folha de cartaz do filme, trata-se de um retrato dos meandros que envolveram o início da carreira da lenda do futebol, Eusébio da Silva Ferreira, que surge num momento conturbado da história do país, em pleno teatro da guerra colonial Portuguesa em África. De certo, uma interessante forma de relembrar aquele que é, ainda hoje, um dos símbolos máximos do futebol Português.
LUZ OBSCURA de Susana de Sousa Dias estreia a 10 de maio, após um circuito por festivais, nomeadamente o DocLisboa 2017. Na continuidade do trabalho de recolha e análise de arquivo que a realizadora tem vindo a fazer sobre a Ditadura do Estado Novo, iniciado em 2000 com o documentário PROCESSO-CRIME 141/53 – ENFERMEIRAS NO ESTADO NOVO, e mais recentemente com os trabalhos NATUREZA MORTA de 2005 e 48 de 2010, este seu novo filme remete-nos para um trabalho de fotografia de cadastro de presos políticos, neste caso em particular, a família do militante comunista Octávio Pato, o irmão mais novo nascido na clandestinidade que aparece numa fotografia da PIDE, no colo da mãe.
Menções feitas, passemos ao intento ao qual me propus. O 25 de Abril de 1974 fez-se nas ruas, a realidade, o interesse, estava ali. Assim, nos primeiros momentos da revolução, interessava registar aquilo que as ruas proporcionavam, o veio da Revolução transfigurado na massa humana que por elas marchava e elas preenchia. Neste contexto, surge o documentário, “As Armas e o Povo” que reuniu dezenas de colaboradores em redor de um objetivo comum, a documentação do momento histórico e fraturante que presenciavam, “para que a luta de hoje não faça varrer da memória as humilhações de ontem”. Um documento para a história não só do cinema Português mas, e acima de tudo, para o país, Portugal. Um pouco por todo o país, jovens realizadores e entusiastas, em pequenos grupos e em formato 16 mm, captaram algumas das mais belas imagens desta revolução, e ditaram o cinema que conhecemos como “Cinema de Intervenção”.
No entanto, o seu próprio “manifesto” aconteceria a 29 de abril de 1974. Gentes ligadas às artes fazem também a sua marcha, invadindo as instalações da Direção dos Serviços de Espetáculos e Instituto de Cinema Português, reivindicavam o cinema que devia “atuar como motor transformador do país, libertando-se ao mesmo tempo da hegemonia do cinema norte-americano que tinha asfixiado a sua produção e exibição.” Por outras palavras, restituir a preponderância aos cineastas portugueses ou aqueles que de algum modo procuravam fazer cinema em Portugal. Isto traria implicações e problemas que iriam constituir motivo de várias e sucessivas leis, remodelações e conflitos entres os vários elementos do setor.
A premissa inicial destes realizadores, desde cedo, provocou opiniões e posições opostas. Por um lado, os setores de produção procuravam reestruturar e revitalizar o cinema Português, procurando combater o imperialismo americano afastando-o da exibição comercial de cinema. Proponha-se a “abolição total da sua entrada no mercado Português”, fomentando desta forma a visibilidade e promoção do cinema nacional, cultivando o povo com “cinema Português, falado em português”, e, garantindo assim, a continuidade de uma forma de expressão em vias de desaparecimento. Por outro lado, era a produção americana a principal fonte de rendimento do setor da exibição e distribuição, temendo que esta nova forma de ver o mercado pudesse abarcar consequências e prejuízos irreparáveis. Previa-se então assim um longo período de conflitos.
No entanto, as grandes questões levantadas, o ímpeto de um cinema de cunho nacional, e uma política concreta que limitasse o setor da distribuição acabou por nunca tomar forma. Como se os verdadeiros anseios do 25 de Abril, afinal, ainda procurassem resposta.
Cabe-nos hoje, a nós, ilustres habitantes da Ocidental Praia Lusitana, continuar a procurar o nosso caminho, a nossa causa. E como é o cinema, uma nobre causa, vale, de certo a pena, lutar por ele.Até à próxima rubrica, e, até lá, boas sessões de cinema!

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